Ilustração por Janio Santos

 

O grande motivo que me levou, no meio do meu doutorado, a ler as 1079 páginas de Graça Infinita foi uma espécie de banho de descarrego. Naquela altura da minha vida, mergulhado como eu estava no Ulysses, ninguém mais aguentava a minha tietagem joyciana. Aí, pra citar o Finnegans Wake(ah, Caetano, seu incorrigível...), eu fui ver como andava a literatura na penhora de todos imundos pensáveis. E Graça infinita foi uma poderosa mão na roda. Me destravou.

 

O curioso (irônico?) é que na minha carreira de tradutor, que na época nem existia, o livro de Wallace viria a cumprir o mesmo papel. Porque depois de entregar a versão final (ao menos por enquanto) do meu Ulysses, a roda-viva joyciana em que eu estou mergulhado desde 2002 só se intensificou. Eu só falo de Joyce, só penso em Joyce, só dou aula de Joyce etc.Traduzi outros livros, claro, mas eles nem arranharam essa sensação de estar vinculado ao Ulysses.

 

Só que imediatamente depois de sair o romance de Joyce, me chega a notícia de que a editora iria lançar o de Wallace, de que seria eu o tradutor, e de que era bom começar o quanto antes, rapá! E mais uma vez os dois romances como que se sobrepuseram na minha vida. E mais uma vez Wallace veio me tirar da obsessão joyciana.

 

Porque não se pode traduzir um romance da extensão de Graça infinita, um romance com a pretensão de Graça infinita e com o virtuosismo técnico e formal de Graça infinita sem uma imersão longa e constante.

 

Normalmente, os tradutores literários têm que trabalhar “de primeira”. Ou seja, você recebe um livro para traduzir, no máximo dá uma olhada geral nuns trechos para se familiarizar e se enfia na tradução. Aprendendo no caminho.

 

Mas com uma coisa com o grau de dificuldade e de complexidade de Graça infinita, a minha imensa sorte foi precisamente já contar não apenas com uma leitura prévia, mas com anos e anos de leitura daquele livro (mais de uma) e do restante da obra do autor, como que ensaiando mentalmente um tom, um jeito, uma possibilidade de dizera singular voz de Wallace em português.

 

Porque o livro tem dificuldades a dar com o pau. Claro. Mas a grande maioria delas, como de costume, é na verdade uma intensificação daquilo que normalmente faz a dificuldade da tradução de prosa literária. Quanto melhores os romances, mais intensos tendem a ser os problemas. Mas tendem a ser os mesmosproblemas: diversidade de vozes/registros, amarrações internas que devem ser mantidas, às vezes, à custa de repetir uma única palavra a centenas de páginas de distância, especificidades culturais que podem ser difíceis de transpor, ressonâncias temáticas ou “poéticas” que dependem de conotações (ou às vezes dependem da materialidade fonética da palavra, mesmo) que os termos correspondentes não vão ter em português, trocadilhos, piadas que precisam funcionar... enfim. O de sempre. Aquilo tudo que faz a gente gostar de traduzir bons romances, ora!

 

Mas, como costuma acontecer com os grandes romances, Graça infinita tem também dificuldades todas suas. Novas. Inventadas ali para dar conta de problemas que o autor julgava que só desse jeito seriam abordáveis. E são várias, essas dificuldades novas.

 

Mas talvez a mais séria delas, exatamente por ser a mais característica da ficção de Wallace naquele momento (e a mais imitada), seja o uso de uma voz narrativa brutalmente autoconsciente, violentissimamente onívora, engraçadíssima, inconsequente e assustadoramente eficaz como veículo e como representação de um fundocultural e social de fins do século 20. Uma voz que eu gosto de pensar que está para os anos 1990 assim como a da persona cômica de Woody Allen está para os 1970.

 

E o problema é que, especialmente no que essa voz tem de mistura de registro alto e baixo, oral e erudito, e no que ela tem de apropriação de uma sintaxe irresolvida da fala (as frases nem sempre terminam, muitas vezes se interrompem e mudam de rumo, vivem quebrando regras escolares e estilísticas, assim, tipo o tempo todo), ela não pode ser simplesmente transposta na tradução. Não se trata de reproduzir apenas um caminho retórico-conceitual interessante, diferente. A questão é encontrar, numa língua com uma realidade sociolinguística completamente diferente da americana¹, uma maneira adequada, equivalente, de produzir esse discurso que lembra a fala de um hipererudito imerso na linguagem das ruas, das gírias.

 

E fazer isso tudo, ainda, soar no mínimo delicioso. Porque delicioso é, de fato, o mínimo elogio que se pode fazer à prosa original de Wallace.

 

Se deu certo?

 

Depois você me conta?

 

 

¹ O que em inglês é a diferença entre norma culta e oralidade, no português do Brasil é um abismo. E um abismo raramente negociado pela nossa prosa. Isso não sou eu quem digo, não. Ok? Ao menos não só eu. Acredite em mim. E, ah, a nota de rodapé fica de homenagem ao Wallace. E a metarreflexão sobre a nota de rodapé e na nota de rodapé...

 

 

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