adolf hitler mein kampf neuauflage

A Geração Editorial começou a pré-venda de Minha luta (Mein kampf), de Adolf Hitler, previsto para ser lançado em março. Segundo o editor responsável, Luiz Fernando Emediato, a tiragem inicial é de 5 mil exemplares: "Se na pré-venda vendermos 10 mil, faremos 20 mil". O material de divulgação traz a imagem do seu autor na capa, o que tem causado forte debate nas redes sociais. Qual o limite ético para Hitler aparecer como garoto-propaganda? "Todos os livros sobre Segunda Guerra Mundial têm Hitler e imagens do Holocausto na capa. Por que seria diferente agora? A edição crítica alemã é uma edição acadêmica. Cada editora tem seu estilo gráfico. Essa discussão não faz sentido. As imagens de Hitler, Che Guevara, Jesus Cristo, Buda e outras são icônicas", observa Emediato. A Geração já tem em seu catálogo a biografia Hitler - Retrato de uma tirania, de Fernando Jorge, com a foto do führer.  

A publicação comercial da edição de Minha luta tem gerado conversas e controvérsias desde o fim do ano passado, quando já se antecipava que a obra entraria em domínio público a partir de janeiro de 2016. A edição da Geração Editorial conta com tradução, do original alemão, pelo tradutor gaúcho William Lagos. Haverá ainda um texto de Emediato, justificando a necessidade da edição, outro do professor doutor Nelson Jahar Garcia, da Universidade de São Paulo, já falecido, no mesmo sentido, e outro da professora doutora Eliane Hatherly Paz, da PUC do Rio. A edição terá 305 notas e apêndices extraídos da edição norte-americana de 1939. Ao todo, cerca de mil páginas. Segundo um comunicado da assessoria da Geração, algumas redes de livrarias estão cautelosas em relação à venda da obra: "Responsáveis pela Livraria Curitiba disseram que ainda não têm uma posição definida sobre o assunto; a Martins Fontes garantiu que trabalhará normalmente com a obra e a Livraria Cultura não respondeu. Saraiva está bem relutante". 

No mundo inteiro, particularmente na Europa, cenário maior da Segunda Guerra provocada pelas ideias e pelo partido nazista de Hitler, o livro tem sido tratado com bastante cautela editorial. Na Alemanha em particular, epicentro do partido nazista, um grupo de historiadores do Instituto de História Contemporânea de Munique começou a se reunir em 2009 para construir uma edição de Minha luta não apenas com notas de rodapé, mas com revisões que rebatem, refutam e contextualizam o texto do livro.

"Dessa forma, embora Minha luta esteja liberado para publicação, com essa nova edição crítica, que recebe o subtítulo de Uma edição crítica (Eine kritische edition), os potenciais leitores, sobretudo estudantes e pesquisadores, terão em mãos uma obra que desconstrói o discurso nazista e confronta o texto com informações que revelam suas rasuras e inconsistências históricas, bem como sua total falta de embasamento teórico, ou mesmo seus argumentos que alimentam o ódio, propagam o antissemitismo, e demonstram um extremo menosprezo pela Humanidade", opina Elcio Cornelsen, professor de Letras da UFMG com doutorado em Germanística.

Cornelsen comenta a iniciativa da Geração Editoral: "(a editora) promoverá a publicação de uma versão do livro com 305 notas traduzidas de uma versão norte-americana publicada em 1939, além de prefácio e dois ensaios escritos por historiadores. Uma coisa é a edição crítica alemã, com notas elaboradas por historiadores nos dias de hoje. Outra coisa é publicar uma edição crítica na tradução de notas de 1939, de uma edição norte-americana, pois em 1939 ainda não havia a dimensão do que viria a ser o Holocausto. E para um público, em geral, pouco familiarizado com contextualizações históricas mais amplas, esse aparato pode se revelar insuficiente para desconstruir o discurso nazista. O ideal é que, no contexto brasileiro, nenhuma versão dessa obra nefasta seja publicada sem um aparato crítico, uma vez que ela veicula ideias xenófobas, racistas e antissemitas, que demanda uma desconstrução em seu discurso. Quem tem uma leitura um pouco mais vasta sobre o nazismo e sobre o contexto em que surgiu consegue perceber todas as rasuras históricas e mentiras que essa obra veicula. Mas quem não detém esse conhecimento, toma a obra do tamanho que lhe é oferecida – e é aí que começa o perigo diante de sua retórica persuasiva."

Na citada edição alemã que chega agora às livrarias, diante de 780 páginas de Minha luta, os historiadores escreveram quase 1300 páginas de comentários. Ao contrário também do que acontece no Brasil, na Alemanha o livro não traz imagem de Hitler ou de símbolos do nazismo em sua capa. Em entrevista ao jornal France 24, Philippe Coen, presidente da Associação de Advogados de Empresas Europeias, disse que seria fundamental que cada edição nova do livro, por obrigação, incluísse introduções atualizadas que situassem aquele texto não apenas em respeito ao Holocausto, mas ao que acontece na política internacional hoje.

Outra editora brasileira que também planeja comercializar o livro no Brasil é a Centauro. Nessa edição, apenas o texto original de Hitler, com tradução atribuída a Klaus von Puschen, que é considerada plágio pela tradutora Denise Bottman. A denúncia foi feita no blog naogostodeplagio.blogspot.com.br. Segundo Bottman, a tradução é idêntica a do cearense Julio de Matos Ibiapina, datada dos anos 1930. Desde os anos 1980 que a Centauro (antiga Editora Moraes) vem relançando Minha luta, a despeito do embargo do livro, cujos direitos até 2015 eram do Estado da Baviera.

