Everardo abr18

 

 

Subindo uma pequena rua ladeirenta de Argel, a caminho do trabalho, cruzava de vez em quando com um quarentão de ar jovial, baixinho, bigode, cabelo cortado curto, quase um “nordestino”. Tinha o ar de alguém conhecido. Consultei um amigo argelino e descobri de quem se tratava. Era Yacef Saâdi, um dos principais protagonistas da chamada Batalha de Argel.

Após a independência, Yacef Saâdi descreve, no livro A batalha de Argel, uma das fases mais sangrentas de seu país. O texto serviu de base ao roteiro do filme homônimo, dirigido por Gillo Pontecorvo. No filme, Yacef Saâdi é o personagem chamado El-Hadj Jafar. Uma das cenas mais dramáticas é o momento em que Ali la Pointe, seu lugar-tenente, cercado por militares franceses da 10ª divisão de paraquedistas, recusa render-se. Ali la Pointe é o apelido de Ali Ammar, marginal e proxeneta, preso comum que foi convencido a lutar pela independência do país. Seu esconderijo é bombardeado a tiros de canhão. É abatido junto com ele um menino de 13 anos, o pequeno Omar, sobrinho de Yacef Saâdi. E passam à História como heróis.

Na batalha, a organização piramidal dos argelinos permite a fluidez das informações, numa estrutura quase impermeável a investigações policiais. Se alguém é preso, deve suportar um limite de horas de interrogatório, tempo necessário para que os militantes descobertos possam desaparecer e serem substituídos. Por isso, sacar informação a qualquer custo para romper tal esquema é a obsessão dos militares franceses que os leva à banalização da tortura. Arrancada a choque elétrico, pau-de-arara e outros expedientes, a confissão precisa ser rápida. Câmaras de tortura são montadas em caminhões para que os suspeitos possam ser interrogados imediatamente após serem detidos.

A Casbah é cercada por 8 mil paraquedistas. Suas passagens e becos são controlados por patrulhas. A antiga cidadela, com suas ruelas labirínticas e históricas, assentada no século X sobre as ruínas da Icosium, a cidade romana, vira praça de guerra.

Vista de longe, a Casbah parece um amontoado de cubos brancos. Detrás de velhas paredes às vezes há um palácio. Ou uma mesquita. Em alguns terraços, tem-se vista sobre o azul-cobalto do Mediterrâneo. Não mudou muita coisa desde o século XVI, quando ali era o principal centro de corsários do Mediterrâneo ocidental. À época, seus muros viram transitar personagens importantes. Entre elas, um certo Miguel de Cervantes. O autor do Dom Quixote viveu ali durante cinco anos e ousou quatro tentativas de fuga. Na sua obra-prima, escreve que, entre mouros e cativos como ele, falava-se uma língua que nem era mourisca, nem castelhana, nem de outra nação qualquer, mas uma mistura na qual todos se entendiam. Os capítulos XL e XLI tem histórias sobre essa passagem do escritor espanhol pelo Magrebe.

A guerra é coisa que nunca termina. Quando findou a da Argélia, muitos dos oficiais franceses especialistas em “guerra revolucionária” foram exportados para outros lugares onde mais precisavam deles. Como os Estados Unidos, atolado na Guerra do Vietnã. Ou, depois, para a América do Sul, em países como Brasil, Chile ou Argentina. Técnicas de interrogatório testadas na Indochina e na Argélia tornaram-se matéria de cursos ministrados em academias como as de Fort Bragg, na Carolina do Norte, ou de Fort Benning, na Geórgia. O livro do Coronel Roger Trinquier, La guerre moderne, um dos “teóricos”, tornou-se obra de consulta obrigatória e fez escola.

Vários desses oficiais foram professores de militares e policiais brasileiros. Um dos mais conhecidos, o general Paul Aussaresses, foi um cruel torcionário durante a guerra argelina. Esteve no Brasil como adido militar e participou diretamente na montagem da Operação Condor, organização criada pela CIA e por vários regimes militares do Cone Sul. Ajudou a coordenar a repressão e a eliminar opositores políticos. O general francês navegava com desembaraço nos altos círculos dos serviços secretos. Era próximo do delegado Sérgio Fleury e também de Manuel Contreras, o dirigente da DINA, o órgão da repressão chilena durante a ditadura Pinochet.

A atuação do general francês no Brasil durante a fase mais agressiva do regime militar está registrada em documentos e livros. Em Escadrons de la mort, l’école française (Esquadrões da morte, a escola francesa), Marie-Monique Robin, desentranha, inclusive, a proximidade de Paul Aussaresses com o general João Figueiredo, que então dirigia o SNI, antes de ser presidente.

Há quem diga que a marca da presença militar francesa na política repressiva do Brasil é mais profunda do que a da CIA. Os casos de Vladimir Herzog e de Rubens Paiva muito se parecem com os ocorridos com militantes argelinos, a exemplo de Larbi Ben Mehdi, o dirigente do FLN que, na versão “oficial”, teria se suicidado na prisão. Antes de sua morte, o próprio Paul Aussaresses confessou ter ordenado a execução do dirigente argelino, dando uma reviravolta na tese do “suicídio”. Suas revelações, contidas no livro Services spéciaux : Algérie 1955-1957, no qual justifica o uso da tortura, tanto horrorizaram a opinião pública francesa, que o então presidente, Jacques Chirac, ordenou que fosse retirada do velho general a Legião de Honra, a mais alta comenda da França.

As notícias recentes sobre o Rio de Janeiro trouxeram-me à lembrança o dia em que cruzei com Yacef Saâdi naquela ruazinha de Argel. Perturbou-me pensar que a intervenção militar, fazendo vez de polícia nas nossas Casbahs, venha a “legalizar” as teorias e os métodos pouco ortodoxos que os oficiais franceses espalharam mundo afora. Depois disso, virá o estudo dos traumas.

Frantz Fanon, psiquiatra e escritor, mergulhou na alma dos sobreviventes da batalha de Argel. Seu livro, Os condenados da terra, é leitura a ser retomada num momento em que mitos de boa convivência e tolerância criados pela nossa velha sociologia, tal o do “brasileiro cordial”, foram desmascarados.

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