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“Nunca estive a sós com a forma”, penso, guinando o carrinho para a seção de produtos de limpeza.

Entrouxados assim, talvez deem a ler um mês. Não bem um punhado de poemas, mas um mês, esta comunidade. A lataria nomeável, situável, decomponível em início, meio, fim. Cadinho de dias. Murado. Confinando com outros. Aliança entre total arbitrariedade e direcionamento imparável. Parte em sequenciamento maior. Fumos de inteireza.

Não sabendo o que é típico, tampouco saberei o que é atípico, embora em meus afazeres diários deva movimentar-me necessariamente tanto por um quanto por outro.

Quero conservar o movimento descendente, estico-me para trocar a lâmpada da cozinha. Os poemas encurtaram. Não saem muito de perto do fogão. São, no entanto, um pouco maiores do que esta casa. Umas poucas polegadas.

Geralmente, o que me interessa não são os dramas. É o que acontece depois. Não a ida, mas a volta. Como se volta de um drama, como nos recompomos de um. Os personagens de Muriel são pessoas que ‘não se recompõem’. Apesar disso, eles querem viver e, por instantes, tem-se a impressão de que estão perto da felicidade, que falta muito pouco para alcançá-la. Eu queria mostrar essa brecha, essa defasagem.”

Assim se exprime Jean Cayrol, romancista que trabalhou com Alain Resnais no roteiro do filme Muriel, ou o Tempo de um retorno. Há dois anos, mais ou menos, não pegava neste depoimento – datam desse então os poemas mais antigos do livro, alguns deles publicados já numa plaquete de 2015 também chamada Alguns dias violentos –, foi a primeira coisa que me ocorreu tão logo me perguntei de que mês se trata.

Penso que não falamos de uma catástrofe, mas de suas cercanias, de habitá-las. E como há muito de ida numa “volta”, não elimino deste fluxo a iminência, a antevisão, esperando apenas despojá-las ao máximo de toda e qualquer ressonância mágica, não por descrença, mas porque me interessa acima de tudo fixar este momento imediatamente anterior à crença ou à efetuação mágica, o momento imediatamente antes da fé, o momento imediatamente anterior à iluminação e o consequente repouso em qualquer esquemática, seja ela qual for. A violência do título talvez pertença mais ao dito “reino da necessidade”, do hábito, dos assentamentos forçosos, do que aos golpes propriamente ditos.

Kafka, quando tinha dores de cabeça, costumava dizer: “deve ser assim que um vidro se sente antes de rachar-se”. Terão de me tomar à letra. Uso o termo fluxo por falta de palavra melhor.

Disseram-me certa feita que minha voz era “gutural”. Diante disso, pareceu-me absolutamente a propósito abrir umas tantas grutas à minha própria voz, escolher a mais afastada e me fixar em seu interior, na esperança de que nunca mais me encontrassem.

A maneira como vão voltando as palavras, pouco e pouco, após terem sido corridas para os muros da cidade por ocorrência particularmente devastadora, elas próprias reivindicando agora o estatuto de “ocorrência”. O pudor, o medo e a desorientação que manifestam neste regresso – oscilações entre o desejo de retomada e a consciência de um esgotamento, a vinculação incômoda àquilo que foi tomado e que, sabe-se, não será devolvido. A consciência outra. Consciência de que, a qualquer momento, pode ser desferida alguma outra bordoada, sabe-se lá de onde, sabe-se lá de que direção. À medida que as irradiações provenientes do abalo anterior vão se tornando menos intensas, a formação apenas intuída do próximo. Processo no subsolo, por agregação. Seria preciso internar-se no tempo para ver: os elementos se unindo, se encadeando, conformando já o próximo choque e o próximo silêncio. O que se pode fazer, no entanto, com esse interdito? Com essa impossibilidade de internar-se no tempo? Que produção?

Fazer poesia, trabalhar com poesia, talvez seja uma maneira de tentar alargar a noção desesperadoramente estreita que se tem hoje em dia de “produção”, ou pelo menos de tentar apaziguá-la.

Um mês. Quanto basta. Convalescença e iminência. Certa extensão temporal computável, avante, a cuja sujeição nenhum de nós escapa. Tempo o suficiente para perceber-se que não nos recuperaremos de dado acontecimento. Tempo o suficiente para perceber-se que outros tantos já nos solicitam, por mais que se trate apenas da manutenção da vida corriqueira, fabrico de um certo ar, certa nota à vida que tocamos todos.

Decorrido um mês, as superfícies já não nos parecem tão embrulhadas. As cicatrizes começam a sossegar num corpo. As coisas vão mais repertoriáveis. O léxico da experiência e da educação começa a se apoderar dos vazios, dos abertos. Repise-se, no entanto, ainda não é o costume. Antes de uma consolidação, trata-se aqui de sua premência. O começar a reconhecer a pressão exercida pelas práticas do mundo, a exigência de que nos habituemos, de que voltemos – humildes, quase contritos – à ação, ao pensamento articulado, ao trato com o outro. Digamos que seja este o percurso. Digamos que seja este o itinerário.

Interrogo um poema antigo no qual se lê: “um poema deve acontecer / o dia”. “Alguém aí?”, pergunto, sacudo a caixa. Lá se vão seis ou sete anos desde que o escrevi. A contiguidade entre poema e dia – isto sobreviveu? Ergo o embrulho até os ouvidos. Naqueles idos, talvez não temesse uma bomba.

Quebradiço, de volta de uma grande mudez, impelido – apenas perceptivelmente – à próxima.

Não é o costume. Um poeta brasileiro não faz outra coisa senão começar.

Anoto numa ficha pautada:

Um vento bafiento corre
toda a alegria
da linguagem
até as portas da cidade.

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