Escrever é um ato de fracasso. A procura ineficaz da palavra inexata, da palavra que falta, ou da palavra que escapa. Escrever é afundar-se em um presente angustioso e denso feito da ausência da linguagem, de seu silêncio, de sua falência. Não há porvir no instante em que se escreve; esse instante não prevê qualquer futuro, não o percebe em sua iminência. O vazio não conhece o vocábulo que irá suplantá-lo, não o aceita, parece não comportar sua insuficiência, sua arbitrariedade. Também não há no átimo da criação qualquer pretérito, ou esse é o átimo que dilui e distorce todo passado, que o dissolve em palavra. Escrever é destecer a trama que parecia enredar-se, anular a ideia que se insinuava antes mesmo que se formasse, desígnio partido antes da chegada. E, no entanto, ou por isso, por nunca vingar o impulso primário, por nunca redimi-lo ou saciá-lo, escrever é uma inelutável necessidade.

Discorde-se; isso é o que tem sido escrever para mim. Um dia, uns quantos anos atrás, inflamei-me de certeza e exaltei a virtude de contar histórias, reais ou imaginárias, inéditas ou reiteradas, extensas ou sumárias. Depois desse dia as histórias não me apareceram mais, como se me desertassem ou de mim se evadissem, como se desdenhassem da minha confiança desmesurada. Tentei escrever um conto e a história se fez de imediato problemática, desviou-se em entraves, revelou-se puro impasse. Tentei escrever outro, e outro mais, e travestida em outras frases ou camuflada em outros parágrafos deparei com a mesma história, feita apenas de hesitação, lucubração e obstáculo. Ergui os olhos do papel – ou da tela luminosa, para ser acurado. Compreendi estar diante de algo mais complexo e intrincado, uma tênue incipiência do que já se mostrava sinuoso, uma fina linha que já se enredava e que eu teria que destramar se quisesse continuar narrando, se quisesse ser escritor.

Para fazer-me escritor, fiz escritor meu personagem. Fiz de meus vacilos os vacilos dele, fiz de minhas dificuldades as suas dificuldades. A ele cabia empantanar-se no mundo em busca de alguma improvável verdade, perscrutar as minúcias das ocorrências banais, furtar dos interstícios da vida a razão de sua pertinácia. Forneci-lhe uma biografia emprestada, jovem semiargentino a deambular por Buenos Aires à procura de suas raízes: minha própria biografia, que ele cuidou de desvirtuar de acordo com suas necessidades, explorando com todo critério os atributos supostos, as relações em hipótese, as identidades alegadas. Nele investi toda minha crítica, fiz dele um sujeito obstinado ou obsessivo, a vasculhar em sua vivência ou na memória inventada onde estaria o truque narrativo, a inverdade, a falha. Com ele montava e desmontava os episódios de sua existência, para que insatisfeito ele os abandonasse sem mais narrar, legando-me uns quantos capítulos de palavras sustadas. Assim, fiz do fracasso da escrita o fracasso do meu personagem, e em suas ruínas recolhi meu romance.

Não foi um processo fácil. No primeiro dia, tomado de entusiasmo, escrevi quatro parágrafos, longos como estes ou ainda mais longos, e fui dormir com uma estranha sensação de dever cumprido, embora tanto ainda me faltasse. No segundo dia, no terceiro dia, em dias subsequentes de quase um ano inteiro, repeti o fervor e fui colhendo parágrafos de dois em dois. Então fui me escasseando por ocorrência de algum rigor. Houve vezes, inúmeras, em que o silêncio se impingiu sobre mim e me dominou, calou-me os dedos, como se recusasse ser contrariado por algo de serventia menor. Por mais três ou quatro anos, bom foi o dia em que acrescentei umas poucas linhas de algum valor, e em que aprendi que tão importante quanto a ideia é a ladainha, o ritmo da frase, a sonoridade, as rimas internas, as pequenas nuances, a construção de um discurso rico em forma e melodia. Agora estou preso a esses mecanismos, burlo o silêncio não com a boca, ou com os dedos, ou com as ânsias, mas com os ouvidos – e só assim pude escrever estas linhas sobre a procura da Procura do romance.


Julian Fúks lança Procura do romance no segundo semestre deste ano, pela Editora Record. É autor também de Histórias de literatura e cegueira.

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