Ilustração Karina Freitas

Comecei a escrever Dias perfeitos em 2010, quando Suicidas, meu romance de estreia, ainda esperava nas pilhas de análise de originais das principais editoras. Em 2013, quando o finalizei, o quadro era outro: Suicidas havia sido publicado pela Editora Saraiva com boa distribuição, tinha sido finalista dos prêmios Machado de Assis e São Paulo de Literatura, vendido milhares de cópias. Eu tinha e-mails de leitores na minha caixa de entrada, dezenas de inboxs no facebook. Pressão pra valer.

 

É fartamente conhecida a tal "síndrome do segundo romance", que perturba escritores que ganham destaque em seu livro de estreia e se preparam para lançar um segundo trabalho no mercado. Há uma natural cobrança do público de que o novo trabalho supere o anterior — ou ao menos mantenha o nível — e, principalmente, há a certeza de que você não é mais um "autor iniciante", você está entre as feras já consagradas e precisa se manter de pé.

 

No meu caso, a experiência criativa foi menos traumática. Quando comecei a pensar num segundo livro, ainda não era autor publicado e tinha claro para mim o desejo de fazer uma obra diferente da primeira, que explorasse novos caminhos e possibilidades do gênero. Desde o início, tenho o projeto de escrever romances que flertam com subgêneros clássicos do policial em uma roupagem moderna. Acredito que o romance policial clássico não funciona mais e é preciso que o gênero acompanhe essa mescla de estilos e influências para moldar uma literatura policial mais contemporânea, vibrante e universal.

 

Suicidas é um thriller com ritmo acelerado que se torna um romance-enigma na metade final, bem ao estilo Agatha Christie. O livro tem mais de 20 personagens, é narrado de três formas distintas e simultâneas, repleto de flashbacks e ganchos entre os capítulos. No segundo romance, queria fazer algo simples, linear, com poucos personagens; uma história cuja força narrativa estivesse mais na densidade psicológica dos personagens do que nas possibilidades da trama.

 

A ideia para Dias perfeitos veio de um pedido de minha mãe. Após ter lido Suicidas, chocada com as cenas fortes do livro, ela sugeriu que eu escrevesse uma história de amor. Segundo disse, "ninguém publicaria um troço violento daqueles". Provocado pela sugestão, comecei uma história de amor do meu jeito: um estudante de medicina que, obcecado por uma mulher, decide forçá-la a gostar dele. A premissa me interessou por abordar temas muito humanos; assuntos que, de um modo ou de outro, todos já vivemos — o amor e a rejeição são universais. Quem nunca acreditou que bastava uma chance para conquistar de vez aquele que nos rejeita? É essa chance que Téo, o protagonista, busca ao sequestrar Clarice. Quer que ela o conheça melhor e perceba como ele pode ser bom para ela.

 

Escrever sob a ótica de um psicopata foi especialmente desafiador. Téo tem uma lógica impecável e justifica suas atitudes com muita racionalidade e calma. Tive a consultoria de um psiquiatra e de outros três médicos que me ajudaram a definir a voz do personagem. Fiz também muitas leituras sobre psicopatia.

 

Lá pela metade do livro — e, nesta época, Suicidas já começava a dar certo —, tive uma crise criativa, pois a história tomou um rumo que eu não havia previsto. Não estou dizendo que a crise teve qualquer coisa a ver com a tal "síndrome do segundo romance", mas fato é que Dias perfeitos ficou seis meses parado, esperando que eu resolvesse qual caminho seguir. Não acredito muito em inspiração. Para mim, escrever é programar, calcular, organizar. Por isso, quando uma personagem dominou o livro e levou a história para outro sentido, fiquei sem reação. O que fazer? Calar a força da personagem só porque não estava programado? Ou respeitar e deixar a história seguir um caminho diferente do que eu havia pensado de início?

 

Acabei optando por um caminho intermediário. Deixei que a personagem tivesse seus momentos por alguns capítulos, mas logo trouxe a história de volta aos trilhos. Depois disso, foi fácil chegar ao ponto final. Autores que eu admiro, como Scott Turow, Luis Alfredo Garcia-Roza e Carola Saavedra, leram o livro e gentilmente fizeram elogios ao meu trabalho. De minha parte, foi deliciosamente doloroso escrever este livro (todo escritor é um pouco masoquista, não?). Semana passada, iniciei os rabiscos do novo romance, ainda lento, cheio de hesitações e dúvidas. Já googlei aqui e estou mais calmo: parece que a síndrome do terceiro romance não existe.

 

*Leia trecho do livro Dias perfeitos na nossa seção de Inéditos

 

 

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