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Fazia tempo que eu queria escrever sobre o tema: matadouro. Depois de escrever livros sobre bombeiros, cremadores, lixeiros, operadores de britadeira, retomei ao tema, abatedores, abordado no meu terceiro romance Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, mas de uma forma mais intensa. Decidi que era a hora de escrever sobre algo que me atingisse com mais força. Queria o confronto em nível mais pessoal. Esse era o momento para escrever não somente sobre a morte, mas sobre aqueles que se alimentam dela, ou seja, eu e você, que comemos carne.

 

O início disso tudo, se deu em idas ao açougue do supermercado. Enquanto eu permanecia na fila aguardando por alguns bifes, só conseguia pensar no boi. E principalmente, no sujeito que o havia matado.

 

Às vezes, na fila, eu desistia e ia embora. Outras vezes, eu levava os bifes e comia, sem pensar em nada disso.

 

Aos poucos, o assunto foi crescendo dentro de mim e decidi escrever. Foi então que surgiu um problema: eu não conseguia entrar no matadouro e encarar o boi; não era possível desafiá-lo.

 

Esperei.

 

Meses depois, recebi um convite do escritor Lêdo Ivo, para escrever um conto para a Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras. Eu podia escrever sobre qualquer tema. Tinha total liberdade. Em poucos dias escrevi o que, hoje, é o primeiro capítulo do livro, salvo a inserção de algumas páginas tempos depois.

 

Na época, pensei: “se vou publicar na revista da Academia pela primeira vez, que seja na companhia do meu parceiro, Edgar Wilson.”

 

E foi assim, que ele, o Edgar, entrou na estória e como bom parceiro de ficção que ele é, me pegou pela mão e consegui finalmente meter os dois pés no matadouro para confrontar a mim mesma, e para a minha surpresa, o próprio Edgar Wilson, confronta a si de um modo que eu ainda não conhecia.

 

Sua presença é vital neste livro. Fazia tempo, desde o meu terceiro romance, que não escrevia mais longamente sobre ele. Confesso que ainda estou impregnada deste romance, impregnada do cheiro dessa fazenda de abate e do olhar vagueante e cinzento do Edgar. Hoje, eu o conheço melhor.

 

O Edgar Wilson nasceu há quase dez anos. Na maioria dos meus livros, ao menos em algum momento, tem o olhar perpassado por ele. Enxergo através dele e ao mesmo tempo estabeleci uma legítima relação de confiança com esse sujeito.

 

Matadouro Touro do Milo é o nome do matadouro fictício do livro. Eu me mudei para aquele cenário e observava a vida daqueles homens, ainda que por uma hora, diariamente.

 

Helmuth, Bronco Gil, Burunga, Velho Emetério, Milo, Santiago, Vladimir, entre outros, foram envolvidos numa trama, em que o estranho comportamento do gado atinge os homens daquele lugar e os moradores da região.

 

Pela primeira vez, o elemento sobrenatural aparece em um dos meus livros. É algo que eu já queria ter usado faz tempo, mas nunca se adequava à estória. Sem contar que, usar um elemento sobrenatural nas minhas estórias é muito delicado, já que transito num universo naturalista na maior parte do tempo.

 

Esse era o desafio: Como fazer? Tentei não dar importância a esse elemento, não torná-lo a questão a ser resolvida no livro, mas me concentrar naquilo que mais gosto: os personagens.

 

Aos poucos, os dias e as noites transcorrem entre diálogos e a rotina da linha de abate. Assim, quase insuspeito, o sobrenatural encontra seu lugar, entra na estória, sem desestabilizar a naturalidade do texto ou da trama. Tudo se encaixou como eu queria, com sutileza, mistério, e algumas lacunas a serem preenchidas pelo leitor.

 

Foi arriscado, mas eu precisava assumir os riscos como escritora.

 

De gados e homens tem um pouco dos meus dois últimos livros, mas ainda assim, é uma narrativa que se adequou ao espaço-tempo daquele matadouro. Confesso que há muito de mim derramado nos parágrafos do livro, mas eu nunca confesso por completo, pois o que há de mais pessoal eu não digo onde está. Assim, tudo fica encoberto, ainda que parcialmente, e eu posso continuar espiando atrás de um arbusto a rotina dos meus personagens.

 

Durante todo o processo de pesquisa e escrita, deixei de comer carne. Era uma prática impossível naqueles dias. Cheguei a pensar que nunca mais o faria.

 

Meses depois de concluído o livro, voltei a comer carne. Ainda é estranho. Às vezes, desisto, em outros momentos, sigo em frente. Mas sempre penso no boi. E no sujeito que o abateu. De certo, faço parte de toda a matança cada vez que como um hambúrguer.

 

 

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