Ilustração por Janio Santos

 

Para Jorge Herralde

 

Em julho de 2011 visitei o escritório de minha editora espanhola, a Anagrama, para me despedir do Jorge Herralde antes de vir morar no Brasil. Ele foi o editor que, dois anos antes, confiou em Fiesta en la madriguera(Festa no covil, na edição brasileira) e decidiu publicá-la, apesar de ser meu primeiro livro e de eu ser um zé-ninguém no mundo das letras hispânicas. Muitas coisas aconteceram nesse intervalo: me tornei um escritor publicado em maio de 2010, Festa no covilteve uma ótima recepção da crítica e os direitos de tradução foram vendidos a vários idiomas. Aconteceram também, até aquele momento, seis versões inacabadas do meu segundo livro. Seis prováveis novos romances: quatro que não ultrapassaram as 50 páginas e dois que chegaram por volta das 100. Dois anos de trabalho e eu ainda não tinha certeza de estar no caminho certo.

 

Como se eu precisasse de motivação extra, o Herralde me transmitia mensagens apavorantes enquanto batia “coitadinhos” nas minhas costas: “¿Cómo vas con la nueva novela?” E: “Después del éxito de la primera no es fácil, no es nada fácil”. E: “En la editorial estamos ansiosos, pero no te apresures, no nos mandes nada hasta que no estés seguro”. Para completar, a encantadora Lali Gubern, esposa do Herralde, me repetia: “¿Tú sabes que lo que pasó con tu novela no es normal, no?”.

 

Para mim, a grande diferença entre escrever Festa no covil e o novo romance não eram as expectativas da editora, da crítica ou de meus leitores, era uma coisa muito mais abstrata: a certeza de que isso que eu estava escrevendo viraria um livro. Escrevi meu primeiro romance com as inseguranças próprias de não saber se conseguiria publicá-lo, com a instabilidade de não saber se todo esse trabalho ficaria na gaveta dos projetos falidos. Demorei em entender que a certeza da publicação, mais que uma pressão, era um poder, um tremendo poder libertador: a possibilidade de fazer qualquer coisa que eu quisesse.

 

Porém, eu precisava de estrutura, de limites, de um marco de trabalho, e foi aí que a conversa com o Herralde resultou importantíssima. “¿Ya tiene título?”, me perguntou, em referência à sexta versão do romance (eu disse que estava muito avançado e muito contente... mentia como um político mexicano). Respondi que não, mas que o livro estava estruturado em cinco capítulos e que os capítulos já tinham título. Ele quis conhecê-los. Nunca falo do que estou escrevendo, porque acho que a voz alta é um tipo de publicação e eu não quero publicar textos inacabados. Além disso, claro, sou supersticioso. Mas era meu editor quem estava perguntando. Enumerei os títulos e ao terminar senti, pela primeira vez, que esse romance tinha forma, que por trás desses títulos estava o romance que eu queria escrever e que só precisava de trabalho, muito trabalho.

 

Cheguei para morar no Brasil no dia 30 de agosto e me dediquei espartanamente a escrever a sétima versão do romance. Oito, nove, dez horas por dia. De cinco a nove horas da manhã, de uma às seis da tarde e às vezes um pouco mais pela noite. Eu devo minha disciplina ao fato de ter crescido na região mais conservadora do México: a culpa católica pode ser muito produtiva. Assim como aconteceu com Festa no covil, as melhores horas foram as primeiras do dia, acompanhadas de café, pão na chapa e geleia. Muito café. Não tem literatura sem café. Mentira, tem, sim: literatura descafeinada.

 

Bem no começo de setembro achei o que tinha procurado sem encontrar nos últimos dois anos: a voz e o tom narrativo. A partir desse momento, a escrita teve ritmo e foi rápida, os dois anos de fértil improdutividade deram seus frutos (eu estava sob possessão absoluta do enredo e dos personagens), até chegar ao capítulo final... Não vou explicar o enredo (já falei que sou supersticioso?), mas posso dizer que no romance acontecem muitas coisas, muitas, aparentemente inconexas, absurdas, e que a lógica narrativa é a do disparate. É uma espécie de homenagem às minhas leituras favoritas: Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Alfred Jarry, Raymond Queneau, Witold Gombrowicz... O livro tinha passado de cinco capítulos a sete e agora precisava de uma decisão conceitual: voltar atrás para fechar tudo o que foi deixado em aberto ou fugir e avançar. Decidi usar o poder de legitimação do primeiro livro para fazer o que eu realmente queria: levar a proposta até as últimas consequências.

 

Si viviéramos en un lugar normal(literalmente: Se vivêssemos num lugar normal) é a segunda entrega da trilogia chamada “Tríptico de los dos dedos”, composta por romances independentes. Será publicado em espanhol pela editora Anagrama, em setembro de 2012, e em português pela Companhia das Letras.

 

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