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Organizar uma antologia é uma dor de cabeça. Há de se pensar em muita coisa: tamanho, representatividade, importância, direitos autorais. Sonhava em organizar e traduzir uma antologia do conto holandês, a primeira do Brasil e da América Latina, bem panorâmica. Durante oito anos, bati na porta de diversas editoras, oferecendo o projeto. Novato no mercado editorial, numa época em que ainda não havia as editoras pequenas bacanas de hoje, sofri, e muito. Pensando com a cabeça de hoje, sinceramente, não sei como não desisti. Ouvi diversas propostas, a mais diferente foi tentar patrocínio de empresas holandesas no Brasil, como a Batavo. Mas todas as editoras foram unânimes em uma coisa: escolher contos em domínio público.

Quando foi decidido o recorte de 100 anos de literatura holandesa (1839-1939), alguns autores que pensei em incluir, automaticamente, caíram fora, por causa de direitos autorais. Mas quem passou anos enchendo o saco de editores ia desistir de tentar convencer os herdeiros a ceder os direitos?

Contos holandeses (1839-1939), antologia que sai agora pela editora Zouk, com 18 contos de 18 autores clássicos daquele país, possui um único autor com direitos autorais: Simon Vestdijk (1898-1971), indicado 15 vezes ao Prêmio Nobel de Literatura. Após algumas tentativas, consegui entrar em contato com seu filho, Dick Vestdijk. Acabamos fazendo um acordo: ele cederia os direitos do conto Um dois três quatro cinco se eu topasse traduzir e vender para uma editora O quinto selo, romance sobre a vida do pintor El Greco. Recusei, dizendo que, em termos de romance, a melhor porta de entrada de Vestdijk no Brasil era O jardim de cobre, um dos principais e mais belos livros holandeses, radicalmente diferente do conto escolhido para a antologia, comparado na Holanda e na própria França a Em busca do tempo perdido (apesar de sua pequenez, em relação ao livro francês, pois tem meras 300 páginas). Dick aceitou. Não fazia a menor diferença sobre qual romance tentar vender aos editores brasileiros, ele ficou feliz só pelo fato de o conto ser a primeira obra de seu pai publicada na América Latina inteira. Note que estou falando de um autor que concorreu 15 (sim, 15, quin-ze) vezes ao Nobel. Traduzi cerca de 40 páginas de O jardim..., que quase foi fechado com uma editora, mas atualmente está sem casa editorial.

Também tentei conseguir os direitos de Ferdinand Bordewijk (1884-1965) e Nescio (1882-1961), o primeiro é comparado a Kafka, e o segundo é um misto de Tchekhov e Robert Walser. Como já traduzi obras de ambos, achei que teria vantagem e seria fácil negociar. Que nada. Editora holandesa logo barrou meu acesso aos herdeiros. Não adiantou argumentar que traduzi dois romances de Bordewijk, Caráter e Blocos – o primeiro ainda sem casa editorial, o segundo sairá pela editora Âyiné –, nem o principal livro de contos de Nescio – ainda sem editora –, e tentava há anos vendê-los por aqui; muito menos que era a primeira antologia do conto holandês feita em língua portuguesa e na América Latina. Lamento mais pelo Bordewijk, pois o público brasileiro não terá a chance de conhecer sua contística. Nescio – que não escreveu nenhum romance, apenas contos –, espero, sairá um dia por aqui.

A antologia demorou tanto tempo para se materializar, que Arthur van Schendel (1874-1946), um autor cujos direitos tentei conseguir e fui impedido por sua editora na Holanda, entrou em domínio público!

Tive a preocupação de fazer algo bem diversificado, tanto do ponto de visto de gênero literário quanto de identidade de gênero – há três autores homossexuais e quatro judeus, por exemplo. E tenho um enorme peso na consciência de ter incluído apenas uma mulher, Carry van Bruggen (1881-1932), espécie de Virginia Woolf. A prosa holandesa foi inventada por duas mulheres, Betje Wolff e Aagje Deken, que escreveram conjuntamente A história da senhorita Sara Burgerhart, publicado em 1782, considerado o primeiro romance da história da Holanda; até pensei em traduzir um trecho, mas aí já não seria mais uma antologia de contos – e elas não têm nenhum conto. Do período recortado pela antologia, além de Van Bruggen, destaca-se Henriette Roland Holst (1869-1952), poeta socialista importantíssima ainda hoje, mas ela também não escreveu nenhum conto. Se der tudo certo – antologia vender e for bem-recebida por público e crítica –, já está acertado com a editora Zouk de fazermos uma segunda antologia, do pós-Segunda Guerra Mundial até hoje, algo como 1949-2009, e haverá em torno de seis autoras, como Anna Blaman, a primeira lésbica a escrever, ainda nos anos 1950, sobre casais lésbicos.

Também tive que pensar em termos de tamanho de cada conto. Os holandeses têm uma predileção por contos bem longos, novelas, na prática. O principal conto de Hildebrand, autor que abre a antologia, por exemplo, é A família Stastok, com quase 100 páginas; de Vestdijk, é O amigo moreno, de quase 80 páginas. Assim não dá... Tive que chegar em um meio termo.

Mas tudo isso, a dor de cabeça, foi o de menos. Muita luta, dificuldade, persistência, anos depois, meu sonho se realizou: o leitor brasileiro finalmente poderá ter em mãos os grandes autores clássicos holandeses. Numa época das mais sombrias do país, mais do que nunca, precisamos de diversidade cultural e acreditar que podemos fazer algo. E agir.

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