Ilustração por Jânio Santos

 

Oh, there´s a lo-oongline waiting, bitch.Foi a resposta de Marvin à pergunta que pensei ter conseguido entoar da maneira mais desinteressada possível: Who is that?

 

That, por quem havia uma longa fila de gente interessada esperando, era Chris, bartender no SO36, na Oranienstrasse, em Kreuzberg — bairro dos turcos e da melhor diversão em Berlim. Logo descobri que as noites em que Chris aparecia ali eram as de domingo, da festa Café Fatal (assim mesmo, em português). O clube é uma casa de shows, baile, bar e sinuca — um manicômio mágico noturno inaugurado na década de 1970, quando David Bowie costumava cambalear por seus salões. Acabei frequentando o clube durante todo o mês em que vivi em Berlim, enquanto não estava rodando a cidade atrás de uma ideia. Acabei encontrando no SO36 mesmo o começo da minha história, aquele fio que a gente vai puxando e vai se desenrolando em um universo novo. Conto aqui como surgiu a primeira centelha do meu romance Desde que te amo sempre, do projeto Amores Expressos.

 

I´m just saying... there is just not enough Chris for everyone, ra-ra.

 

Marvin me fazia a delicadeza de conversar comigo em inglês, pois não falo alemão. Era uma roteirista de quadrinhos berlinense que eu havia conhecido numa vernissage/performance na galeria-bar Himmelreich, em Friedrishain, quando nossa opinião comum sobre a calamitosa feiúra dos quadros em exposição nos aproximou.

 

Estávamos a cerca de dois metros do bar, à nossa esquerda. Chris: uns 27 anos, rosto quadrado, bem entalhado, pele branca destacada do cabelo preto em corte shaggy, como era a moda. Usava um colete cor de musgo por cima de uma camiseta cinza de manga curta. Tipo esses caras magros, músculos timidamente definidos, mas que estão lá, sólidos, e que o marketing da Calvin Klein adora aglomerar em propagandas nas quais todos dançam sem camisa, jovens para sempre em preto e branco, anunciando cueca, jeans e perfume.

 

Que mal há em olhar a beleza, apenas porque há beleza demais em toda a parte? E um pouco dessa beleza é um vírus transmitido pela TV? Vamos virando o pescoço pra lá e pra cá e às vezes nos fixamos em um objeto por mais tempo, por algum motivo. Sim, às vezes olhamos.

 

Os próximos passos à nossa escolha eram: ir à mesa de sinuca à direita e aguardar a vez; seguir em frente, atravessar as cortinas transparentes de filó e entrar no bailão (música variando de rockabilly a standards de Sinatra); eliminar aqueles dois metros que me separavam do bar e pedir uma cerveja ao Chris. Uma cerveja ao Chris. Uma cerveja ao Chris. Eu precisava ver de perto, daqui via apenas um Chris pela metade, um Chris cortado pelo balcão.

 

Uma coisa sobre Marvin: este não é seu nome verdadeiro, nasceu com nome de mulher — nunca me disse qual — porque é mulher, mas preferiu trocar por um nome de homem. Veste-se exclusivamente com roupas e sapatos masculinos desde os 15 anos, seu corte de cabelo também é masculino, bem rente e careta. Sua família, Marvin conta, considera que ela fica muito mais bonita em sua versão masculina e jamais a trata pelo nome de batismo.

 

Marvin conhece Chris, ela nos apresenta. Chris estende a mão, sorri sem mostrar os dentes e pergunta o que eu quero beber. Cerveja. Chris se afasta até o fundo de seu reino cercado pelo balcão, onde ficam os refrigeradores, e acompanho admirada durante esse trajeto a sua transformação diante dos meus olhos e a confusão nos meus sentidos, o surgimento de um novo ser. A outra metade de Chris, a que o balcão do bar escondia, tem a cintura fina, tem quadris arredondados, e uma bunda inequivocamente feminina. Christine me trouxe a cerveja.

 

Marvin nunca me parecera um homem — eu olhava para Marvin e via apenas uma mulher vestida como um homem. Com Chris foi diferente. Essa foi apenas a primeira faísca, para começar o livro. Primeiro, eu quis entender o que havia acontecido comigo naquele momento em que fiquei como um Aschenbach diante de um Tadzio, que nó se dera com a minha percepção em relação a Chris, e quis entender Marvin e Chris. (No livro, Chris é rebatizada como Jet Clark, em homenagem à dona do Nowhere, um bar num subsolo da 14th Street que eu frequentava enquanto estive perdida em Nova York, em 2006.)

 

Mas o romance não é a história de Chris/Jet ou de Marvin. Ele passa por períodos antes e depois da queda do Muro. Trata de casais que o Muro e organizações secretas separam; da vocação de Berlim para acolher quem a escolhe como sua cidade; de como amam os terroristas; de como sobrevivem, aquecendo sozinhos o seu sentimento, aqueles que se perderam do objeto amado (a fila que não anda). Jet Clark apenas está no meio disso tudo.

 

Um mês em Berlim é pouco, muito pouco. Foi quanto durou o meu período de pesquisa lá. Como dizer à nova paixão da minha vida que eu só teria 30 dias para passar com ele? Resolvi assim a questão: decidi que não diria não a nada que Berlim me oferecesse naquele período. Foi um amor de experiências radicais para mim, tanto boas quanto angustiantes, em diversos graus e aspectos. O livro reflete as muitas faces desse sentimento.

 

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