É difícil traçar um roteiro seguro, absoluto, de passos infalíveis. Cada livro, cada projeto estabelece sua própria dinâmica. Enxergar e administrar esse trânsito, sua inconstância e os seus ritmos, é o primeiro passo a ser dado quando se pretende uma carreira de escritor. Nem toda ideia, nem todo ânimo, impulso, inércia vingarão; nem tudo que se conclui vale a pena mostrar. Habilitar-se para esse julgamento exige um distanciamento delicado, arriscado até, pois a autocrítica que deve existir não pode ser de forma a travar o processo criativo – penso que por essa razão muitos acadêmicos escritores têm tanta dificuldade em produzir; as referências que carregam são tantas e os parâmetros de avaliação tão elaborados que acabam por jogá-lo numa imobilidade de enorme resistência, numa série de moldes cuja funcionalidade existe para evitar falhas, mas que na prática os impedirão de inovar o contexto literário.

 

Por não ter erudição literária expressiva, por não ambicionar tê-la (tê-la para fora da minha condição de leitor compulsivo), tenho menos receio de errar do que muitos dos vários outros escritores de talento que conheço. Imagino que meu processo seja mais simples, mais intuitivo. Tendo à invenção de personagens que me interessem e, em seguida, a desenvolver na minha cabeça suas idiossincrasias, suas ambições em especial – e a partir disso contar a história. Evito as anotações detalhadas, descrições físicas dos protagonistas, antagonistas, coadjuvantes (dificilmente isso será relevante), não completo mapas minuciosos para só então começar a trabalhar. Nada disso. Gosto, sinceramente, é de ir contando aos amigos o que estou fazendo; verbalizar, discorrer sobre minhas intenções me ajuda a sedimentar a história, a descobrir saídas, a entender o que não funciona. Não tenho medo de revelar o que estou fazendo. Histórias, boas histórias, não faltam por aí, o segredo é conseguir contá-las acrescentando algo de relevante à tradição literária – isso, hoje em dia, quando são despejadas centenas e centenas de livros novos nas estantes das livrarias brasileiras a cada mês, é um dado impossível de negligenciar.

 

Outro aspecto que imagino também seja digno de nota é o estado de entusiasmo com o que se está escrevendo. Pode parecer tolice, mas não é. Logo que a atividade literária deixa de ser novidade e passa a ser profissão, encontrar os mecanismos do entusiasmo e de como conseguir mantê-lo é crucial, eu diria. Por isso às vezes não me importo de me deter por longos períodos na linguagem, no artesanato das palavras (deixando um pouco de lado a ênfase em torno da narrativa), mesmo que pareça imprudência. Admito o capricho porque a linguagem é o fator que me empolga, me diverte, me leva a escrever com mais vivacidade, mesmo sabendo que depois terei de cortar trechos, parágrafos inteiros. Toda estrutura narrativa precisa de muitas versões, eleições, seleções, precisa ser concretizada para depois ser enxugada. Tento não cair na pressa que eventualmente possa prejudicar a distância entre a criação e a revisão. Alimento a desconfiança do que foi produzido; sobretudo: desconfio de quando me dou por satisfeito.

 

Penso que um dos segredos da escrita, do texto com alguma qualidade, esteja no fato do autor ter bons leitores, pessoas com preparo e honestidade suficientes para dizer, de maneira cruel até (imagino que não exista outro caminho), quando aquilo que foi produzido ficou ruim. Se o autor vai aceitar a avaliação, a leitura, o ataque, bem, isso já é outra história. Gosto de escutar críticas negativas (aprecio a sinceridade dos meus interlocutores; não se vai a lugar algum com tapinhas nas costas), quer dizer: não tenho problema em escutar quando alguém diz que não gostou daquilo que escrevi. O texto se faz da leitura, a leitura faz surgir a obra, é possível que a leitura, que nunca é idêntica à pretensão do escritor, venha a melhorar o livro, claro poderá também estragá-lo. Há meia dúzia de romances que, quando li pela primeira vez, me pareceram ruins (pura falta de maturidade, de ambiência), mas que depois se mostraram grandes obras.

 

Se você está convicto do que fez, se escrever não passou de aventura, deve estar pronto para enfrentar o teste das críticas. Imediatamente, podem trazer desconforto, mas, mediatamente, seja pela impertinência ou pertinência, ingressarão no rol das coisas que te farão escrever melhor, que te farão chegar a uma voz própria, autêntica, inovadora, na medida em que ainda seja viável atingir tais ideais, tais desconfortos.

 

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