Ilustração por Janio Santos

Palavras de pedra.Esse seria o método de composição, o mote do corpo do texto. Meu primeiro romance, Nunca o nome do menino, havia atendido a outros ditames, aos da fluidez, das fronteiras mal (ou não) delimitadas, de um excesso que se manifestou em músculos, sangue e gordura presos aos ossos das frases. Uma mulher se descobre personagem de uma ficção que não aprecia e cujo autor despreza, e passa a sabotar a própria narrativa na esperança de morrer. Ambientado numa metrópole e de trama e matéria-prima explicitamente literárias, uma vez parido, o livro me legou o desafio de, no seguinte, arriscar-me em terreno por mim menos palmilhado. Como seria escrever um livro que se passasse em tempo e lugar distintos dos de minha experiência e criar personagens alheios ao universo urbano e letrado presente num bocado significativo da literatura brasileira contemporânea?

 

Do desejo ao papel há um abismo que só pode ser transposto se um interesse mais legítimo que a dúvida se tornar uma ponte. Minha ponte seria uma história, a meu ver, merecedora de gerar ficção e que, se dela eu não caísse, me levaria às regiões que, antes, só por veleidade eu queria visitar. Durante uma viagem ao interior da Bahia, um guia de trilhas me contou a sina da vila erguida em pedra e reduzida a ruínas, depois de os garimpeiros perceberem que, na região já devastada, os únicos lugares em que ainda poderia haver diamantes eram os terrenos onde estavam as próprias casas. Apesar de nunca ter sido importante saber o grau de veracidade daquela poderosa confirmação de que a esperança ou a cobiça era capaz de fazer o ser humano cortar na própria carne, eu pude descobrir, ao longo do trabalho, que o substrato do relato era preciso, ainda que a realidade pudesse ter sido mais complexa.

 

Então eu tinha uma história para esse romance que um dia viria a se chamar Tempo de espalhar pedras. Uma que parecia instigante o suficiente para compensar minha insegurança e os riscos da jornada. Como construí-lo? Um ambiente de penúria, habitado por pessoas às quais o leitor talvez relutasse em se apegar tais suas precariedades, tanto elas cediam de sua humanidade em troca da sobrevivência ou da satisfação de outros desejos, tal ambiente me pedia uma linguagem de arestas que ameaçassem arranhar como espinho de cacto, diamante bruto, ponta de faca ou lascívia represada. No primeiro romance, lirismo; nesse, o corpo, mas não o corpo vistoso, vitruviano, alimentado do que quer que seja até o fastio, preenchido de alma ou espírito. Um corpo em que o único sopro fosse o do resultado das fermentações e cujos movimentos o protegessem de outro corpo ou o subjugassem. Não só corpo o humano, mas também o corpo social, suscetível como os outros a enfermidades. De tudo isso, as palavras de pedra.

 

Por preguiça, predileção ou ambos, a busca por vocabulários específicos, como os do garimpo ou de uma certa fala sertaneja, foi quase toda feita em literatura de ficção. Além de mais gratificante, ao alimentar a literatura de literatura, eu me afastava da História (e do romance histórico ou regional) e conferia ao meu modo de contar algo de mítico ou alegórico, o que me aprazia. Romances centrados em garimpos ou que retratassem as artes de sobrevivência do brasileiro em condições adversas foram fontes necessárias, mas acontecia também de um tema (o da vingança, por exemplo) ou outro elemento qualquer justificar o passeio em textos de outros tempos, tradições ou até linguagens, como a da poesia.

 

A literatura que se alimenta de literatura não pode se pretender realista, já que entre ela e a suposta realidade há camadas de matéria transformada por escritores. A linguagem não poderia jamais, num caso como o de Tempo de espalhar pedras, aspirar à transparência ou permanecer nas coxias como coadjuvante discreta de um conteúdo que existisse para fora dela (ou de nós). Foi por essa razão que houve sempre a busca do efeito e dos jogos de linguagem, dos períodos contorcidos, retalhados ou alongados. Para que o leitor pudesse — se eu fosse bem-sucedido — desejar junto com Rodrigo e Ximena, que se atraem e repelem com a mesma intensidade, ou Joca e Bezerra, que vão acrescentar matizes perigosos à amizade baseada na cobiça, ou Sancho, velho amancebado da índia de palavras incompreensíveis, mas sem que a literatura deixasse de se afirmar o tempo todo como tal. Agora é tempo de outros bastidores, os de leituras — que podem ou não ter a ver com os meus.

 

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