A escrita de Miragem surge de forma absolutamente inesperada. Ao reler Os Sertões, fui contagiada pela poética de Euclides ao descrever a morfologia dos sertões e a luta dos titãs contra seus algozes. Minhas retinas capturavam um sertão complexo e intenso, humano e desumano, agro e misterioso, solitário e florido, febril e coberto por um céu de extremidades azuis. O que vi e vivi nessa leitura em nada se aproxima da experiência da primeira, da minha juventude. O que me fez pensar: o leitor reconstrói o texto cada vez que o lê, numa prática dialógica, nos ensinam Bakhtin e Paulo Freire.
 
O Sertão impávido de Euclides corre nas minhas veias desde sempre, nasci nele. Vivi minha infância experimentando a aridez do solo, a luta cotidiana dos que trilham as veredas da caatinga garranchenta e cinza do Araripe, o gosto cítrico do umbu, o prazer de tomar banho de chuva, tão esperada e celebrada nas ruas da minha infância; de repente, o Sertão alagava-se e o leito abraseado revestia-se de uma flora viva, revivente: a alegria tem a cor da flor do mandacaru e o verde da caatinga.
 
A poesia de Euclides salta aos olhos numa contundente e densa descrição da imbricada relação entre a terra, o homem e a luta. Marca a ferro e fogo a alma do leitor. A minha alma de sertaneja. O solo, o sertanejo e a luta pela sobrevivência, expressos na descrição etnográfica da guerra de Canudos, servem como metáfora para a luta que travamos cotidianamente por uma sociedade mais justa e igualitária. Aprendamos com a força dos titãs desassombrados de Euclides a enfrentar a exclusão social e cultural produzida por nossos opressores. Aprendamos com eles a enfrentar as intermitências da vida. Essa luta é mais que uma batalha de fé. 
 
O titã d’Os Sertões é a certeza de que enfrentamos nossos opressores com a mesma determinação quando decidimos viver noutras paragens, cultural e linguisticamente diversas. Vivi os Sertões de Minas, das Gerais. Uma paragem de quase 30 anos. A mesma luta. O mesmo solo. O mesmo homem. A mesma paisagem. O Sertão são vários e ao mesmo tempo um só. O destino de ser-tão-só é o que nos cabe. 
 
O processo de escrita do livro deu-se da forma mais espontânea possível, uma vez que não foi previamente pensado. Logo nas primeiras páginas da releitura d’Os Sertões comecei a enxergar “versos” e a encantar-me com as imagens que o texto insinuava. A ligação com minha experiência de vida era imediata, inevitável. A vegetação com a qual estava tão acostumada apresentava-se ali na forma de poesia; a paisagem que eu guardava desde a infância transfigurava-se a cada página lida. Lembrava-me com clareza dos vaqueiros em seu ofício, tangendo a boiada ao final da tarde, quando o Araripe ainda era uma cidadezinha de cultura predominantemente rural. Das muitas vezes em que acompanhei meus pais no plantio da mandioca e outras culturas. Das marcas do sol e da caatinga num corpo sem proteção. Como bem disse Guimarães Rosa: “Não há nada mais terrível que uma literatura de papel, pois acredito que a literatura só pode nascer da vida” (Ave palavra,1995:48).
 
Percebi então a necessidade visceral de anotar trechos, palavras, expressões euclidianas que iam surgindo com a leitura. Mais ainda: o meu desejo era transformar aquelas notas em poemas, estabelecendo links para criar imagens a partir de um “paralelismo fônico e rítmico” (Lourival Holanda).  Num bloco de notas do celular anotei e arquivei todas as expressões retiradas das 600 páginas d’Os Sertões. A primeira versão dos poemas foi escrita à medida que a leitura avançava. Ainda não havia clareza se deveria ou não transformar esse processo num livro. Num segundo momento, realizei o trabalho de reescrita. 51 poemas. Um livro publicado.
 
Miragem. Uma das expressões de Euclides, para quem o Sertão é uma miragem, o sertanejo é antes de tudo um forte e o que resta é apenas a fragilidade da palavra humana. É com a clareza dessa fragilidade que produzi a releitura d’Os Sertões. Na verdade, uma metáfora para a releitura de mim mesma. Após trinta anos em Minas, volto a viver no Nordeste. Miragem possibilita-me um reencontro poético e crítico com minha própria história. Fortalece o meu enfrentamento na lida com o imprevisível e o preconceito contra os excluídos. Me dá a possibilidade de enxergar saídas ao perceber que as trilhas são multívias; de ter esperança na flora revivente (“quando as nuvens / ficarem grávidas / de um novo tempo / as feridas / hão de cicatrizar-se”); de não me render, pois Canudos não se rendeu.

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