Ilustração de Janio Santos

 

Um útero é do tamanhode um punhoé o título de um poema longo que escrevi depois de acompanhar, de perto, o término de uma gravidez. Foi na Cidade do México, em 2008, e a mulher que precisou terminá-la é muito próxima a mim. Na capital mexicana, o aborto é gratuito e legalizado, mas mesmo assim grupos de mulheres religiosas vão, todos os dias, muito cedo pela manhã, até os portões dos centros de saúde do governo para tentar dissuadir outras de sua decisão. As mulheres religiosas levam fotos de fetos em diferentes estágios de formação, bem como figurinhas de santos, para entregar às que estão na fila para serem atendidas. Entregam também um discurso destinado a constranger. Poucas, entretanto, deixam a fila em frente ao portão, que abre às sete. Do lado de fora, algumas religiosas se valem de megafones.

 

O poema veio da necessidade de escrever alguns pensamentos sobre essa experiência, para levá-los adiante. Comecei a pesquisar na internet textos sobre o corpo da mulher. Queria ver como eram redigidos, que particularidades textuais tinham, se havia algum tipo de discurso neles. Numa dessas pesquisas, deparei com a frase “um útero é do tamanho de um punho fechado”. Deu voltas na minha cabeça por dias, até que, uma manhã, depois de uma caminhada, sentei e escrevi de uma vez só um poema de cinco páginas. Talvez seja o poema mais diferente que já escrevi, e o mais estranho, também. Certamente é o mais longo.

 

Minha inquietação não parou. Eu vinha convivendo há mais de dois anos com um grupo de feministas argentinas, de Bahía Blanca, cidade no sul da província de Buenos Aires, onde morei, e as conversas com essas ativistas me fizeram pensar constantemente no que é ser mulher. No que damos como certo, normal, natural, e que na verdade é inventado. Percebi a grande encrenca que era afirmar “a mulher é” qualquer coisa. E me propus a escrever séries de poemas para tentar estender meu pensamento a respeito disso: ver aonde podia chegar com meu repertório de experiências, palavras, ideias sobre a poesia. No início de 2009, elaborei um projeto de escritura de livro e o enviei ao programaPetrobras Cultural. No ano seguinte, uma bolsa me foi concedida e comecei a esboçar alguns poemas.

 

A primeira série a que me dediquei chama-se Uma mulher limpa, e preciso dizer, antes de mais nada, que a inspiração veio de uma música que tínhamos lá em casa para os nossos gatos (ah, sim, nós compunhamos músicas para os gatos) e era, basicamente, sobre a necessidade de tomar banho. Os bichanos faziam orelhas moucas, mas a musiquinha serviu de modelo para mim. Comecei a escrever poemas com frases simples, de vocabulário reduzido. Utilizei refrão em alguns poemas, repetições em outros, para lembrar canções populares. Conforme a série avançava, os poemas ficaram mais nonsense, e me pergunto se esse não foi afinal o único caminho possível para mim.

 

Alcachofra é outro poema longo do livro, e nele eu casei Amélia, que era a mulher de verdade, com uma mulher barbada de um circo. Por que essas duas personagens? Não sei. Mas já fazia uns cinco anos que tinha vontade de escrever essa história, e sabia apenas que o final seria trágico. Numa das versões mais antigas, a mulher barbada abandona Amélia num quilômetro incerto da Rodovia Presidente Dutra. Na versão final, elas moram no interior do Rio Grande do Sul, e meu foco foi na convivência entediante das duas. E o final, claro, é trágico.

 

O segundo grupo de poemas se chama Mulher de, e minha inspiração foi uma série do Kenneth Koch, na qual todos os títulos continham a palavra bed (cama). Decidi escrever poemas cujos títulos começassem com “Mulher de”, também no intuito de saber aonde me levariam. Comecei com Mulher de valores, mas em vez de escrever sobre uma senhorita comportada, imaginei uma dona de casa que investia na bolsa de valores. Depois veio Mulher de vermelho, do ponto de vista de um homem machista. E depois outros poemas começaram a aparecer, um por dia, praticamente. Mulheres de rollers, de malandro, de regime, de respeito... Esse último é uma pergunta para mim mesma. A série ficou com uns quinze poemas. Eu tinha escrito quase o dobro disso, sempre de manhã cedo, tomando café. Havia dias em que sentava e escrevia o poema antes de conseguir colocar o pó na cafeteira. Gosto quando isso acontece, e confirma a minha crença em estabelecer um ritmo de trabalho. Cada vez menos acredito em inspiração vinda do nada. Preciso criar condições para escrever. Ou, como diz meu amigo Odyr Bernardi: “Musa é que nem Sedex — se você não estiver lá, não recebe”.

 

O livro inclui outros poemas e séries nas quais vinha trabalhando há alguns anos, e abordam os temas gênero e sexualidade. Nacionalidade, também. Questões que ocupam minha cabeça. Durante os meses em que fui bolsista da Petrobras Cultural, tive o tempo necessário para revisar e editá-las. Nesse intervalo privilegiado, também pude decidir não publicar outros poemas. Vou precisar de mais tempo ainda para perceber erros e acertos. Achava que, ao entregar o projeto, no final da bolsa, o livro estava terminado. Mas não, me parece que começa agora.

 

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