Noroes Filipe Aca

 

De vez em quando, em nossas leituras, descobrimos o que pode parecer um “paradoxo”: uma desarmonia entre a postura do autor e sua escrita. Foi esse o mote da conversa com um amigo quando veio à baila o nome de Vargas Llosa. Porque, mesmo tendo um discurso conservador, ele abre, a corte de bisturi, as entranhas de nosso mundo, desvelando com amplitude e sutileza as engrenagens que conformam nossa América Latina. A conversa acabou por motivar a leitura de Tiempos recios (Alfaguara, 2019), o último romance do escritor peruano.

O livro é a narrativa em torno de uma história conhecida e repetida: a derrubada de um governo democrático por um golpe militar. O cenário é uma Guatemala dos anos 1950, no qual passeiam personagens abjetos, em meio a vertiginosa violência. A figura central é um militar singular: Jacobo Arbenz, presidente de um país onde uma elite branca há séculos explora e despreza sua população de indígenas miseráveis. Eleito presidente, Arbenz empenha-se em transformar o descompasso social, apostando numa reforma agrária capitalista, susceptível de integrar ao mercado cem mil famílias de camponeses pobres.

Esbarra em gigantesca pedra no meio do caminho: a empresa estadunidense United Fruit, à época já incomodada com a política do presidente anterior, Juan José Arévalo, que tentou um plano de educação e um código de trabalho. Após a ascensão de Arbenz, a multinacional quer ir mais longe: barrar, de uma vez por todas, qualquer ameaça a seus tentáculos na América Central. Articula-se com a CIA e, sob pretexto de combater o comunismo, o país é invadido por militares e bombardeado por pilotos norte-americanos, contando com o apoio logístico de Rafael Trujillo, o mais sangrento e corrupto ditador da República Dominicana.

Três anos após sua eleição, em 1954, Arbenz é deposto.

Com esse pano de fundo, o prólogo de Tempos recios é uma peça instigante. Nele, Vargas Llosa descreve a conversa de dois personagens, que teria inspirado a pioneira e das mais eficazes campanhas de fake news do continente. É um diálogo ficcional entre o escritor e publicitário Edward L. Bernays e o empresário Sam Zemurray. Instante em que os dois se conhecem e Bernays coloca sua mente brilhante e sem escrúpulos à disposição da multinacional. Embora ninguém mais lembre deles, figuram entre os indivíduos mais influentes da América Central, no século XX. Na época, Bernays chegou a ser considerado um dos cem homens mais influentes dos Estados Unidos. Eles podem ser considerados os principais responsáveis pela derrubada de Arbenz.

Edward L. Bernays é filho de imigrantes ricos e duplo sobrinho de Freud. Autor de um livro intitulado Propaganda, no qual afirma que uma consciente manipulação da opinião das massas pode culminar num governo invisível, capaz de se tornar detentor do verdadeiro poder. A serviço da United Fruit, tanto participa de conspirações políticas como promove campanhas publicitárias notáveis. Numa das mais conhecidas, veste de bananas e torna famosa a cantora luso-brasileira Carmen Miranda. O outro, Sam Zemurray, apelidado “Sam the Banana Man” (Sam, o Homem Banana), é de uma família de imigrantes da Bessarábia, dono da United Fruit, a mais poderosa empresa de comércio do fruto tropical. A partir desse “encontro” desenrola-se o fio da meada do novo romance de Vargas Llosa, Tempos difíceis em tradução.

As técnicas de propaganda e subversão deflagradas na Guatemala logo se expandem América Latina afora. Menos de uma década depois desembarcam no Brasil, onde o uso da fraude eleitoral e dos meios de comunicação lastreiam a intervenção militar que finda por derrubar o presidente João Goulart. Com vestimentas diferentes, repetem-se as práticas de manipulação estudadas por Serguei Tchakhotine, no clássico Violação das massas pela propaganda política, traduzido por Miguel Arraes numa prisão do Recife.

Tiempos recios confirma e repete a trilha das obras mais recentes de Vargas Llosa, a exemplo de O sonho do celta e de A festa do bode. Mescla ficção e episódios de nossa história. São narrativas de interessante leitura, mas não alcançam a dimensão de A guerra do fim do mundo, romance no qual o escritor peruano revisita tema tratado em obras clássicas, como Os sertões, de Euclides da Cunha, ou Veredicto em Canudos, de Sándor Márai. Vargas Llosa, em A guerra do fim do mundo, leva às últimas consequências desafio que nenhum escritor brasileiro ousou arriscar: explorar a saga de Antônio Conselheiro, recompondo o Sertão euclidiano em sua intricada geometria.

Deve isso, em boa parte, ao seu apego às lições de um “realismo” assimilado de Gustave Flaubert. Se em todas as artes há um mestre, o escritor francês é o que Vargas Llosa elegeu como o seu. É a ele que dedica um ensaio sobre a metodologia do romance: A orgia perpétua. Título pinçado da rica herança epistolar do autor de Madame Bovary. No caso, da correspondência de dezenove anos mantida com Mlle. Leroyer de Chantepie. Numa dessas cartas, Flaubert escreve que o único meio de suportar a existência é embriagar-se de literatura, como numa orgia perpétua.

No ensaio, Vargas Llosa confessa sua crescente admiração pelo pai do romance moderno. Sob a forma de entrevista a si mesmo, responde a questões que tentam elucidar o surgimento da ideia do Madame Bovary e desvenda os mecanismos empregados no fabrico dessa obra-prima da literatura mundial.

Contudo, ao contrário de um Flaubert criador de obra de pura imaginação, na qual até mesmo o cenário – a cidade de Yonville-l’Abbaye –, é fictício, Vargas Llosa recorre, nos seus últimos livros, a uma mescla de ficção e episódios históricos. Essa trilha o aproxima de uma literatura que faz o sucesso de livrarias, embora o distancie daquela que injetou sangue nas veias de Emma Bovary, a personagem-chave do escritor francês. Parece outro paradoxo: contraria a opinião do próprio Gustave Flaubert – citado pelo escritor peruano em A orgia perpétua –, de que belos temas geralmente costumam descambar em obras medíocres.

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