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"Tarde aprendi/ bom mesmo/ é dar a alma como lavada." Depois de 14 anos de Flip, o mais importante festival de literatura do Brasil presta tributo pela segunda vez a uma mulher. Desta vez, é Ana Cristina César a homenageada. O ano de 2016 será, pois, um ano de rever "navios no espaço" e reencontrar a poeta que tão bem dialogou com tudo que há de intangível no movimento de baixar dos olhos para acender o cigarro.

Clarice Lispector, a outra escritora que recebeu homenagem da Flip, também volta aos holofotes em grande estilo. Após o sucesso do lançamento nos Estados Unidos e na Inglaterra do Clarice Lispector, complete stories, com cânticos de louvor por parte da crítica estrangeira - a Rocco, que detém os direitos da autora no Brasil, decidiu publicar o livro que reúne todos os contos de Clarice, numa edição bem cuidadosa de Benjamin Moser, biógrafo da escritora. A versão brasileira chega às livrarias em abril.

Já no começo do ano, a Companhia das Letras lança Dois anos, oito meses e 28 noites, o novo livro de Salman Rushdie, 41 inícios falsos, de Janet Malcolm e Voltar para casa, de Toni Morrison (publicado nos Estados Unidos em 2012). Também para o primeiro semestre de 2016, a editora lança o novo livro da escritora Elvira Vigna, Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, sobre o qual fizemos a capa do último mês de dezembro.

E se 2016 será nosso primeiro ano sem a Cosac Naify, será também aquele que vê se inaugurando uma iniciativa como a Zazie Edições, da artista e escritora Laura Erber. A ideia é lançar livros com propostas provocativas, políticas, que subvertam nossa ideia do que é estritamente literatura ou estritamente artes visuais, e, aí sim audacioso, lançar tudo isso em uma plataforma digital onde os textos serão gratuitos. O surgimento da Zazie surge em um contexto de pequenas editoras tentando criar estratégias para sobreviver a um mercado que, cada vez mais, se torna cada vez mais concentrado (o fato de parte do acervo da Cosac ter ido para a Companhia das Letras só ratifica isso).

Portanto, 2016 é um ano também para ficar de olho no trabalho de editoras que talvez você desconheça: tais como Nós Editora, MOV, Editora da Casa, e-galáxia, a pernambucana Mariposa Cartonera, que lançou o excelente aDeus, de Miró, em 2015, a Rádio Londres, que nasceu neste último ano com títulos incríveis (para 2016 eles já têm outro livro de John Williams, mais Howard Buten, Gerbrand Bakker e Michael Zadoorian) e a também estreante editora Carambaia, que em 2016 lança no Brasil a versão em português de um clássico: Jaqueta branca, de Herman Melville, título que antecipa referências que Melville usaria depois em Moby Dick e que, em um de seus capítulos, descreve cenas da passagem do autor pelo Rio de Janeiro, em 1844.

A outra notícia boa é que, depois da decisão do STF em 2015 de liberar livros biográficos sem necessidade de autorização prévia, 2016 será também um ano em que várias biografias importantes chegarão às livrarias: a já polêmica de Roberto Carlos, escrita por Paulo Sérgio de Araújo e editada pela Record, e possivelmente as de Silvio Santos, Renato Russo, Roberto Marinho e Roberto Civita (mas se essas duas últimas não forem chapa branca será uma grande surpresa).

No ano em que se lembra os 400 anos da morte do maior dramaturgo de todos, William Shakespeare, espera-se, claro, drama. O mercado editorial está indócil, suplementos literários tombam sedentos no deserto (de leitores ou de incentivos?). Mas se alguns bradam a palavra "crise" com ares de confabulações da corte do Rei Lear, outros não conseguem explicar como se vendem tantos livros de colorir e tantos títulos de celebridades adolescentes. Ler ou não ler não é mais a questão. A pergunta para o ano que segue é: por que se lê?

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