bastidores MAI15

Meu último romance nasceu do velho costume de deixar tudo para trás. Há quem passe a vida arquitetando uma fuga. Eu faço da fuga a minha toccata. Reinicio o sistema. Desapareço. Recuso. Nego. Abandono. Não posso evitá-lo. É um ato tão covarde quanto arriscado. A cada passe, desperto mais vivo e mais morto. A cada morte, menor e descentrado. E vou criando em mim uma arte de perder e de levar comigo.

Fui para bem longe, desta vez. Comprei uma passagem só de ida e parti em 20 de janeiro de 2014 para Bangkok. Levei uma outra vida. No tórrido inverno tailandês, andei de moto sem habilitação nas estradas de Chiang Mai; escalei montanhas sob as asas de morcegos jurássicos; entrevistei ex-guerrilheiros karen; invadi o campo de refugiados na fronteira com Mianmar; fiz um retiro vipassana na floresta de Kanchanaburi; perdi-me no bairro chinês de Samphanthawong e mergulhei nos paraísos azuis de Krabi. Nesses seis meses de viagem, afastei-me de toda discussão doméstica, das monótonas ondas do oceano de opiniões e polêmicas nacionais. Perdi a Copa. Quase um ano sem saber das últimas perpetradas pelas figuras hediondas da política e da tevê. Fui um outro, alheio e presente, e revivi nas antípodas do Ocidente a pesquisa de uma forma que encontrasse minha fome a de uma comunidade imaginária de leitores. De minha índole, aproveitei o desarvoramento. Do romance, a irrealidade do real. Da viagem, a volatização geográfica de nosso tempo.

A inspiração artística já foi mensagem divina, possessão, sopro de musas, retorno do recalcado, síntese do intelecto esclarecido. Fruto do equilíbrio ou da desmesura, da temperança ou do vinho; dom ou bem, deriva ou resistência; colhida com humildade ou consternação, as palavras justas sempre foram mais do que alguém poderia produzir em sã consciência. Escrever exige um grau de vocação estrangeira, de torção cronológica e de uma disposição para perder-se. Na recepção desta abertura rítmica, contudo, cumpre estar disponível, desocupar a agenda, numa disposição flutuante que recusa a utilização sistemática do tempo.

Há na escrita um encontro pleno de atividade e passividade, de consagração da palavra e subversão de aquerontes. São muitas as técnicas e os ceticismos, nenhum infalível ou suficiente. Criar implica acessar pontos onde emanam pulsões incandescentes, e isso não é atingido pela recorrência indefinida a uma prática específica. No momento em que se institucionaliza, um procedimento converte-se em ritual e começa a agonizar. As repetições têm dessas: a de se tornarem ecos esmaecidos de um ato original. E na escrita todo ato precisa ser original.

A minha técnica (ou antitécnica) foi: viajar para escrever, escrever para viajar. Abraçar o efêmero e o estado fantasmal do viajante. Não escrever apenas da cintura para cima, mas fazê-lo com o corpo todo, encontrar uma justa medida entre disciplina e disposição passional, entrega ao sensível e curiosidade analítica. E ser plenamente este não-estar.

Após seis meses na Tailândia, contraí um salutar empréstimo bancário e passei o verão em Berlim, escrevendo o romance a partir dos cadernos que preenchi na estrada. Dedicava as manhãs à escrita. Depois de almoçar, apanhava um livro e seguia de bicicleta a um parque próximo. Às vezes tomava o ring — a linha ferroviária que faz um percurso circular, horário e antihorário, ao redor da cidade — e passava horas embalado pelos trilhos, intercalando as sentenças de Joyce, Flaubert, Alice Munro e Bulgákov às imagens cambiantes da janela. No fim da tarde, voltava para casa com uma cerveja, frequentava uma academia ou me juntava a novos amigos. A noite chegava às onze horas. A capital alemã foi esta tranquila dispersão. Um lugar de todos os lugares.

Claro: é preciso fazê-lo não importa onde ou como. Mas há quem prefira um ambiente caótico para escrever. Quanto a mim, sei que sou mais fluente no silêncio. Alguns só escrevem acometidos de angústia. Eu penso melhor depois de esconjurados os queixumes. Confiante apenas o suficiente para brincar com a grandiosidade virtual de algo próprio. E inseguro o bastante para retornar ao que já foi feito, e desmontá-lo, e refazê-lo.

Os amantes da fronteira nasceu deste encontro entre a distância natal, a tórrida experiência asiática e a brisa de um passeio de bicicleta.

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