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O excerto abaixo pertence ao livro Uns e outros na literatura moçambicana, de Francisco Noa, lançado recentemente pela editora Kapulana. Os ensaios analisam vários aspectos da produção literária de Moçambique.

 

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Ao falarmos de trilhos e de margens em relação à literatura moçambicana, queremos vincar a sua condição de sistema semiótico (enquanto dimensão significativa e comunicativa) que, apesar de autônomo, mantém uma relação dinâmica e estruturante não só com outros sistemas semióticos, mas também com o contexto histórico e social em que as obras vão surgindo.

No permanente jogo de representações de que a arte africana, no seu todo, é pródiga, invariavelmente se tecem, diluem e refazem as fronteiras entre obra e contexto, numa reinvenção quase sempre vibrante, quer do vivido quer dos artifícios compositivos que desafiam tanto a estabilidade conceitual da arte como da própria estrutura do real.

À imagem de outras literaturas produzidas em espaços saídos da dominação colonial, em especial as de língua oficial portuguesa, a literatura moçambicana, enquanto fenômeno de escrita, apresenta as seguintes características dominantes:

• emerge durante o período da vigência do sistema colonial;
• é uma literatura relativamente recente: cerca de 100 anos de existência;
• traduz os paradoxos e complexidades gerados pela colonização, como sejam, literatura escrita e difundida na língua do colonizador, dualismo cultural ou identidade problemática dos autores, oscilação entre absorção e negação dos valores e códigos da estética ocidental etc.;
• em praticamente todo o percurso dessa literatura, a maior parte dos textos é difundida sobretudo na imprensa, fato que irá prevalecer sensivelmente até meados da década de 1980;
• é um fenômeno essencialmente urbano.

 

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Se é verdade que desde o século XVIII circulavam na então colônia de Moçambique textos alicerçados não só em padrões estéticos predominantemente europeus, mas também escritos por autores de origem portuguesa, será no início do século XX que, efetivamente, surgirão as primeiras elites letradas de origem africana, responsáveis por textos que se instituirão como os verdadeiros precursores da literatura moçambicana.

No século XIX, movimentam-se, em especial na Ilha de Moçambique (cidade insular no norte do país), então capital da colônia, círculos culturais e literários, cujo imaginário e interesses estavam profundamente enraizados e identificados com a mundividência portuguesa. Um poeta como José Pedro Campos Oliveira traduz já na sua escrita alguma preocupação temática com Moçambique, embora pouco significativa e pouco consequente, tendo em vista o conjunto daquilo que virá a ser a literatura moçambicana.

É nesse já distante século XIX que se instala a imprensa em Moçambique. A sua relevância decorre não só dela ter sido o grande respaldo da divulgação literária, mas também por se ter instituído, como explica Ilídio Rocha (2000, p. 16), no retrato de toda uma sociedade, seus interesses e seu comportamento, bem como pelo fato de ter funcionado como o grupo de pressão mais importante antes da independência.

As elites que, entretanto, surgem no princípio do século XX, constituídas por assimilados, tendo como epicentro Lourenço Marques (atual Maputo), elevada à capital da colônia em 1897, desenvolveram uma marcante intervenção associativista e jornalística através da qual se insurgiam contra as arbitrariedades e as injustiças geradas pela colonização, ao mesmo tempo em que defendiam direitos de cidadania para a maioria negra marginalizada, vilipendiada e analfabeta. Apesar desse engajamento, mais cívico que político, não existia propriamente uma consciência nacionalista, nem o sistema colonial era posto em causa, na sua essência, por essa mesma camada, incontornável pioneira da intelectualidade moçambicana, literária e não só.

A esse propósito, enquanto Mário Pinto de Andrade (1998, p. 77) considera que estamos perante um “protonacionalismo” cujo discurso tem um caráter fragmentário, descontínuo e ambivalente, Aurélio Rocha (1996, p. 43), por seu lado, refere-se à inconsistência da sua produção ideológica, apesar de reconhecer a originalidade do seu discurso.

