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Arthur Bispo do Rosario criou uma obra de arte fenomenal na precária condição de paciente psiquiátrico, na cela minúscula de um hospício. Suas peças, de uma beleza lúdica, comovente, foram expostas nos mais prestigiosos museus europeus e representaram o Brasil na Bienal de Veneza, na Itália. No entanto, ele nunca se disse artista. Bordados, assemblages, objetos, escritos: toda a sua poética era feita para Deus, sob a encomenda de anjos. A história de Bispo é tão extraordinária que, se existe uma linha concreta entre realidade e ficção, lucidez e loucura, a partir dele se apaga.

 

Para escrever a biografia desse homem excepcional (Arthur Bispo do Rosario — O senhor do labirinto, ed. Rocco), tive de entrar num labirinto do qual ele foi único senhor. Deixei-me desgovernar pelo manicômio que frequentei, pelo real infiltrado do alucinatório, por pistas falsas. Afinal, quando perguntavam a Bispo de onde ele era, a resposta era abstração: “Um dia eu simplesmente apareci.”

 

Ao longo da pesquisa de sua trajetória (realizada entre 1994 e 1996), apesar da jornalista que eu era, rapidamente percebi o quanto em Bispo a verdade podia ser traiçoeira e o fantasioso imperativo. Escrevi todo o livro centrada nessa incerteza.

 

As marcas da violência psiquiátrica na Colônia Juliano Moreira, hospício carioca onde Bispo morou durante cerca de 50 anos (1939-1989), eram, mais do que flagrantes, indecentes. Seus quartos-fortes tinham o fedor encardido dos fluidos humanos há décadas acumulados, misturado ao cheiro do detergente inutilmente ali jogado. Os eletrochoques e as lobotomias, àquela altura abolidos, ainda tinham efeitos visíveis em pacientes que eu entrevistava. Um dia, por exemplo, um deles me mostrou a cicatriz na cabeça, todo sorridente, sem noção do tanto de si que aquela cirurgia amputou.

 

Nessa pesquisa incansável, emocionalmente cansativa, descobri que a Colônia tinha sido fundada nos anos 1920 por um diretor que no discurso de inauguração prometia resolver, com o hospício, “problemas de higiene e defesa social”, confinando ali “tarados, ébrios, loucos e menores retardados”, bem como “fanáticos das sanguinárias e perigosíssimas doutrinas anarquistas ou comunistas”. Para entender Arthur Bispo do Rosario, tive de chafurdar nessa lama histórica, encarar equívocos do passado e lidar com suas sombras no então presente.

 

Entrevistei não só funcionários, médicos e pacientes que ainda trabalhavam/moravam no núcleo Ulysses Vianna (o de Bispo) como alguns aposentados que contavam, sem culpa, excessos punitivos de outras épocas. Jornalista treinada para a imparcialidade, ouvia tudo impassível, como se achasse normal, por exemplo, saber por um dos ex-guardas que eles tinham inventado uma modalidade brasileira de aplicação de eletrochoques: para dar menos trabalho, em vez de aplicá-los sob cuidados médicos, na cama do hospital, organizavam uma fila no pavilhão, levavam as máquinas e aplicavam os choques ali mesmo, nos pacientes de pé, a fila andando.

 

Passei os anos de pesquisa-escrita do livro assim, de espanto em espanto (de dia), pesadelo em pesadelo (à noite). O humano em mim, sob a casca da jornalista imparcial, se chocava com tudo, absolutamente tudo. Mas, sobretudo, com a potência de Bispo, que soube inverter a hierarquia do poder no manicômio e se impor: com a sua fé (era um místico) e a obra (sim, era um artista).

 

Se há uma verdade sobre esse artista, está inscrita em sua obra. É do emaranhado de linhas, objetos, palavras que desponta a sua biografia – uma parte autêntica, outra forjada. Porque ao tentar “representar” o universo para apresentá-lo no dia do Juízo Final, ele simultaneamente reorganizava seu universo íntimo.

 

Conta-se que de início, na falta de material, Bispo teria desfiado o próprio uniforme azul da Colônia para reaproveitar os fios em seus bordados. Ousado, desconstruía assim um dos grandes símbolos do poder psiquiátrico. Um dia também percebeu que podia bordar nos velhos cobertores do hospício e catar o lixo manicomial, reordenando-o numa outra estética. Ou seja, vertia em arte todo o peso da psiquiatria.

 

A mim restou verter em literatura todo o peso de sua história. Mas optei por valorizar o que ele próprio valorizava: o imaginário, a fé, o caráter lúdico da obra. Lançado em 1996, o livro Arthur Bispo do Rosario — O senhor do labirinto rendeu-me um prêmio Jabuti e ao longo dos anos teve sucessivas reimpressões, uma reedição em 2011, tornando-se obra de referência para as mais diversas dissertações de mestrado e teses de doutorado em universidades no Brasil e no exterior.

 

Se revisito agora toda essa história, meu próprio making of, é porque esse livro enfim chega ao cinema: O senhor do labirinto, belíssimo filme dirigido por Geraldo Motta (codireção de Gisela de Mello), em cartaz desde o mês passado. Escrevi o roteiro desse longa-metragem de ficção junto ao diretor e, ao ver o trabalho excepcional do ator Flávio Bauraqui no papel de Bispo, percebi o quanto ele ainda hoje me encanta, surpreende e comove. E sei por quê: ao lidar, tão jovem, com o seu labirinto, aprendi cedo a lidar com o meu.

 

 

 

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