Edney Silvestre escreve simples, embora sofisticado, para fazer uma longa reflexão sobre o Brasil, a partir de um crime comum, mas cheio de surpresas e expectativas.

 

Escrever com simplicidade, embora escondendo um alto nível de sofisticação, é o ideal de todo escritor bem informado. Ou seja, o livro pode ser lido com facilidade, mas guarda desafios que impressionam estudiosos e críticos. Assim é o romance Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, que nem parece um estreante. Estreante, a bem dizer, é verdade, porque se trata de uma celebridade por causa do seu programa na Globonews e das inúmeras reportagens na TV Globo, quase sempre internacionais, além de ter publicado outros livros, não exatamente de ficção.
Mas escrever um romance é coisa muito diferente. Não basta ser um grande leitor. É preciso conhecer a intimidade da escrita, as sinuosidades, os segredos. Nesta entrevista, por exemplo, Edney Silvestre explica como conseguiu aliar o mundo do enredo policial, do romance de formação e as intrigas do momento histórico. Sem dúvida uma ousadia que o escritor vence. Talvez por isso mesmo tenha escrito um livro de leitura agradável, mesmo com um crime brutal, o de Anita. E ainda mais: o texto circula por situações e circunstâncias que envolvem o leitor e, não menos, também os estudiosos e os críticos.
Ele confessa, ainda, como encontrou a técnica que enfeitiça pelo prazer, inquietação e surpresa: ¨Foi quando, literalmente, ouvi uma voz que contava o início de tudo: Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos...Naquele momento – adianta – eu senti que a elaboração que eu vinha tentando até então, e que já durava, intermitentemente, mais de dez anos, estava toda equivocada. Eu não estava criando nem um romance policial, nem um romance histórico, nem um romance de formação. Era tudo isso junto”.
Na verdade, a entrevista é toda uma grande revelação, as alegrias e os temores de um homem que sempre foi um criador, mas que somente agora permite algumas confissões, sobretudo no interior da obra, nas passagens de Paulo e Eduardo, que se constituem naqueles dois personagens que terminam por compor a parte essencial do livro.

Apesar da técnica complexa, o romance Se eu fechar os olhos agora — policial, histórico,de formação — é um livro agradável de ser lido, mesmo com algum tipo de violência. Como foi o trabalho de elaboração para chegar a esta simplicidade com sofisticação? 
Eu acreditava, no início, que estava escrevendo um romance histórico, apenas, apesar da trama do assassinato brutal de Anita. Conforme a trama evoluía, e com ela os meninos, percebi as características do romance de formação.  A parte policial me permitia cercar a personagem central com aqueles habitantes de um universo cruel, machista e perverso.  Mas ainda faltava alguma coisa.  Que eu não sabia o que era.  Até que, finalmente, houve um momento em que encontrei a direção que unia aqueles aspectos.  Foi quando, literalmente, “ouvi” uma voz que me contava o início de tudo: “Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos...”  Eu estava em um hotel, em Paris, de férias, completamente distraído.  Ou achava que estava distraído, distante do romance.  Naquele momento eu senti que a elaboração que eu vinha tentando até então, e que já durava, intermitentemente, mais de dez anos, estava toda equivocada.  Eu não estava criando nem um romance policial, nem um romance histórico, nem um romance de formação.  Era tudo isso junto. Era um romance de evocação.  Não tinha a estrutura clássica que eu imaginava para o que eu acreditava, até ali, ser um romance histórico.  Eu sonhava em contruir um romance com começo, meio e fim.  Minhas referências eram autores que admirava e admiro sempre, como Eça, Dickens, Fitzgerald, Yourcenar, Graciliano.  Mas estava enganado.  Graciliano não se prendeu a arcabouços rígidos, Eça tampouco, nem Yourcenar, enfim, qualquer desses autores, e eu percebi, ao “ouvir” a voz, que Se eu fechar os olhos agora, estava emperrado há tanto tempo porque estava completamente equivocado na maneira de contar.  E em entender: era, mesmo, um romance histórico?  Mas com uma história de crime, policial, enfim?  Sendo, ao mesmo tempo, um romance de formação? Por vezes, muitas vezes, achei que não iria conseguir reunir todos os fatores que queria.  E me afligia a ideia de que eu tinha uma história para contar, que precisava contá-la, que era complexa demais para minhas possibilidades e capacidade para narrar. Teve um momento em que abandonei o romance, com pena, mas abandonei sem acreditar que jamais tocaria nele.  Mas a história não me abandonava.  Paulo e Eduardo não me abandonavam. Ubiratan, Hanna, irmã Maria Rosa, Anita e Aparecida, não me abandonavam. Tinham ganhado vida própria e exigiam que eu voltasse a eles. Deixei de lado, mesmo. Até a tarde em que li a frase que virou a epígrafe do romance: “Os mortos não ficam onde estão enterrados”. Tal como os meus mortos, sempre a assombrar os sobreviventes.  Foi quando retomei. Cortei muito.  Editei muito. Esse episódio da “voz” foi em abril de 2006.  Dei o ponto final no romance em junho de 2009.