À imagem das outras elites africanas no espaço colonial de língua portuguesa, os intelectuais moçambicanos, especialmente os negros e os mestiços, provêm, na sua maioria, do universo suburbano. É neste sentido que Salvato Trigo considera que

as literaturas africanas de língua portuguesa modernas, isto é, aquelas que se exprimem na língua da colonização, têm a sua emergência indubitavelmente ligada ao urbanismo, enquanto fenómeno semiótico que tem a ver com a organização social do espaço e que introduz, por isso mesmo, uma nova filosofia de vida tão diferente da do ruralismo característico da África pré-colonial. (sem data, p. 53)

Uma das figuras de maior relevo entre esses assimilados foi o jornalista João Albasini, que, com o seu irmão, José Albasini, fundou o jornal O Africano (1908) e, mais tarde, O Brado Africano (1918). Esse grupo de aculturados defendia, entretanto, um nativismo quase militante, expresso no uso recorrente, nos seus escritos, da língua nativa do sul de Moçambique, o ronga, e na defesa eloquente da instrução dos seus “irmãos” negros, tal como podemos verificar neste excerto de um editorial do jornal O Africano, em março de 1909:

Seremos tolerantes no que puder ser, mas muito duros na apreciação das várias patifarias, de que os pobres filhos do Ultramar são victimas (sic) e sobretudo, pugnaremos pela instrução.

Mestiço, filho de pai português e mãe negra, do grupo étnico ronga, João Albasini é o autor da primeira obra de ficção moçambicana, O livro da dor (edição póstuma, 1925), livro de características autobiográficas e atravessado por um marcado tom ultrarromântico.

Quase que na mesma linha estética, surgirá o poeta Rui de Noronha (1909-1943), que, inspirado intensamente pela poesia portuguesa do século XIX, terá publicado, também em edição póstuma, Sonetos (1946). Numa recente edição crítica da poesia de Rui de Noronha, intitulada Meus versos (2006) e com a chancela da Texto Editores, sob a responsabilidade rigorosa e exaustiva de Fátima Mendonça, vemos iluminados e esclarecidos aspectos importantes da trajetória poética desse autor. Todas essas figuras, além de oscilarem do ponto de vista identitário, flutuam entre duas margens: por um lado, uma intervenção cívica e política, através da imprensa, com artigos de opinião, editoriais e crônicas, muitas vezes de uma acutilância e de virulência devastadoras.

Por outro lado, a sua flutuação, numa pantomima involuntária e dramática de contradições, espraiava-se na forma como acabavam por legitimar aquilo que aparentemente denunciavam e combatiam. Isto é, tanto pugnavam pelos interesses dos africanos com quem se identificavam como eram capazes de calorosamente reivindicar a sua condição ou a sua aspiração à cidadania portuguesa.

Além do mais, e por razões compreensíveis, a sua filiação estética estava claramente ancorada nos códigos europeus. É importante também recordar o papel desempenhado tanto pela igreja católica como pela protestante no processo formativo dessas elites.

Será, porém, na década de 1940, que surgirá aquela que é a primeira geração responsável por uma literatura que, vincada, sistemática e conscientemente, se procura afirmar como moçambicana. Aglutinados à volta de um periódico, Itinerário (1941-1955), que se publicava na então Lourenço Marques, ou com intervenções pontuais nele, são jovens que, de forma inconformada e inovadora, mas adulta, dão início a uma produção literária não só de reconhecida qualidade estética, temática e ideológica, como também seguindo tendências diversificadas. É um movimento de emergência não só da consciência literária, mas também nacionalista, e que se verificava tanto em Angola, com a geração da Mensagem (Alexandre Dáskalos, Agostinho Neto, Manuel Lima, António Jacinto), como em Cabo Verde, com a geração da Claridade (Baltazar Lopes, Jorge Barbosa, Manuel Lopes).

Sem deixar de abraçar modelos provindos tanto da Europa como da América Latina, casos do movimento modernista português e brasileiro ou da literatura nordestina brasileira, esses jovens poetas (negros, mestiços e brancos) distanciam-se da visão e do ideário dominante na literatura então em voga, a literatura colonial, que relatava e consagrava a saga do colono na África.

 

Referências:

ANDRADE, Mário Pinto. Origens do nacionalismo africano. Lisboa: D. Quixote, 1998.

MATUSSE, Gilberto. A imagem da moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa. Maputo: Livraria Universitária, 1998.

MENDONÇA, Fátima. Literatura moçambicana: a história e as escritas. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane (UEM), 1988.

ROCHA, Aurélio. “Associativismo e nativismo: Os fundamentos do discurso ideológico”. In: RIBEIRO, Fátima; -SOPA, António (Coord.). 140 anos de Imprensa em Moçambique. Maputo: Associação Moçambicana de Língua Portuguesa (AMOLP), 1996. p. 29-47.

ROCHA, Ilídio. A imprensa de Moçambique. História e catálogo - 1854–1975. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 2000.

SOUSA, Noémia de. Sangue negro. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), 2001.

TRIGO, Salvato. “Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa – um fenómeno de urbanismo”. In: Ensaios de literatura comparada afro-luso-brasileira. Lisboa: Vega. p. 53-75. [s.d.]

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