Ilustração Karina Freitas

 

Como nasce o afeto entre dois adolescentes do mesmo sexo? De que se alimenta? Da solidão em família? Do repúdio à rotina da vida estudantil? Das caminhadas aleatórias pela metrópole onde as pessoas correm de lá pra cá com objetivo definido?

 

Como cresce o afeto entre dois rapazes que vagueiam pelas ruas e se interessam pelas artes? Assistir juntos ao filme Desencanto, de David Lean, ou aStazione Termine, de Vittorio de Sica, seria experiência sentimental mais rica que a vivência do aqui e agora? Como é que os sonhos baixam provisória e definitivamente das telas de cinema, das páginas de literatura e dos palcos de teatro e — pela imaginação em delírio — estruturam duas vidas que amadurecem sem horizonte e sobrecarregadas de desejo?

 

Como o afeto se frustra ao meio do caminho e se torna amizade duradoura?

 

Estamos no ano de 1952. Os dois rapazes se encontram na Praça Sete, que resume toda a parte central de Belo Horizonte. Esperam o bonde Calafate. O acaso — ou será a selvagem e diabólica chispa do afeto? — transformará os dois desconhecidos em amigos íntimos. Aos trancos e barrancos, permanecerão unidos pela vida afora.

 

Passam-se 60 anos. É aí que começa a ação do romance, narrado em flashback.

 

Numa tarde de 2010, o corpo do amigo Zeca, então produtor cultural e compositor de renome, agoniza no Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro. O amigo sobrevivente, professor aposentado de história do Brasil e futuro narrador, o observa no seu último dia de vida e se dá conta de que perde a única pessoa no mundo que o conhece na palma da mão. O sobrevivente não perderá apenas o amigo. Perde sua própria vida, porque ninguém conhece tão bem seus mistérios quanto o moribundo. O scholar perde seu possível biógrafo, o artista.

 

Compete-lhe inverter os papéis. Transforma-se no biógrafo daquele que teria sido seu biógrafo insubstituível. Será biógrafo e autobiógrafo, ao mesmo tempo. A experiência de um ilumina a experiência do outro. Os amigos se reencontram definitivamente na prosa romanesca. É pela escrita aberta pela lembrança e a imaginação, que pouco a pouco se despojam da razão acadêmica, é por essa escrita de mão dupla que caminha o leitor a fim de conhecer melhor os dois rapazes no momento da formação e nas décadas seguintes, quando assumirão a contrastante e difícil vida profissional.

 

O amigo Zeca viria a ser um esfuziante e ferino jornalista cultural, crítico e letrista de música popular. O sobrevivente, que assume o volante da escrita romanesca, um respeitado scholar e professor universitário. Nada mais conflitante que a experiência do artista drogado e desbundado que se reflete na experiência metódica e ascética do estudioso; nada, no entanto, os aproxima mais no correr da vida que as maldades e as pirraças de um contra o outro.

 

Uma frase extraída do romanceAs brasas, de Sándor Márai, ajudou-me a compreender a tragédia existencial por que passa o sobrevivente. Cito-a em epígrafe do romance: “Sobreviver a uma pessoa que amamos tanto, a ponto de nos dispormos a matar por ela, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida. O código penal não o menciona”.

 

Ao matar a pessoa que amamos antes de nos matar, a Vida é uma assassina Impiedosa e cruel. Será que age de modo sorrateiro e inconsciente? Ela não nos rouba apenas o ente querido. Não é apenas a solidão o sentimento dominante na vida de quem sobrevive. Mil rosas roubadas é um romance sobre o assassinato da pessoa amada. O sobrevivente ferido está presente na cena do crime, não é culpado e nada pode fazer. Tem as mãos atadas pela Vida. Nem mesmo pode recorrer ao código penal para criminalizar a assassina. O crime não foi previsto pela lei dos deuses e dos homens.

 

No entanto, o sentimento de culpa paira no ar do quarto do hospital e a escrita é o detetive à solta — ou será o anjo que subitamente baixa da luz neon? — que remexe e fuxica o passado comum na busca de provar a inocência que nunca chegará a pronunciar seu nome porque a própria inocência é em última instância culpada pela Vida que ainda lhe toca viver.

 

Mil rosas roubadas— meu novo romance — são fragmentos de um discurso amoroso (para retomar o título de Roland Barthes e a trama deOs sofrimentos do jovem Werther, de Goethe — minhas fortes fontes de inspiração literária). São fragmentos de um discurso amoroso a ser percorrido capítulo após capítulo com a ajuda das perguntas que faço neste momento em que me pedem algumas dicas sobre os bastidores da escrita. Claro queMil rosas roubadaslembra outros títulos meus, como, por exemplo, o romanceStella Manhattane os contos deKeith Jarrett no Blue Note. Pode lembrar, mas não se define pelo método narrativo de que me vali para escrever os dois. O novo romance assume de maneira definitiva o tom confessional, que sempre evitei.

 

É um romanceà clef, para retomar a denominação francesa.

 

Por ele ser isso e por ser eu mineiro, tenho de acrescentar que o novo romance não navega sozinho pela literatura brasileira. Tem como companhia uma notável tradição mineira de romance à clefe de poesia memorialista. Cito três nomes: Ciro dos Anjos, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.

 

Por que efeito de coincidência é que, no romanceO amanuense Belmiro(1937), um dos personagens se chama Silviano e serve para dar nome ao professor Arthur Versiani Veloso, mestre de filosofia dos dois rapazes no Colégio Marconi? Será que o bom amigo Fernando Sabino soube que os dois jovens belo-horizontinos, ao travarem conhecimento quase factual com os quatro cavaleiros do Apocalipse em O encontro marcado, enriqueciam suas noites belo-horizontinas? Aliás, o professor aposentado, como o velho Carlos Drummond da sérieBoitempo, só ao final da vida dedica a declamar as estripulias do menino antigo.

 

 

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