1.
Ao final da noite do lançamento do Guia de ruas sem saída, um amigo me deu carona até minha casa. Quando desci do carro, fechei a porta na própria mão. Ficou uma marca de sangue pisado na unha do dedo médio. Desconfio que só vou me livrar por completo da sensação de ter escrito o livro depois que a mancha sumir.
Meu receio, evidententemente, é que a unha pare de crescer e fique assim, estagnada, durante meses, anos e séculos, e eu nunca me livre por completo desse livro. Tenho medo que não tenha saída, como seu título indica. Aprisionado a ele para sempre, eu nunca mais escreveria outro. Pensando bem (e meus detratores talvez concordem), não seria má ideia.


2.
Um mesmo livro pode ser começado inúmeras vezes. É raro, na verdade, que um livro tenha somente um único e detectável início. Existem livros que começam no meio e às vezes no final. Outros têm tantos começos, mas tantos, que acabam por se cansar e morrem ali mesmo, no princípio. É muito comum de acontecer, e bastante triste também: são os livros natimortos.
A primeira vez que o Guia começou foi há uns vinte e tantos anos, num feriado na casa de meus pais. Eu estudava Arquitetura no Rio de Janeiro então, e não tinha muitas chances de visitá-los e aos meus irmãos (minha família vivia a uns mil quilômetros de mim). Tenho dois irmãos, sendo que o caçula, Paulo, tem 11 anos de diferença. Devia ser difícil para ele entender o motivo de seu irmão mais velho ter ido embora de casa aos 17 anos.
Naquele dia o Paulo me mostrou uns desenhos que fazia. Entre eles, estava o Homem-Escada, um super-herói que havia criado. Eram dois rabiscos verticais, daqueles de criança, atravessados por rabiscos horizontais que mostravam uma escada com cabeça, braços e pernas, além da capa esvoaçante. Perguntei ao Paulo quais eram os superpoderes daquele herói, e ele me explicou que se tratava de uma coisinha bem simples: o Homem-Escada ajudava as pessoas a chegarem a um outro lugar. Em sua maluquice infantil, o Paulo talvez estivesse me dizendo de um jeito meio poético que gostaria de receber minha visita mais vezes.


3.
Faz três semanas, desde o lançamento, que não consigo fazer nada a não ser olhar para a mancha de sangue na unha. Ela parece se movimentar, e adquire estranhos formatos dia a dia. Hoje, por exemplo, lembra um labirinto. Ontem, parecia o Pato Donald. Não consigo estabelecer qualquer relação entre uma forma e outra, mas gosto de ambas. Sempre apreciei os testes de Rorschach, e é um barato carregar no próprio corpo manchas que se metamorfoseiam, permitindo novas leituras a cada manhã.
Um livro em progresso é mais ou menos isso, uma espécie de oráculo privado que se movimenta e nunca está no mesmo lugar em que o deixamos na noite anterior. Joan Didion gosta de passar as noites no mesmo cômodo em que escreve, pois “de algum modo o livro não te abandona quando você dorme ao seu lado”. O problema é aplicar esse método a um livro que nos acompanha durante anos, e que começa e recomeça infinitas vezes. Se recomeça, é porque o perdemos de vista. Fugiu; desapareceu — recomeçou.


4.
A segunda vez que o Guia começou foi há cinco anos, quando minha ex-mulher se mudou abruptamente de São Paulo levando nossa filha com ela. Foram morar a uns mil quilômetros de mim. De novo, essa distância, a mesma quantia de metros, centímetros e milímetros. Deve significar algo, mas o quê?
Não sei.


5.
O leitor que tiver alguma informação sobre Guia de ruas sem saída deve se perguntar o que esses fatos pessoais podem ter a ver com a “trama” do livro, que relata a viagem de um homem acompanhado da mulher para receber transplante de fígado, e a busca de outro por sua família, talvez imaginária. E eu respondo: não sei.
A proverbial irritação dos escritores com a mania de os leitores confundirem ficção com autobiografia faz sentido, pois toda ficção é autobiográfica. É óbvio, pô. Nem sempre é possível estabelecer paralelos entre a vida do autor e o resultado do livro, e este último até pode surgir de uma ideia inventada ou de um fato ouvido por aí, mas não pode ser preenchido, estofado, empalhado ou inflado com outra matéria-prima que não vida.
Assim como não é possível, é claro, que o leitor leia o livro sem enfiar a sua porção pessoal de experiência na história, pois, como me ensinou Gonçalo M. Tavares numa entrevista, “não saímos da vida para ir ler, e depois voltamos”. Ambos, escritor e leitor, insuflam autobiografia nos livros que escrevem/leem. É a partir daí que os livros afinal começam a existir, ficam em pé e saem caminhando por aí.


6.
Por um longo tempo eu observo a mancha de sangue na unha. Dia após dia, o labirinto se contorce, e ela parece se conformar num ponto de interrogação, que aos poucos vai diminuindo, diminuindo, até virar um ponto final.
Em alguns dias, os últimos traços de sangue pisado somem no fundo da lixeira do banheiro. Então faço cálculos e concluo que a unha precisou crescer uns mil quilômetros até a mancha desaparecer.

 

 

 

 

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