Meus livros nascem sempre de um impulso da realidade. Pode ser uma paisagem, uma voz, uma pessoa, um acontecimento, um relato, o importante é que algo me toque e, assim, me leve a explorá-lo.

 

Em 2007, depois de lançar A chave de casa em Portugal, fui passar cinco meses na França, com uma bolsa de tradução. Decidi ir com uma amiga para a Córsega, e me encantei tanto com o panorama quanto com as histórias da ilha. Dessa experiência, surgiu a vontade de escrever um romance ambientado lá. No final daquele mesmo ano, voltei para o Brasil e fui para Dois Rios, na Ilha Grande, e pensei em criar uma história que juntasse esses lugares que, embora diferentes, compartilham um modo de vida.

 

O ilhéu tem uma forma particular de relação com o tempo. Na contramão do que se tornou o mundo – veloz, ansioso, impaciente – os habitantes das ilhas seguem o fluxo das marés, da chuva e do sol e, assim, vivenciam o tempo de uma forma mais orgânica. Se há uma coisa que eles aprendem desde cedo é esperar. Contra uma tempestade ou um mar agitado, nada podem senão aguardar a calmaria.

 

Esse foi o ponto de partida do meu segundo romance. Eu queria poder falar da passagem das horas, dar ao leitor essa vivência cada vez mais rara. Os personagens foram surgindo aos poucos: os irmãos gêmeos, Antônio e Joana, e a francesa misteriosa que surge na vida deles, Marie-Ange.

 

Então, outra questão ganhou contorno: a do duplo. Eram duas ilhas, dois irmãos, duas histórias paralelas, uma na voz de Joana, outra na voz de Antônio. Imaginei esses irmãos se apaixonando pela mesma mulher, e de que forma o amor os transformaria, levando-os a explorar um passado em comum.

 

No meio do processo de escrita, senti a necessidade de voltar aos lugares que haviam dado origem ao livro, para poder colher mais material, observar novamente as características de seus habitantes, seus hábitos, sua culinária. Voltei à Córsega, onde aluguei um carro para poder circular livremente, percorrer as estradas, os diferentes vilarejos e, só então, decidi que a história se passaria em Nonza, um charmoso povoado incrustado na montanha, repleto de turistas no verão, mas vazio no resto do ano.

 

Eu tive a sorte de ir lá com amigos corsos, frequentei as famílias mais tradicionais, e isso me permitiu entrar na cultura da região. Além disso, por coincidência, naquele momento eu estava fazendo um pós-doutorado sobre o escritor alemão W.G. Sebald, e descobri um texto dele sobre a Córsega que terminou por ser fundamental para o meu romance. Sebald fala da tradição corsa em relação aos mortos, aos fantasmas, à bruxaria.

 

Esse universo fantasmagórico sempre me fascinou, a possibilidade de diálogo com os mortos. Nós vivemos hoje numa sociedade tão apressada que mal temos tempo para o luto. Somos intimados a ficar bem logo, atropelar o tempo da dor, mas os mortos não vão embora, permanecem conosco, e o luto é um processo demorado.

 

Dois Rios, mais até do que Nonza, é um cenário de ruínas, onde se vê claramente que houve vida, e dessa vida não restaram senão vestígios. O vilarejo foi erguido para acolher as famílias dos policiais que trabalhavam na colônia penal Cândido Mendes, implodida na década de 1990, quando a maior parte dos moradores terminou por abandonar o povoado.

 

Antônio e Joana são netos de um policial, e passaram as férias da infância em Dois Rios, onde souberam da morte do pai. Vinte anos depois, ainda precisam elaborar essa perda e suas consequências e, para que esse processo se concretize, será necessário o encontro com Marie-Ange. A partir da paixão, eles vão reviver a experiência da ilha, a relação com o mar e o tempo.

 

Na primeira parte do romance, o mar impulsiona Joana ao movimento. Na segunda, Antônio aguarda o retorno de Marie-Ange, que partiu num barco.

 

Essa ideia da espera também foi fruto de uma experiência real, e muito triste. Eu estava passando um tempo em Lisboa, quando uma amiga recebeu a notícia de que seu irmão tinha ido pescar em Cabo Verde e não havia voltado. Isso acontece com certa frequência. Alguns desses barcos, inclusive, terminam chegando ao Brasil, à deriva. Durante três semanas eu vivi, com e por ela, a angústia da incerteza. Meses mais tarde, quando eu estava escrevendo o livro, a imagem de alguém à espera de um barco reapareceu, mas eu a transformei completamente. Porque escrever é isso, partir da realidade para transformá-la e, com as palavras, tentar se aproximar das coisas que realmente importam.

 

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