Um depoimento sobre a arte de ‘‘reencarnar’’ nos personagens de um livro.

Partamos da premissa de que o processo de criação literária de cada livro meu  não é algo previamente definido. Nem definitivo nem imutável. Na verdade, nem existe um projeto prévio.  A narrativa vai se consolidando á medida que a obra ganha corpo.  Modifica-se de acordo com os desafios que me auto-imponho,  ao estabelecer a tessitura da narrativa, na urdidura do enredo. Busco uma técnica estimulante — apaixonante — que mobilize minhas emoções criadoras, distantes do modelo clássico do narrador passivo, onisciente e onipresente.  Este narrador com poderes divinos, assumindo o papel sobrenatural de espectador da comédia humana, como se dela fosse proprietário, não me agrada. Não me apaixona.
Não foi este o caminho técnico que escolhi em meus romances. Preferi construir personagens, ao mesmo tempo narradores e integrantes de seus enredos. Com eles me identifico de  um modo intenso  e peculiar, em cada um de meus livros.
Escrevo ao modo de Em busca do tempo perdido, em que seus personagens descrevem as situações com delicadeza e abundância de detalhes, esmerado senso crítico, sem ousar interferir no desenrolar dos assuntos. Na verdade, meu narrador se faz presente  no enredo  de modo  discreto e reverente às forças do destino.  Falam e contam suas histórias de modo circunvoluto, cientes da infinitude de suas narrativas, ao modo de Lauwrence Sterne em seu Tristan Shandy. Certamente esta é minha forma de ver o mundo, certamente  plasmada em minha formação profissional como psiquiatra.
No meu primeiro romance, Memórias de Isabel Cavalcanti, a personagem que dá o nome ao livro assume a condução da narrativa expressando  todas as suas características pessoais. Mulher de forte sentimento de família e compromisso com a memória da sua gente, deseja registrar a história dos seus ancestrais e descendentes desde os primórdios de Pernambuco. Sua língua ferina e senso crítico aguçado fazem com que denuncie a história oficial “registrada pelos cronistas á soldo do Reino”. Na época eu estava muito entusiasmada com meus estudos e descobertas genealógicas e foi inevitável essa forte identificação com minha  nonavó. Desejei transformar meus árduos estudos sobre os Cavalcanti de Albuquerque em um registro agradável. Para ser lido pelos meus netos. Transformei-me em Isabel Cavalcanti.. Ao modo de Flaubert( Madame Bovary c´est moi ) eu poderia ter dito:  Isabel Cavalcanti sou eu.
Como acontece com os genealogistas.  Isabel recria e analisa os acontecimentos a partir da visão da “ petite histoire” Reúne fatos aparentemente sem importância, detalhes menores que transformam-se no cerne da verdadeira história. Essa visão da história, a partir dos detalhes mais humanos, marca todos os meus livros, mesmo os dois últimos, aparentemente dedicados à História maior.
Em Luz do abismo, a pesquisa genealógica prossegue tendo agora por objeto o isolamento da família nos confins do agreste pernambucano. Eu,  autora, Maria Cristina, lá me faço  presente em minha identidade real de pesquisadora. Deparo-me com sua velha parenta, Dona, agora eleita narradora da novela.  A ela me entrego dócil e obstinada. Da relação entre nós  duas nasce uma simbiose que aponta para as similaridades da autora intrusa — rara e discreta— com Dona, sua exuberante contestadora. Ambas têm em comum o aguçado senso crítico, a paixão pela busca do fato histórico, o senso de humor sutil e sensível. O livro termina com a morte de Dona. Ela  me entrega ( enquanto autora, personagem, real e ficcional) o que resta de sua existência devastada pelo tempo : suas memórias de família.

Ruiva, sardenta e de olhos negros
Em Príncipe e corsário desejei assumir um desafio técnico  maior. Entreguei a narrativa do romance a Gaspar Dias Ferreira, um judeu, sem escrúpulos, boquirroto, amante do Brasil e amigo leal e secretário de João Maurício de Nassau. A minha entrega ao narrador se dá com absurda facilidade. O fio condutor é a sua capacidade de observação sutil e o esmerado senso crítico, qualidades minhas  que não consigo disfarçar em nenhum dos narradores  ficcionais de meus romances. Também nos une  nosso sentimento de amor à terra, de fidelidade à pátria,  compreensível em uma pernambucana quatrocentona mas estranha em um judeu de múltiplas  nacionalidades
Em Olhos negros a história das revoluções libertárias que engrandeceram Pernambuco passa a ser contada por Maricotinha, mulher apaixonada, expansiva, impulsiva, de incontidas emoções à flor da pele. Este seu caráter histriônico em tudo difere da  minha natural reserva e autocontrole. Uma nunca chora. A outra chora, se enrubesce e se descontrola com frequência. Em comum, elas têm o mesmo senso crítico agudo  e sensível, o mesmo gosto pela história, o mesmo desmesurado amor por Pernambuco.
Ruiva, sardenta,  de brilhantes olhos negros ela não os tem azuis como os de seu amante, o  general Abreu e Lima. Nem como os imaginados e irreais olhos azuis de Gilberte, personagem de Proust. Aqui a cor dos olhos da narradora representa, como os da autora, olhos reais, capazes de registrar uma história  a ser confirmada pela posteridade.
Travestida em senhora amante da família (Isabel) , em velha ciosa de suas dolorosas lembranças (Dona), em um judeu desonesto e leal ao amigo(Gaspar Dias), em uma mulher culta, sensível,  consciente de sua responsabilidade histórica (Maricotinha), a autora conduz enredos que buscam uma versão da história de Pernambuco, liberta dos grilhões das versões oficiais. Todos os meus narradores  buscam uma narrativa dos acontecimentos liberta das vestes apertadas da verdade oficial. Sinto-me muito à vontade com todos eles. São, certamente, grandes amigos e diletos confidentes.


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