Talvez a escrita muitas vezes comece a ser feita sem um sentido específico

Outro dia, me perguntaram sobre meu próximo projeto literário. Informei que eu tinha começado a escrever um novo romance, ainda sem nome, e que esperava desenvolvê-lo ao longo deste ano. Um romance, quem sabe, feito com uma quantidade menor de mortes que aquelas enumeradas em A passagem tensa dos corpos, lançado no final de 2009. E a pessoa, surpresa: “Começou a escrever? Já? Sem mais nem menos? Assim?”
Já, sem mais nem menos, assim. Pensei um pouco sobre as expressões que a pessoa usara: se não “já”, qual seria o tempo certo para se iniciar a escrita? Como condição para seu início, ela exigiria algo que a superasse ou a ultrapassasse – um “mais”, portanto – ou que a antecedesse e a predispusesse – como um “menos”? Finalmente, não podendo ser “assim”, a escrita deveria ser de outro modo? Qual?
Respondi, então, que eu tinha mesmo começado já, sem mais nem menos, assim, e que acreditava que a escrita fosse, talvez, sempre produzida nesses termos. Ainda que por encomenda, ainda que forçada a cumprir prazo, ainda que sob circunstâncias limitantes, a escrita é capaz, por suas próprias forças e possibilidades, de impor-se como uma experiência singular, portando suas próprias justificativas e condições.
Essas foram algumas das descobertas feitas durante o processo de produção de A passagem tensa dos corpos. Eu vencera, em 2008, o prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura pela categoria Jovem Escritor Mineiro com o projeto do romance e contava, pelos termos da premiação, com um prazo de seis meses para desenvolvê-lo. Para isso, mantive um cronograma exigente de produção, que ocupava integralmente manhãs e fins de semana. As tardes eram utilizadas para leituras e elaboração de notas de pesquisa. Outras atividades que realizava e ainda realizo – ligadas às artes plásticas, à formação psicanalítica e à docência – foram claramente marcadas pela experiência a que a escrita está sempre a nos convocar – ou com que ela nos assalta.
Já: a escrita é uma forma de violação imperativa e urgente. Ela possui a temporalidade do ato. A escrita corta, interrompe. Ela desloca uma série de acontecimentos ordenados pela vida cotidiana e instaura outras ordens de sentido. Começá-la já promove uma série de fraturas naquilo que soa familiar e que, daí em diante, se vê ameaçado pelo estranho.
Nem mais nem menos: a escrita não é uma maneira de se expressar uma ideia, uma proposição ou uma hipótese que estariam previamente formuladas e prontas em nossas mentes, nem um meio para se obter uma recompensa superior, futura e redentora. A escrita é a própria expressão de suas possibilidades e de seus fracassos. Capaz de se arriscar diante de sua própria ruína, ela não é mais nem menos que a vida: ela é, dentro desta, uma outra vida que ora nos fascina, ora nos espanta.
Assim: escrevemos para sofrer a experiência de escrever – como dançar é a finalidade da dança, como passear é a finalidade do passeio. Assim e não de outro modo, como diz Giorgio Agamben, irreparavelmente. Colocamo-nos sob a escrita e ali, em estado de palavra, estão todas as razões de que precisamos. Destituída de essência, ela coincide com seu aparecimento fulgurante.
Não pretendo que essas formulações rápidas tenham validade para além da minha experiência de escrita de uma obra. Mas elas compõem o acervo de descobertas feitas a partir do trabalho literário e mostram que um autor só pode continuar seu texto se ignora seu destino e se aceita que, ao lado do que sabe sobre a linguagem, reside tudo aquilo que ele não sabe, não conhece, não vê, não entende.

ilusória autoridade
Em parte, A passagem tensa dos corpos procurou mostrar essa relação que a palavra estabelece com o seu próprio desaparecimento, e o fez por meio de um conjunto de mortes – de desaparecimentos, portanto – que se tornaram condição para a almejada existência material do narrador. Os cortes nas frases, a estruturação dos parágrafos em blocos e a fragmentação dos capítulos tornaram-se, por sua vez, formas pelas quais a perda, a quebra e a falta puderam se manifestar na narrativa.
Quando inscrevi o projeto no concurso, apresentei 15 páginas para avaliação do júri. Embora alguns dos elementos mais marcantes da obra já estivessem ali bem apresentados, eu não sabia como personagens, enredo e as questões relacionando morte e linguagem ganhariam consistência e elucidação. Foi preciso tatear, foi preciso perder a suposta e ilusória autoridade sobre o texto. Foi preciso reconhecer que a palavra faz passagem, e só então seguir.
Eu escrevo com certa lentidão. Não gosto de avançar sem ter alcançado pelo menos um pouco de sustentação no que foi formulado. Quando considerei ter chegado ao fim do romance, com quase cinco meses de trabalho ininterrupto, fiz a primeira leitura. A esta seguiram-se pelo menos outras cinco, e todas resultaram em modificações importantes, o que me mostrou a importância de se retornar sempre ao texto. Como a escrita, a leitura também faz ato: ela é penetrante, reveladora e surpreendente.

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