Ilustração por Janio Santos

Nasci na roça. A mãe me colocava num cesto de palha, jogava-me nas costas e rumava para a lavoura. Carpia e roçava de manhã à noite. Coisa pouca: feijão, milho e mandioca. Apenas para sobreviver. No Oeste de Santa Catarina no início dos anos 1970, éramos cinco: mãe, pai e três filhos. Eu era o do meio. Porcos e galinhas bagunçavam o terreiro. Peixes esperavam o anzol no açude barrento. No mato, o pai catava jabuticabas. Era um mundo reduzido, mas suficiente para nos abrigar. Ali, ninguém conhecia Graciliano, Rosa ou Zé Lins. Monteiro Lobato tampouco nos visitava na insônia infantil. Se fôssemos personagens, seríamos anônimos, inéditos. Passamos boa parte da vida no prelo. A escola era terra inabitada. O pai não foi. A mãe não foi. Se ficássemos às margens do fim do mundo, também não iríamos. A Bíblia, nossa única enciclopédia. Deus, o único autor possível. Mas nos escrevia numa língua estrangeira.

 

2.

Aos dez anos, vi minha primeira puta. Na Rua Riachuelo, no centro de Curitiba. Ela me mostrou o peito esquerdo. Molenga, branco e caído. A mãe a chamou de puta. Não era uma ofensa. Era apenas espanto. Eu já sabia ler melhor que a mãe. Escrevia palavras no caderno de caligrafia. À roça, regressávamos nas férias escolares. A avó nos esperava ao redor do fogão à lenha. A cada retorno, sentia-me mais urbano, menos ligado àquele chão estéril. Desejava cavar o futuro no asfalto negro e visguento.

 

3.

Aprendi a escrever. Não diria que bem. Apenas escrevo. Quando a roça ficou definitivamente para trás — uma memória quase inventada —, comecei a recriá-la. A única maneira encontrada: a palavra escrita. Um arado torto riscando a pauta do caderno espiral. É um tanto estranho recriar um mundo ágrafo, um solo virgem e seco. Levei dez anos para finalizar Na escuridão, amanhã — narrativa a ser publicada neste ano. Não se engane: o longo tempo de gestação não significa rigor, mas incapacidade de encontrar o ritmo adequado a uma história fragmentada de retirantes. (Nasci em casa, de parteira, na noite de 21 de janeiro de 1973. Fiquei três dias revoluteando nas tripas da mãe. Não queria nascer de jeito nenhum. Nascer lá em casa sempre foi perda de tempo.) Dez anos tampouco representam um calhamaço. O livro é magro, esquelético — um simulacro da silhueta de seu autor. Com dois narradores em primeira pessoa, Na escuridão é a tentativa de retratar a passagem de uma família de um mundo arcaico (a roça) para a cidade grande.

 

4.

É a história da minha família? Sim e não. Os personagens não somos nós. Mas dão vida a algo que conhecemos e nos incomoda. Fazem-nos existir. Combatem uma escuridão que nunca vai embora. O livro (algo me impede de chamá-lo de romance ou novela), talvez, nasça anacrônico. Enquanto a quase totalidade dos autores brasileiros volta-se para a cena urbana, tento regressar à vida rural. É uma espécie de não-lugar. (Nasci entre dois municípios de Santa Catarina. Meus documentos não sabem de onde venho.) Nada fica muito claro. A roça não existe mais. A cidade grande (apenas nomeada de C.) tampouco se escancara. Os dois narradores — irmãos que nada dividem durante a vida — se confundem o tempo todo. Narram a partir do diálogo com a mãe e o pai. Os protagonistas não são os irmãos. Pelo menos, não deveriam ser. Também tenho dúvidas de que sejam os pais. Eles impulsionam a narrativa, mas parecem impotentes sobre os rumos da trama. Tudo é incapacidade: de comunicação, de futuro, de passado.

 

Há um crime, um suicídio e uma morte mal explicada. A família se desintegra. Talvez a ambição rendesse uma narrativa de proporções panorâmicas — uma espécie de epopeia rural. Mas a maior parte da história não está escrita, perdeu-se no vazio, na escuridão — o que é apenas um dos defeitos do livro. O leitor terá de escrever boa parte da história. São vinte e cinco capítulos e algumas cartas. Tudo muito curto, enxuto e insuficiente.

 

5.

É lugar-comum dizer que não se escreve o que se deseja, mas o possível. Na escuridão, amanhã é somente o possível. A literatura não dá conta da realidade. A literatura não dá conta de nada. É sempre um fracasso a bater na nossa porta. Na escuridão é a minha melhor maneira de fracassar. E isso já me parece alguma coisa.

 

 

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