Ilustração por Janio Santos

Uma das perguntas que um escritor mais ouve é se o seu livro é autobiográfico. De fato, ele viveu o que narrou? E se não foi o caso, de onde veio a inspiração? das Musas? do nada? Em geral, qualquer que seja a resposta, a reação é de desconfiança, como se o autor se recusasse a dizer toda a verdade, escondendo algum aspecto importante do seu trabalho. E esconde mesmo, na maioria das vezes não por malícia ou má vontade, mas apenas por se tratar de um processo que ele próprio não controla completamente.

 

Afinal, de onde vêm as histórias? É possível criar algo totalmente novo? Como ocorre esse processo misterioso que transforma os fatos e as impressões da vida cotidiana em literatura? Essas são algumas das perguntas que me interessavam ao começar a escrever o meu novo romance O inventário das coisas ausentes. Nele não há respostas, claro, mas há um jogo de enredos, de narrativas que recriam alguns aspectos do processo.

 

Ao começar a escrever, imaginei como seria se pudéssemos ter acesso aos pensamentos do autor. Saber como se deram suas dúvidas, suas escolhas. Descartei a ideia de um monólogo ou fluxo de consciência, queria algo concreto, que servisse como “prova”, improvável documento. E que essa investigação, ou melhor, esse inventário se desse da forma mais racional possível, tudo em termos ficcionais, é claro.

 

Pensei então na minha própria rotina.

 

Para cada romance que escrevi mantive um caderno de anotações: ideias que me pareciam interessantes, diálogos, notícias de jornal, perfis, história dos personagens etc. Hoje, quando revejo esses cadernos, percebo que é possível fazer ali uma arqueologia das ideias, ali está o primeiro esboço de Javier em Toda terça, ou naquelas outras páginas os primeiros problemas que me levaram ao conflito principal de Flores azuis, ou as pesquisas sobre Schönberg que fiz para Paisagem com dromedário. Ao mesmo tempo, e talvez por isso mesmo, percebo o quanto essa arqueologia é ilusória, tanta coisa que me parecia essencial e depois não aproveitei, ou ao contrário, ideias essenciais que não aparecem nos cadernos, sem falar nas várias outras que se transformaram tanto e tantas vezes, até não haver mais como reconhecê-las. Uma arqueologia impossível.

 

Em O inventário das coisas ausentes trabalho precisamente com esse paradoxo: as anotações registram memória e esquecimento. Trata-se de um livro sobre a origem, a origem dos protagonistas (sua genealogia), assim como a origem da própria ficção. Há uma história (um pai e um filho se reencontram depois de vinte e três anos, uma relação cheia de decepções e rancores mútuos) e há também as anotações que direta ou indiretamente o autor/narrador fez para chegar a esse enredo. As histórias que o inspiraram, seus medos e obsessões, e principalmente Nina, um amor de juventude, cuja lembrança ele tenta resgatar.

 

O resultado desse projeto é um romance dividido em duas partes, na primeira o caderno de anotações do autor e na segunda a própria ficção. Divisão bem organizada, pode parecer, porém a ordem não passa de ilusão, já que ambas as partes são inventadas, se espelham, contradizem e entrelaçam, tornando-se parte da mesma história.

 

E já que tudo é ficção, talvez alguém pergunte, e para este livro, você também fez um caderno de anotações? A resposta é sim. Claro. Está aqui, no meu escritório, junto aos outros, na segunda prateleira da estante. Um caderno azul de capa dura e folhas coloridas. Nele, minhas próprias fontes, mentiras e verdades. Como num jogo de espelhos, uma espécie de origem da origem: um inventário das coisas ausentes.

 

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