Ilustração por Janio Santos

Eu sempre tive um problema com meu cabelo. Não gosto do meu cabelo, acabei me resignando a ele, acabei por tolerá-lo, mas a verdade é que não gosto, não.

 

Em meu primeiro romance, Festa no covil, o protagonista é um menino que tem fobia a cabelo, que acha que o cabelo é um cadáver que as pessoas carregam por cima da cabeça. Em meu segundo romance, Se vivêssemos em um lugar normal, há um personagem que tem o cabelo como o meu: confuso. Ele se chama “agente Cabeleira”. Também escrevi vários contos com personagens de cabelos esquisitos e fiz uma entrevista ao Neymar só para escrever um artigo sobre seu cabelo, um texto que acabei titulando: “Que cabelo é esse, Neymar?”.

 

Faz dois anos que moro no Brasil e as pessoas começam a se acostumar a este fato. Ou seja, eles começam a me cobrar: você vai escrever um dia um romance situado no Brasil?

 

Há um mês fui cortar o cabelo com minha cabeleireira em Sousas, um distrito de Campinas, com ares de cidadezinha do interior. Quando cheguei, a cabeleireira me mostrou a mão esquerda dela desde longe: tinha fraturado um dedo. Entrei em pânico, tem poucas coisas que odeio mais na vida que procurar um novo cabeleireiro. Era uma quinta-feira e na sexta eu tinha o lançamento de Se vivêssemos em um lugar normal em São Paulo. Meu cabelo estava desastroso. Pensei: e agora? Eu não posso ir a meu lançamento com esse cabelo, de jeito nenhum! Minha cabeleireira queria me tranquilizar:

— Eu posso cortar seu cabelo, sim.

— Você está trabalhando assim?

— Tô, sim.

 

Olhei para ela, para os olhos dela, olhei para a mão e pensei: mas que classe de país é esse? Não tem um sistema de proteção social e laboral para minha cabeleireira ficar em casa fazendo fisioterapia? Além disso, como é que ia ficar meu cabelo? Quis fugir, não era razoável me arriscar, mas minha culpa de classe foi maior: não tive coração de abandonar minha cabeleireira e deixá-la sem meu dinheiro.

 

Dez minutos mais tarde, senti um ligeiro golpe na minha cabeça: era um pedaço de um dedo de minha cabeleireira.

 

— Me leva ao posto de saúde! — gritou minha cabeleireira.

 

Chegamos ao posto de saúde e me lembrei do romance de Rodrigo de Souza Leão, Todos os cachorros são azuis, que eu traduzi para o espanhol: “Havia tanta gente, que se eu dissesse que o Maracanã em dia de jogo do Flamengo estava ali não seria nenhum eufemismo”.

 

Mas não se esqueçam da verdadeira tragédia: eu estava ali, acompanhando minha cabeleireira, com a metade direita do cabelo cortado e a metade esquerda intacta.

 

Enquanto esperávamos, eu pensava em um romance brasileiro, em um possível romance brasileiro sobre uma cabeleireira que tem que trabalhar com um dedo fraturado e acaba cortando outro dedo fora. Logo no posto de saúde, como sempre acontece no Brasil, aconteceria algum absurdo ainda maior e o enredo iria se complicando a cada vez mais.

 

Mas por que sempre acabo pensando em romances políticos?

 

Eu estava verdadeiramente preocupado por minha cabeleireira, mas ficava de olho no relógio: cinco e meia eu vazo, pensei, preciso procurar outro cabeleireiro.

 

Imagina ir no meu lançamento em Sampa com esse cabelo. Vão pensar que sou um excêntrico. Que faço isso para chamar a atenção. Ou pior: que sou idiota.

 

Eu falei para vocês: tenho um problema com meu cabelo.

 

Meus romances sempre começam com uma questão mal resolvida, com um conflito, com um trauma. A origem é autobiográfica. Essa questão se insere em um contexto social e político e só então penso no enredo: na ficção.

 

Se eu tivesse que estabelecer uma fórmula diria que meus romances estão construídos com 10% de material autobiográfico, 10% de material histórico e 90% de ficção. Não soma 100%? Hmmmm....

 

Eu fico superempolgado só de pensar no que poderia fazer com esse pedaço de dedo de minha cabeleireira em um romance.

 

Mas por enquanto a abandonei na fila do posto de saúde.

 

Quem sabe um dia escreva um romance no qual meu penteado seja o resultado dos problemas estruturais e das injustiças do Brasil.

 

 

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