Dalton o que ler de nov17.2

 

Livro clássico ao se falar no que há de melhor no conto brasileiro, O vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan, acaba de ganhar nova edição pela Editora Record. A graça não está só em achar o livro nas prateleiras; há, também, um conto que não estava na versão original: A velha querida, publicado anteriormente em Novelas nada exemplares (1959). 

Por conta dessa reedição, pedimos ao escritor Luís Henrique Pellanda – autor de Detetive à deriva e leitor assíduo de Dalton – para indicar um caminho possível para adentrar na obra do vampiro. 

 

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Escrever sobre Dalton Trevisan sempre faz com que eu me repita. O mesmo acontece quando o releio. O próprio Dalton é um escritor que se repete e refunda, livro após livro, ao emular e ironizar o comportamento e o gosto da província onde nasceu e onde vive e escreve há quase cem anos. E a forma com que recicla e lapida (ou dilapida) seus contos, com que demole e reergue sua obra, diz muito a respeito desse século. Isso em termos não só estéticos, mas também políticos e, para mim, até econômicos. É com relutância que fatio aqui o seu trabalho, elegendo este ou aquele livro, pois todos me parecem parte de um tomo único, ainda inacabado. Isso é fundamental em Dalton Trevisan. A obra em constante transformação, como acontece com a língua, a reescrita sem fim. A melhor maneira de lê-lo, portanto, é lê-lo de novo, e de novo, e de novo. É como Otto Lara Resende já disse, numa carta a Fernando Sabino: “Eita rerrerreleitura!”. Dalton narra e renarra. É uma Sheherazade, mas a cabeça que vem salvando, de algum modo, também é nossa.

 

O vampiro de Curitiba (1965): o primeiro livro de Dalton que li, ainda criança. Aqui, quem o conhece já sabe, o autor transforma de vez o cenário da província em espaço de experiência narrativa radical. Povoa o ambiente de personagens com voz e desejo, mas sem força e discurso pessoal, máquinas de eco. Lembro que Nelsinho, o tarado comum, foi a primeira representação literária de homem ridículo que reconheci em mim mesmo, de forma dolorosa, na entrada da adolescência. Aliás, ele é o ponto alto de uma das muitas obsessões de Dalton: desconstruir as figuras falidas do poder masculino. Os doutores babões, os pais agressivos, os maridos lamentáveis.

A polaquinha (1985): único “romance” na obra de Dalton Trevisan, é narrado por uma prostituta em quem o leitor, travestido de cliente, se vê convocado a projetar suas fantasias de dominação e autoridade. A protagonista nos conta sua trajetória, do lar ao bordel, e com isso quer nos agradar ou entreter, mas com intenções que nos escapam (e aqui, mais uma vez, vejo a figura de Sheherazade protelando o fim da própria narrativa). No fim do livro (se é que ele se acaba), Dalton amarra uma sequência de programas idênticos, tudo se passando num mesmo quarto, capítulo depois de capítulo, o texto reproduzindo-se quase que sem alterações até a última página, o que reforça em nós, a clientela, de maneira tão incômoda quanto deprimente, a sensação de estarmos presos num enredo circular e tragicômico.

Nem te conto, João (2011): novela forjada após o reagrupamento e a reordenação de diversos contos do autor, espalhados por outros cinco livros, publicados ao longo de décadas (Abismo de rosas, Lincha tarado, Chorinho brejeiro, Essas malditas mulheres e Meu querido assassino), nos quais Dalton reafirma uma de suas maiores máximas: “Todas as histórias — a mesma história e uma nova história”. Aqui, o autor reorganiza o velho caso entre seus amantes de praxe, João e Maria. Ela o visita em seu escritório de advocacia e, em troca de pequenos favores sexuais, consegue dele algum dinheiro. Maria, no entanto, tem o cuidado de manter-se virgem, e com isso, por mil e uma tardes, ao manter João entretido com episódios banais de sua vida, vai adiando o momento da própria defloração. Um exemplo perfeito de como a escrita de Dalton pode ser encarada como um quebra-cabeças de peças comutáveis.

Ah, é? (1994): Coleção de microcontos, ou ministórias, ou haicais que coroam uma das compulsões mais conhecidas do autor: o desejo de miniaturizar o mundo por meio da linguagem, encolhendo sua obra e seu universo. É o Dalton mais sintético de que se tem notícia, afiado, irônico, comovente. Cada fragmento de narrativa recolhido aqui é o pedaço cortante de um vasto espelho partido, refletindo não o arbítrio do autor (vampiros são imunes à ação dos espelhos), mas os referenciais do leitor que nele se observa. Desse modo, portanto, não há problema em repetir-se, pelo contrário. Afinal, “você é sempre novo diante de outra pessoa”.

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