Por que você recorreu sempre ao diálogo simples e externo, marcado pelo travessão e marcação? Pensava na rapidez da fala ou foi a decisão técnica de quem queria expor o texto sem atropelos, pelo menos para o leitor comum?
Porque há momentos de extrema complexidade e troca de ideias entre os personagens, que ficariam obscuros de outra forma. Como no diálogo entre os dois meninos e Ubiratan sobre o ano de nascimento de Aparecida, situando-o, situando os garotos, situando a personagem que empurra Eduardo e Paulo para a investigação que mudará para sempre a vida deles. Quando Hanna discute com Ubiratan, com a interferência dos garotos, traçando a trajetória de uma outra personagem, essa me pareceu a forma mais justa de situá-los naquele espaço e ação - cada qual com seu estilo, sua fala, sua construção de frases e desenvolvimento de ideias. Há um outro momento em que quatro adultos fazem um interrogatório, falando ao mesmo tempo, enquanto os dois meninos protagonistas também falam - com eles, entre si, e em vozes interiores.  É essencial que o leitor saiba quem são eles, o que se passa naquelas circunstâncias, perceba por si mesmo, sem interferência do autor, os preconceitos, as ameaças, as informações sobre as origens e famílias dos personagens centrais, assim como a extrema violência contidos ali. Eu acreditava, e acredito, que posso, assim, levar quem lê àquela masmorra. Escrevi e reescrevi muitos dos diálogos, até a última versão de Se eu fechar os olhos agora.

A abertura do romance, a modo de introdução, é escrita na primeira pessoa e depois segue na terceira. Isso provoca maior intimidade do leitor com a história, com os personagens, com as situações. Em certos momentos, o leitor nem mesmo descobre extamente em que pessoa gramatical o livro está escrito. Isso é competência pura. Pode falar um pouco desse efeito literário?
Desde a descoberta de que Se eu fechar os olhos agora era narrado na primeira pessoa, eu me perguntava como deixar que ele conte sem que o leitor saiba qual dos dois meninos sobreviveu? Se eu sei o que ele atravessa no tempo presente, com todas as interrogações que ele vai fazendo ao longo dessa primeira narrativa, enfim, que essas dúvidas, ao mesmo tempo, levariam o leitor a conhecê-lo e entender, desde o primeiro momento, que Paulo, ou Eduardo, deixara ali, diante daquele corpo da mulher assassinada, sua inocência.  A primeira mulher nua que viram foi também a primeira mulher nua que viram morta.  Quando terminei de escrever aquela introdução à história, tinha ficado claro quem narrava e porque narrava.  Mas os sentimentos do narrador eram confusos, ele mesmo não sabia como rememorar todo aquele turbilhão que atravessara. E ele não tinha, tampouco, todas as informações.  Elas lhe chegariam mais tarde, de forma que prefiro não revelar, para quem ainda não leu o romance. Nós é que mergulharíamos nas memórias dele. Por isso mesmo a história passaria daquela primeira confissão para a terceira pessoa.  E o leitor só entenderia o porquê da mudança quando chegasse ao capítulo da carta e da sugestão que ela continha: complete e acrescente o que você se lembra, da forma que você se lembra.

Daí me vem uma pergunta: onde terminam os personagens — Eduardo e Paulo, sobretudo — e começa, digamos, Edney? Ou não há essa relação, nem mesmo inconsciente?
A identificação com os meninos Paulo e Eduardo eu consigo ver e em inúmeros momentos fui buscar nas minhas memórias e nas minhas dores as dores e lembranças que eles têm.  Por pudor e discreção você há de me permitir que omita os detalhes, exceto aqueles que são públicos. Como, por exemplo, minha origem, de família pobre, filho de uma tecelã e de um dono de armazém. A cidade sem nome em que se passa a história tem um passado semelhante ao de Valença, no Estado do Rio, em que vivi até os 16 anos. Não tínhamos livros, muito menos dicionários em casa - e isso quem leu meu romance sabe que importância tem na trama.  Charles Dickens e as aventuras de Tarzan estão entre algumas das minhas primeiras leituras conscientes. O que não gosto, o que não acho nem um pouco gratificante, é que me vejo, também, nas situações de incesto, estupro, abuso, ignorância e violência. O impulso escroto, se me perdoa o palavreado, está lá.  É meu, eu reconheço.  Não gosto de saber que tenho. Nunca matei, ou estuprei, ou cometi nenhum ato de violência como os descritos em Se eu fechar os olhos agora. Mas percebo que nunca poderia ter escrito sobre eles se o impulso para cometê-los não estivesse presente em mim. Talvez os escritores de ficção, não todos, claro, o façam para libertar seus demônios.

Que estranho e belo Brasil é esse que circula nas páginas do romance? Ou isso é resultado da linguagem, por assim dizer, simples e despojada?
É o Brasil da segunda metade do Século 20, aquele Brasil cheio de esperança, aquele Brasil formidável que foi capaz de erguer uma capital, no meio do nada, em pouco mais de três anos. Este Brasil, em que eu me formei, vivia um grande conflito entre forças revolucionárias radicais de esquerda e forças estupendas de direita. Éramos o que tinha resultado da ditadura de Getúlio, da guerra contra o nazismo, das leis trabalhistas, do início da popularização da cultura de massa, da transferência maciça da população do campo — e particularmente do Nordeste — para as grandes cidades, do crescimento da indústria e das favelas, do surgimento de tentativas de arte nacional popular.  Este Brasil, que eu até hoje não consegui apreender de todo, nem sei se conseguirei, era o Brasil que eu tinha vontade de retratar e que não encontrava nem fora, nem dentro de mim. Simbolicamente, este é o país cheio de contradições com que os dois meninos, sonhadores e ingênuos, se deparam e que tem o destino misturado ao deles. Um com um encontro conformista, ajudando a construir o “Brasil Grande” dos governos militares, o outro se vendo obrigado a deixar tudo para trás e se exilar. Tanta esperança e tanta utopia destruídas. Mas talvez a gente deva lembrar sempre o que o escritor português José Saramago disse, numa entrevista que me deu: “É preciso criar novas utopias”.

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