É um livro póstumo.

Cristo! Rezo para que eu, aqui, no suplemento Pernambuco, não esteja sendo profético. Ave! Quero estar vivo quando ele for lançado, em julho deste ano. Mais vivo do que nunca!

Este meu novo livro de contos, intitulado Amar é crime, é um verdadeiro renascimento.

Minha morte nasceu no ano passado. Foi um ano difícil o de 2010. Perdi minha mãe, em maio. Perdi amigos queridos, escritores de cabeceira. Alguns heróis literários. Foi embora Roberto Piva. Alberto Guzik foi embora. Wilson Bueno, Glauco, o desenhista.

Pancada!

Nem sei como organizei a quinta edição da Balada Literária. Ao final dela, caí aos prantos e barrancos. Em dezembro, fugi. Fui para uma pousada de uma amiga.

Antes, deixei um recado na revista da Folha de S. Paulo. A revista me pediu um cartão de Natal. A pergunta era: para quem eu endereçaria uma mensagem? Mandei um alô para Chico Buarque, Edney Silvestre. Para o meu editor, da Record. Para a Companhia das Letras, para a Câmara Brasileira do Livro.

Putz! Tanta gente desaparecida em 2010 e os caras estavam discutindo outras perdas e ganhos. Quem ganhou, oh, quem perdeu o Jabuti. Meu maior ouro já havia sido sepultado, pô! Meu tesouro, repito: Maria do Carmo Freire. Minha mãe era a voz do meu trabalho etc.

Na pousada, descansando os miolos, e para sobreviver, fui organizando meus novos contos. E percebia neles um fôlego maior. Outros ganchos sonoros. Um começo de relacionamento. Aqui e ali, um fim de romance. Amor, morte, amor, morte. Violência também – porque ela ainda não acabou. Ela ainda dói. E doeu, eu escrevo.

Mas voltemos aos meus contos criminosos. Alguns deles, extremamente amorosos. Há, lá no livro, amores verdadeiros, histórias bonitas e vitoriosas. Mas que, às vezes, não conseguem tranquilidade para acontecer. O que é amor para um, é crime aos olhos do outro. Sempre tem alguém metendo a colher, o pontapé onde não foi chamado. E sempre tem alguém colocando o amor à venda. Lucrando com o coração das pessoas. Por exemplo: igreja, TV, cinema. Vive-se, diária e religiosamente, do comércio do amor. O amor mata mais do que o ódio – uma hora berra um personagem meu, no pé do ouvido do leitor.

Bem, mas qual título dar a este volume, meu amor?

Pensei em Rebola. Rebolou. Pensei em O meu boy morreu. Morreu. Até que, ouvindo uma música do Dorival Caymmi, cantada pela baiana Jussara Silveira, ela começa com uma vinheta, de domínio público, que ri e rima: “Você diz que amar é crime / Se amar é crime, eu não sei não / hei de amar a cor morena / com prazer, com prazer no coração”.

Que bonitinho! Tiro certeiro. É este o livro que eu quero, bati o martelo. Mas queria outra atitude para ele, suicida. Morrer junto com os meus personagens. Atentar-me.

Escrevi para os amigos da Editora Record, onde publiquei meus dois últimos livros. Profundamente agradecido, falei que gostaria de editar o Amar é crime quase “caseiramente”. Gostaria de dar um nó no status quo. Enforcar-me em outras árvores. Só. Daí a ideia de o livro sair publicado por um coletivo artístico chamado Edith, do qual participo desde o ano passado. Veja quanta gente boa e inédita está lá, botando para feder: visiteedith.com

Energia e alegria! Tudo isto tem me dado força e vigor. Meio que voltei ao batente. Voltei à época em que lançava, suavemente, meus trabalhos independentes. Livres do mercado, do vazio, dos prêmios, sei lá.

Gosto de não saber no que esta atitude apaixonada vai dar. Viver cada coisa a seu tempo – até quando a morte chegar.

Que não seja agora, não é?

Salve, salve, viva, amém e saravá!


Marcelino Freire é autor de Cantos negreiros, vencedor do Jabuti na categoria contos, e lança Amar é crime em julho.

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