A Centauro tem um histórico de problemas com comunidades judaicas. Em 2006, por ordem da Justiça, 1680 exemplares do livro Os protocolos dos Sábios do Sião foram apreendidos na sede da editora, em São Paulo. A comunidade judaica considera o livro ofensivo por relatar um suposto plano de dominação do mundo feito por judeus.
Em meio ao debate, houve também quem recuasse de publicar o livro. Ao contrário do anunciado ano passado, a Edipro desistiu de lançar Minha luta. A obra contaria com uma tradução antiga de Julio de Matos Ibiapina. Em comunicado oficial, a Edipro apontou: "Todavia, devido às críticas surgidas principalmente de nossos leitores de que essa tradução, por ser antiga, não possui comentários, interpretações ou notas explicativas, poderia ser mal entendida pelo público leitor, tendo consequências maléficas a todos aqueles que tiveram seus direitos humanos desqualificados ou vilipendiados, além de poder reacender sentimentos de ódio ou discórdia, a diretoria da editora resolveu não publicar esta obra."

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A PEÇA PUBLICITÁRIA

Fernando Fontanella, professor de publicidade que hoje ministra aula de semiótica da mídia na Universidade Católica de Pernambuco, resgata as ligações históricas entre o nazismo e a publicidade na análise da imagem de divulgação do livro pela Geração Editorial. "É evidente que a imagem tem um conjunto de elementos semânticos típicos do nazismo e, o que é pior, até certo ponto integrados. O nazismo foi bem conhecido por usar elementos visuais mais ou menos óbvios de forma integrada para construir sua "narrativa". Era uma coisa pensada que se aperfeiçoou a partir da experiência fascista italiana e se sofisticou quando o nazismo chegou efetivamente ao poder e assumiu a comunicação do Estado alemão.

"O mais óbvio é a maneira como o próprio Hitler é representado. Note como a imagem dele está em um escuro, sem limites definidos, meio saindo de uma névoa: o caráter mítico do nazismo usava muito isso. Hoje isso pode significar um retorno das trevas. O sujeito é ao mesmo tempo humano, preocupado, em um processo de luta, mas também sobrenatural, excepcional, inspirador. A fonte usada no anúncio é um caso mais interessante ainda: quando os nazistas se apropriaram da comunicação estatal, eles resolveram adotar uma identidade visual que dominasse todos os aspectos Alemanha e da vida dos alemães. Nesse sentido, a fonte foi fundamental, resgatando uma identidade 'teutonista' que recuperava a visualidade associada aos cavaleiros teutônicos que estão na origem da Prússia, Estado fundamental para a unificação alemã e a formação da identidade militarista alemã que os nazistas promoviam. Essa fonte 'gótica fraktur' inclusive foi meio controversa entre os nazistas na época, pois eles queriam uma 'nova Alemanha' e a fonte gótica remetia ao passado, especialmente porque a tipografia do design moderno alemão era associada a movimentos culturais de esquerda ou com presença de judeus, como a Bahuaus. Aos poucos se formou uma doutrina tipográfica que construia implicitamente a narrativa do Terceiro Reich como continuidade de uma luta alemã pelo futuro em um sentido mais mítico e místico, enfatizando portanto o passado como fonte de grandeza."

No debate sobre o poder das imagens, o professor Elcio Cornelsen resgata um pouco do histórico editorial entre Brasil e Alemanha no tratamento do livro. "No Brasil, desde as primeiras edições, as editoras têm optado por exibir na capa alguma imagem que aluda ao nazismo, seja pela suástica demolida, na edição da Moraes, seja, de modo explícito, na capa da Centauro, com a imagem de Hitler e da suástica, além da reprodução de uma foto da convenção anual do partido nazista em Nuremberg. As edições publicadas entre 1925 e 1945 na Alemanha, ou seja, do chamado período de ascensão (1925-1933) e do período de poder (1933-1945) também diferem: enquanto a edição do período de ascensão, eminentemente associada a ações de propaganda, exibe a imagem de Hitler na capa, a edição do período posterior exibe apenas a suástica na capa, em tamanho reduzido, enquanto a imagem de Hitler, em uma de suas fotos oficiais, é reproduzida na parte interna do livro, como um de seus paratextos iniciais."

Ainda sobre a imagem publicitária enviada pelo marketing da Geração Editorial para a pré-venda de Minha luta, Fontanella destaca: "Não sei se intencionalmente ou apenas por uma apropriação intuitiva (e ignorante) da estética característica da expressão gráfica nazista, esse anúncio reproduz as técnicas 'subliminares' que o nazismo usava para construir sua consistência comunicacional e encantar as massas em relação a um projeto político que era simplificado e tornado sedutor, inspirador. O Minha luta reeditado pode ser um livro com valor histórico, que ajudaria a entender as razões para a Alemanha ter embarcado no delírio nazista ou mesmo para desmistificar a imagem do Hitler gênio político. Mas para obter vendas, a editora provoca de forma irresponsável o público trazendo de volta a narrativa mítica do nazismo, o Hitler simbólico que tenta encarnar uma 'vocação histórica' alemã, e as táticas de sedução que não vendem o livro, mas a ideologia 'proibida', que valorizam a 'visão' nazista tirando ela da história e colocando ela no mito".

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