Ilustração por Janio Santos

Em 2012,depois de lançar meu primeiro livro, um silêncio devastador se instalou em mim. O silêncio fazia um barulho assim: Por que você perde esse tempo todo escrevendo essas suas bobagens?

 

A verdade é que não penso nisso. Aliás, nunca pensei, até vencer o prêmio. Aí todo mundo fica me perguntando essas coisas e esperando uma resposta tão bonita.

 

Penso em dizer: “Escrevo porque a literatura afasta essa minha imagem do espelho. E porque, nesse movimento de luz, me aproximo do que se faz essência”. Acho bonito dizer isso.

 

Carrego a escrita no limite das fronteiras que observo na vida. São pequenos momentos que sustentam um peso simbólico e possibilitam uma reflexão mais profunda dos nossos costumes. Tento captar a natureza dos sentimentos contidos nas relações humanas, no cotidiano tão massacrado pela repetição. Escrevo sobre o que me atormenta, incomoda. Sobre os meus fantasmas.

 

Olho morto amarelo, o livro, “nasceu” para o concurso. Mas, antes disso, existiam os contos que foram escritos de forma independente, apenas pelo prazer da escrita, como exercício para um romance que estou maturando. Gosto de retratar a velhice, a solidão, o egoísmo, o abandono, as escolhas que fazemos para viver em sociedade. O livro reúne 11 contos. Um velho cansado da vida no Natal. Um louco que se apaixona. Uma mulher que sente falta da filha distante, outra que não consegue ser feliz com tudo que escolheu para si. Um gato de fogo que sai da fogueira de São João para brincar com uma criança (baseado em fatos reais, olhem no meu Facebook). Olho morto amarelo (que ainda não sei sobre o que é). Um jovem que sente o egoísmo dos pais no nascimento da filha. Uma história de amor na casa azul. Um velho que deixa seu apartamento de herança para uma prostituta, outro que contrata uma mulher para beijá-lo ao meio-dia na rua. E, juro por Deus, que é um final feliz, sobre um pai que esquece a filha dentro do carro (isso me atormenta).

 

Bom, falando sobre o processo de composição do livro, escolhi o gênero contos porque era o único material bem-desenvolvido que possuía, faltando um mês para o encerramento das inscrições. Foi o tempo que tive para revisar a linguagem, a estrutura narrativa, desenvolver alguns personagens, cortar outros, enfim, tornar aquele emaranhado de textos dispersos em um livro apresentável. Foi um mês intenso, com muitas noites maldormidas.

 

Meu método é amador. Muito simples. Escrevo todo dia um pouco, no celular, no notebook, no guardanapo. Preciso registrar as ideias na hora que surgem e o que tiver à mão vira instrumento. Não tenho ordem para olhar os textos. Às vezes, abro um conto e ele não me diz nada. Fecho. Abro outro e faço alguma alteração ou retomo a veia do ponto que parei. Tento me forçar a isso. O tempo é escasso, dividido entre o trabalho e a família. Escrevo uma página por dia e, geralmente, não permaneço mais que uma hora escrevendo (fico exausto depois, sentindo-me como se tivesse gritado sem parar nessa hora).

 

Muita coisa que escrevo (a primeira escrita) é bobagem, não presta, mas registro mesmo assim. Quem vai dizer que não presta é o meu “eu” crítico, que, naquele primeiro momento, precisa estar bem longe para que o fluxo das ideias não seja bloqueado por intervenções estéticas. Acredito que a primeira escrita possui uma força e energia muito fortes. Que é puro sentimento. E, para transformar esse sentimento em arte, é necessário um cuidadoso processo de refinamento. Reescrevo e reescrevo (suavemente) até sentir uma proximidade com o satisfatório. É ai que abandono o texto. Sei que nunca conseguirei chegar ao texto perfeito. É impossível.

 

Enfrento o desafio de estar isolado como escritor. Moro em Petrolina, cidade encravada na última ponta do estado de Pernambuco, distante quilômetros de qualquer livraria. A internet ajuda, mas não substitui o convívio com outros escritores, leituras, debates, oficinas. Não tenho amigos escritores para mostrar meus textos e discutir os caminhos que devo seguir (entendam: da literatura que gosto e faço). Preciso ser um crítico muito mais feroz. O Olho morto amarelo foi lido apenas pelos jurados do concurso, mais ninguém antes do resultado.

 

Retomando o assunto: escrevo porque preciso de mim.

 

 

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