Sou ilustradora de livrosinfantis desde sempre e, como escritora, tive dois livros premiados em significativos concursos de literatura infantil e juvenil: O sumiço da pantufa, no 5º Barco a Vapor, em 2009, organizado pela Fundação SM, e O mar de Fiote, noII Concurso CEPE, em 2011. Depois de anos, minha carreira tomou rumos insuspeitados e bem-vindos. Essas artes — a escrita e a ilustração — se complementam e me permitem projetos literários com certa autonomia.

 

Ser apenas ilustradora geralmente significa estar atrelada aos humores de editores e escritores. Não ter um texto próprio me colocava na dependência de textos alheios e no ritmo da produção das editoras. Isso significava tanto períodos sobrecarregados e estressantes (é difícil um ilustrador recusar trabalho), madrugadas não dormidas, isolamento quase total, quanto períodos muito longos de calmaria absoluta, só fazendo contatos, esperando. Para alguém que, como eu, sempre achou que o trabalho em curso é o último de sua carreira, essa situação não era muito confortável. Junte-se a isso a vontade de ilustrar para a Editora SM e o fato de a Fundação SM promover anualmente um concurso de... literatura infantil! Tentei convencer amigos escritores a participar e depois me convidar para ilustrar o livro vencedor. Em vão. Acabei percebendo que o caso seria resolvido por mim mesma. Ou não, já que minha escrita se limitava a mal traçadas linhas para a família.

 

Estava num daqueles períodos de nada-pra-fazer. Aproveitava essa folga para devorar livros policiais. E via minha caixa de e-mails se enchendo com mensagens sobre o prazo final das inscrições para o Barco a Vapor... Sou nadadora. Isso não tem nada a ver com barcos a vapor, só agora me dou conta dessa coincidência. Pulei na piscina e decidi só sair da água com um roteiro, alinhavado pelo menos, na cabeça. Sabia que seria um policial infantil. Como leitora, gostaria de desvendar algum caso misterioso a partir, apenas, de depoimentos das testemunhas. Nadei matutando (e quase me afogando) durante mais de duas horas. Rabisquei as partes principais do quebra-cabeça ainda no vestiário, para não perder a relação entre elas. Em casa, digitei furiosamente até as 7 horas da manhã seguinte. É claro que, durante a escrita, muita coisa tomou outro rumo. Essa conversa de que personagens têm vida própria é clichê, e é verdade. Além disso, a arquiteta que sou cismou de dar o mesmo espaço, o mesmo número de toques, para cada personagem, para não prejudicar nenhum suspeito. E a ilustradora que sempre serei já pensava no projeto gráfico e na dificuldade de ilustrar sem revelar antecipadamente o culpado pelo sumiço da pantufa. Posso garantir que essas minhas facetas brigaram bastante entre si naquela madrugada, e a ilustradora foi nocauteada — muito tempo depois, não tinha ainda a menor ideia de como faria as tais “ilustrações que não podiam ilustrar”.

 

Depois do sucesso de O sumiço da pantufa no Barco a Vapor, esse concurso passou a ser motivo para eu tentar ter pelo menos um original inédito por ano. E depois resolver o que fazer com ele. Com planejamento, escrever seria suave, nada ficaria para a data-limite. Não foi bem assim. Segundo Henfil, “a inspiração é um cachorro preto, um dobermann, bem aí atrás de você”. Sei disso, produzo ótimas ilustrações sob pressão. E com a literatura não foi diferente, estou sempre entre os inscritos de última hora nos concursos. Mas, por não me considerar uma escritora de carteirinha, não me sinto na obrigação de escrever constantemente. Registro minhas ideias em cadernos sem pauta e arquivos de computador, e as deixo maturando à vontade. Gastam o tempo que precisam. Coloco um distanciamento entre nós. Quando ataca, o cachorrão preto me faz passar para o papel histórias que, imagino, não aguentam mais ficar armazenadas lá onde se encontram. Por isso, nascem de supetão e me obrigam a escrevê-las compulsivamente.

 

Foi assim com O mar de Fiote, escrito no barro seco da minha infância sem mar. Tive uma casa com um terreirão poeirento e uma caverna. Tive um vizinho amedrontador que atirava com espingarda de chumbinho nas crianças que ousavam roubar suas mangas. Algumas noites, sabe-se lá por quê, ele, generosamente, convidava todo mundo para assistir a programas — e chuviscos — na sua cobiçada televisão em preto e branco. Nunca entendi Seu Joaquim Ubaldo. Sentia um medo danado dele. Sei que, no amontoado de lembranças que venho carregando, ele é personagem presente. Tem jeito de guardar uma história como essa só para si? Esse cenário tornou-se o pano de fundo para a descoberta da amizade entre Fiote e seu vizinho. E O mar de Fiotefoi escrito em 50 anos e dez dias. 

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