Ilustração por Karina Freitas

 

 

7.

É que você só conhece uma cidade quando se perde nela.

 

1.

Projeto. Autobiografia em excesso me tira o tesão de ler e escrever. Se for assim, parte da experiência da escrita descamba na egolatria. Há quem sinta barato em fazer da ficção apenas um reflexo de sua vida. Eu não.

 

6.

Uma mulher de pele muito negra, de uma beleza profunda e cegante, pergunta algo a um garçom e desaparece na noite. Ímãs de geladeira, miniberimbaus, mesas da Skol, som de tambores. Seguimos descendo. Tambores. Um bloco que ensaiava sobe em nossa direção. Decidimos voltar.

 

2.

Prancheta. No desenho do Estrangeiro no labirinto, que chamo de romance por preguiça, me era importante que os personagens tivessem pouco de minha visão de mundo, que me fizessem exercitar a alteridade. Há um juiz pedófilo e homofóbico obcecado por um livro misterioso, uma prostituta viciada em crack presa em um quarto e ouvindo vozes ditar a história de um matador de aluguel que volta à casa dos pais, assassinados anos antes, decidido a abandonar a vida do crime.

 

5.

Pensei estar no Largo do Pelourinho. “Não é, não lembra do clipe de Michael Jackson?”, diz Manu. Lembro de um Michael muito branco com cara de mau saltitando, meninos com tambores coreográficos, mas a paisagem é um borrão. “O largo é lá pra baixo, por aquela ruazinha”, diz um bêbado. Lembro do recepcionista. Descemos.

 

3.

Esquadro e compasso. Construir as vozes das personagens exige dar-lhes uma carne de linguagem. A voz do juiz é fragmentária, dúbia e contraditória. Cheia de imprecisões que se revelam falseamentos. A prostituta não escreve no português padrão. A dificuldade foi evitar a pantomima, o humor. Não era isso: é uma narrativa dolorosa e grave. Como representar uma poética de alguém com uma vivência profunda, mas com educação formal precária? Trata-se de uma recriação, não de uma imitação de uma voz marginalizada.

 

4.

Outra praça, ampla, chafariz desativado no centro. Quatro figuras seminuas enclausuradas em ferro sobre uma base demármore com latas de coca e bitucas de cigarro no lugar de água observam o movimento. Acima, uma deusa Ceres enferrujada ignora o efeito da cevada, do lúpulo e do milho fermentados nos turistas coloridos. Numa viela, um grupo compartilha um cachimbo de crack debaixo de um poste apagado. O abismo é o desejo de pular.

 

4.

Argamassa. Universos paralelos, tarô, cabala. Jung deu um toque com a jornada do herói e arquétipos. Brian Greene (O universo elegante) me fez ver poesia na física quântica. Klester Cavalcanti (O nome da morte) me aproximou da realidade dos matadores de aluguel, que entortei. Papus, Aleister Crowley e EliphasLévi, me ajudaram com luz e sombras.

 

3.

As pedras das ruas: cascos de tartaruga. Tropeçamos por praças inundadas de gente. Uma viatura parada sem motorista com giroflex azul ligada. Policiamento turístico, impresso na lateral. Casais abraçados nas sombras, salpicados pela luz intermitente, carne de mulheres com roupas curtas em bancos solitários. Os cascos de tartaruga se prolongam por ruelas e serpenteiam escuridão. Tentação de descer. Resistimos.

 

5.

Tijolos. Eco (O pêndulo de Foucault) e Calvino (O castelo dos destinos cruzados) me mostraram que caminho não queria trilhar ao usar a cabala e o tarô na estrutura do livro. Carolina Maria de Jesus (Quarto de despejo) e Sapphire (Push) me ensinaram a poética possível para a personagem da prostituta. Nabokov (Lolita) me fez evitar criar um pedófilo plano com os clichês de Jornal Nacional.

 

2.

“Siga pelas ruas principais, é cidade grande”, fala o recepcionista. Quis dizer evite as vias vicinais, ruelas, desvios, há perigo por ali. Aceito o conselho e desço até a rua.

 

6.

Pedreiro. A voz do matador é a mais complexa, porque é feita de silêncio. É oculta por todo o romance e o leitor só a percebe nas entrelinhas do discurso indireto livre através do filtro da voz da prostituta e de outros narradores esporádicos. No único momento em que aparece, é de uma limpidez surpreendente, talvez porque siga num sentido oposto às duas outras vozes principais. Fosse ele o narrador único, o romance seria linear e claro. Mas estaríamos num corredor, não no labirinto.

 

1.

O táxi dá mais voltas que o normal. Estou sendo enganado, mas me resigno à minha condição de estrangeiro.

 

7.

Vontade. Depois de sete anos de trabalho, o resultado ainda me parece incompleto. Mas não é sempre assim? O livro, no final, é uma alegoria de uma alegoria: somos o labirinto, nós mesmos incompletos, tentando fugir da dor, mas esbarrando nela a cada esquina de Cnossos.

 

 

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