Entre no Googlemaps. Coloque como ponto de partida o Japão e, de chegada, o México. Você verá se formarem segmentos de reta azuis, bem comportadas, e assim se chega daquele ponto ao outro. Será definitiva a visão do oceano a partir da ilha de Honolulu, o sentimento superior não do viajante, mas também um pouco o do náufrago.

A sensação ocorre igual quando se escreve. E, quando se escrevem contos, mais ainda, mas com o zoom mais fechado, muitas vezes mais nitidez, e um desespero amplificado, como uma queda, sempre.

Já com o romance, não. Muito embora o resultado seja sempre o mesmo, a terra devastada, o oceano devastado, a cara na areia. Mas é diferente.

Quando escrevi estes contos d’O destino das metáforas, sabia disto e compreendia ser um outro, distinto daquele que escrevia, ao mesmo tempo, o romance Geronimo, no qual trabalhava há três anos.

O livro de contos partia do que nunca se esgota em um escritor de verdade: a sua certeza de morrer inconcluso. E, para resolver isso o que um escritor faz sempre mais é não concluir, se eternizar em labirintos. No meu caso, o eu-romancista terminou por dizer com dureza ao contista em mim que largasse ali os contos. Escrevê-los era fugir mais uma vez do romance, da coragem de enfrentar o mar alto e a tempestade, ele disse. Não que não hajam também tsunamis nos contos, narrador é narrador em crawl, costas, peito, borboleta, e afogamento, este é mais o meu caso.

Sob a desculpa de escrever, e escrevendo, eu estava não-escrevendo. Foi um monólogo duro e difícil de atravessar daquela vez, a minha voz e a cidade. “Você está afundando, rapaz, afundando”.

Acontece que eu já afundava há décadas. Desde o último romance haviam se passado dez, quinze anos, e com isso todas as marés e todos os barcos sem rota naufragaram aqui em mim. Sem escrever uma linha, eu estava escrevendo a minha obra; às vezes, desescrevendo sem sequer haver escrito. Longe das festas. Mas eu sabia o tempo inteiro não ser Rulfo nem Salinger, a quem a minha regra lá em cima não se aplicasse, talvez.

Estava, contudo, esgotado e havia treinado em mim muita autocrítica nesses anos todos, sem praticar benevolências para comigo mesmo. Uma autocrítica aqui e acolá talvez injusta, como aquela onde se afoga um romancista da minha geração, e amigo, Douglas Tabosa (mas no caso dele o assunto é mais sério, porque eu publiquei nesse intervalo os contos de Matriuska (Iluminuras, 2009), e Douglas vem preferindo mais silêncio ainda). Douglas e sua Honolulu.

Foi num desses intervalos de consciência que a carne d’O destino das metáforas virou uma alucinação tomando vida aos poucos, num café em São Paulo. Mas poderia ter sido no Japão ou no México. Um fantasma trouxe do romance seres sem contornos, porque é dessa fauna, dessa falta de limites, das linhas pontilhadas que vivem os fantasmas. Ele deu aos personagens a ossatura de que precisavam para largarem a vida vegetativa dos tipos. Além disso, algo era preciso entender: eu era vítima, ainda, e acho que serei sempre, da minha tara pela precisão, mas onde tudo se aproxime mesmo da poesia e da tragédia (por favor, não confundam com violência, e essa tipologia contemporânea comum na literatice deste tempo. Eu me refiro mesmo aos espectros de Aristóteles, Ésquilo, Shakespeare, Nietzsche). Talvez tenha sido essa figura de Dionísio e do destino, que deu ao editor Samuel Leon o mote para escolher o título do livro.

Na própria construção do livro havia um conflito a vencer, ele excedia o conflito dos personagens e já era a invenção em si, ou a máquina da narrativa, como aquela do protagonista do conto-título do livro procura.

Mas aos contos acrescentei ainda um pouco do dia a dia. E, depois de escritos, vi a realidade se apropriar deles e passar a repeti-los em todos os lugares, jornais, confessionários, na vida de gentes desistindo e insistindo em viver, sob muitas temperaturas.

São cerca de sessenta almas viventes em dezessete contos. São almas, da culatra à boca do cano, que desistiram do meu romance e migraram para O destino das metáforas, uma a uma. Assim como Virginia Woolf entrou no mar, as pedras nos bolsos, para salvar o marido de si mesma. Virginia com seu bilhete vulgar de suicida e toda uma obra por concluir.

Talvez você queira ler o livro para descobrir como o romancista nada gentil salvou o contista afogado e salvou a si mesmo. E deu a si e ao outro um oceano particular para vencer. Cada um ao seu modo.

Volte por favor agora para a tela do Googlemaps: Japão — México. Avance com o mouse na seta de rolagem para baixo, e leia o que diz o passo 40.


Sidney Rocha é escritor.


O LIVRO
O destino das metáforas
Editora Iluminuras
Páginas 114
Preço Ainda não definido

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