Ilustração por Janio Santos

É hora do romance, pensei. Publiquei quatro livros: uma novela, um romance esquisito, um livro de contos e um livro-jogo, mas nenhum romance normal. Um romance de fôlego, um romanção: ainda não havia feito isso. Comecei a escrever, sem a menor ideia do itinerário tortuoso que iria percorrer.

 

A ideia começou lá por 2008. Minha família tem um sítio em Araras, bairro de Petrópolis, no Rio. Comecei a escrever sobre a experiência de estar sozinha nesse lugar e a alinhavar uma personagem inspirada na Erzsébet Báthory, condessa húngara conhecida por seu sadismo. Diz-se que Erzsébet era promíscua e muito cruel com as servas; um dia, teria alucinado que a pele manchada de sangue de uma delas estava rejuvenescendo. A partir daí, ela passou a matar moças e a tomar banho com o sangue na esperança de ser eternamente jovem. Quando donzelas de família nobre começaram a desaparecer, a Condessa Báthory foi emparedada como castigo. Há quem diga que boa parte disso é exagero, e que na verdade os outros nobres só estavam querendo pôr a mão nas terras de Erzsébet com uma desculpa qualquer. De qualquer modo essa história inspirou uma variedade de arte gótica, incluindo alguns bons filmes, e até hoje muitas bandas de metal fazem músicas em homenagem a ela.

 

Nobres são cruéis e ao mesmo tempo frágeis: têm tendência a doenças como hemofilia e esquizofrenia. E são proprietários de terras. Me parecia adequado transplantar essa história para a realidade brasileira situando-a num lugar privilegiado, com casas de campo.

 

Meu pré-projeto foi rejeitado pela Funarte (ainda sob o título Possessão) e pela Granta em língua portuguesa, mas depois, já em 2012, foi acolhido pela Companhia das Letras. Com essa segurança, pude trabalhar melhor na minha protagonista, a Izabel. Ela seria uma ex-gótica promíscua de classe média alta, e viveria cercada de gente mais rica e célebre do que ela, mas também de gente mais pobre. Ela transitaria entre dois mundos, estaria sempre no meio.

 

Como deuteragonista, criei o Eduardo, que nasceu nesse local onde Izabel tem casa de campo. Eduardo é filho de dois caseiros evangélicos e nunca morou fora da cidade. Ele já foi pensado como programador e dono da lan house local, como forma de contrastar com seu ambiente e ser um “oposto complementar” a Izabel, que é designer e cosmopolita.

 

Outros elementos foram despontando. Na mesma linha dos nobres, celebridades também têm uma dualidade básica. São amadas e odiadas, ficando muito mais expostas pelo mero fato de ser quem são: surgiu o casal Ulisses e Cecília. Surgiu o tema da população local que entrou há pouco na classe média, de caseiros evangélicos e seus filhos. Veio a Sirlene, jovem com uma banda de metal cristão (sim, isso existe). Ela acabou virando uma quase-namorada do Eduardo.

 

Então, Izabel era uma moça sozinha moleque e atlética fazendo trabalhos de sítio; Eduardo tinha ganhado uma família evangélica; pensei em desenvolver mais esse tema dos evangélicos com algo inofensivo mas que ferisse a sensibilidade deles. Veio a ideia de fazer Izabel ficar com uma ou mais mulheres, além dos homens com quem já dormia, e o pessoal local descobrir; pareceu também um jeito interessante de aproximar Izabel do “núcleo rico”, o que já estava planejado. Então Izabel ficou sendo bissexual.

 

Comecei a frequentar mais o sítio real. Aprendi a fazer boa parte da manutenção verde que Izabel faz. Aprendi a andar de moto como ela. Flanei por Petrópolis me deslocando com transporte público. E — fato inédito na confecção de um livro meu — conversei muito com as pessoas. A caseira do sítio, a filha dela, a vizinha, o dono da lan house, a manicure, as pessoas na rua, o dono da venda, o sensei do dojô. Todo mundo. Passar tempo lá, ouvir e dialogar me ajudou bastante a tecer o livro. Quando vi, eu tinha escrito muitas páginas, e falado de solidão, especulação imobiliária, cultura evangélica, videogames, literatura e violência; mas também sucesso X realização profissional, tecnologia X natureza, voyeurismo X exibicionismo. Nessa hora, passei a identificar o lugar do meu livro como Araras mesmo — pareceu mais honesto.

 

A parceria com o editor André Conti renderia um capítulo à parte: ele teve a pachorra de ler duas versões preliminares do romance para me ajudar a descobrir em que direção seguir. No final, passamos por inúmeros títulos (como Vontade de fugir, em referência ao fugere urbem), mas acabamos ficando com A vez de morrer— tradução literal de uma fala do androide Roy Batty no filme Blade Runner.

 

Espero que vocês leiam e, com sorte, gostem.

 

 

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