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Domingo. 14 de maio.

O que avistamos na tela da televisão não é um ator de filme de ficção.

O personagem de paletó, gravata, que caminha sozinho em direção ao Louvre – o antigo palácio de reis que foi transformado em museu –, é o novo presidente da França.
Seu passeio solitário, durante o cerimonial de investidura, embora lembre o do ex-presidente François Mitterrand, chama a atenção por alguns detalhes que fazem a diferença entre eles.

Mitterrand dirigiu-se ao Panteão, monumento onde estão depositados os restos mortais de alguns homens raros da França. Ao som de um trecho da Nona Sinfonia de Beethoven, levava rosas vermelhas para depositá-las nos túmulos de seus heróis, entre os quais o de Jean Moulin, mártir da Resistência, morto sob tortura pela polícia francesa durante a ocupação nazista. Emmanuel Macron vai direto a um palácio que abrigou a monarquia. Discursa com gestual estudado de quem parece ter frequentado o mesmo curso de oratória de outro presidente “moderno”, Nicolas Sarkozy. No discurso, anuncia, sem modéstia, que os franceses “elegeram a esperança e o espírito de conquista”.

Além desse ritual – espécie de síntese e metáfora de um projeto de governança –, costuma fazer parte da tradição dos dirigentes da França a proximidade com o mundo literário. Presidentes e ministros consideram uma distinção publicar os próprios livros. François Mitterrand publicou A abelha e o arquiteto, contendo textos de memórias e reflexões filosóficas. O general De Gaulle destacou-se por suas conhecidas Memórias de guerra. André Malraux, que foi ministro da Cultura de De Gaulle, foi autor de vários clássicos da literatura, entre os quais A esperança, romance que tem como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola. O livro de Nicolas Sarkozy, La France pour la vie (A França toda a vida), que é apenas um manifesto de sua campanha em 2016, vendeu, em 15 dias, mais de cem mil exemplares.

Um livro já é marca desse início de governo de Emmanuel Macron. Não é de ensaios, nem de memórias. Dans l’ombre (Na sombra) é um romance policial, escrito a quatro mãos por um ex-deputado, Charles Boyer, e por Édouard Philippe, atual primeiro-ministro. Formado nas chamadas grandes escolas, como o presidente, Edouard Philippe, quando mais jovem, foi próximo de Michel Rocard, destacado intelectual e político da esquerda francesa. Hoje, ele é um dos expoentes da direita do eclético governo de Emmanuel Macron.

Dans l’ombre não é uma obra-prima, mas tem características interessantes que o diferenciam dos romances do gênero. A linha mestra de sua narrativa é parecida à de qualquer policial: uma história permeada de intrigas, pequenos suspenses e, no final, um desenlace concebido para surpreender o leitor. O livro conta as peripécias de uma campanha presidencial, durante a qual uma suspeita de fraude ameaça a eleição do candidato e, em consequência, a vida militante de seu principal assessor, o narrador da história.

Logo na primeira página o narrador se apresenta como um apparatchik, termo que era usado, de forma pejorativa, para denominar os funcionários do Partido Comunista da antiga União Soviética. Define um profissional disposto a tudo, ciente de que para alguém se tornar vitorioso é preciso apreciar o que parece abominável a “qualquer pessoa decente”. No romance, o apparatchik não é tratado como um quadro político. Ele é um executivo motivado pela fidelidade ao líder partidário, tratado como “patrão”, que deve ser eleito a qualquer preço e a quem ele devota fidelidade sem limite. Diferentemente do apparatchik, o político é alguém que se destaca por exercer uma atração especial sobre as pessoas. As ideias dele não são de grande importância, o que conta são os efeitos que seus discursos e ações podem provocar no eleitorado. Em torno do político movimenta-se uma corte de assessores, encarregada do funcionamento de seu comitê e de criar barreiras para que a intimidade do homem público seja preservada.

As atividades dos auxiliares e suas relações com o chefe político, descritas no livro, assemelham-se às que são praticadas numa grande empresa, na qual se exige rígida disciplina, elevado profissionalismo e a lealdade é julgada a principal virtude. Nesse ambiente prolifera um mal que afeta os que dele fazem parte: a paranoia. Segundo o narrador, ela é a doença profissional que contagia tanto o “patrão” quanto seus assessores. Após certo tempo de convivência nesse círculo perverso, ninguém consegue escapar ao seu contágio. O principal sintoma dessa enfermidade é a exacerbação do ego, que induz o doente a se imaginar superior aos outros mortais. Seu poder devastador é comparado ao da silicose, mal que corrói, pouco a pouco, os pulmões dos homens que trabalham no fundo das minas.

Além de enredo característico de romance policial, Dans l’ombre esmiúça para os leitores o que acontece no submundo do política. Nas entrelinhas, é uma espécie de manual de campanha eleitoral. Terminada sua leitura chegamos a pensar que os acontecimentos e peripécias jurídicas que diferenciaram a última corrida presidencial da França buscaram inspiração nesse romance policial.

Tanto a retórica do poder, quanto a literatura, mudam com o tempo. François Mitterrand e o general De Gaulle ostentavam um estilo que lá se costuma chamar de “velha França”. Na passagem deles pelo Eliseu predominavam os livros de ensaios filosóficos e de memórias. Os que marcam o governo de Nicolas Sarkozy e o início da gestão de Emmanuel Macron são expressão da novíssima geração de tecnocratas que se movimentam no mundo com apoio do marketing e utilizam os mesmos instrumentos para gerenciar tanto o Estado quanto as grandes empresas.

Domingo. 14 de maio.

Ainda não sabemos se o personagem de paletó e gravata, que caminha sozinho em direção ao Louvre, atuará como algum dos personagens do romance Dans l’ombre. O que avistamos na tela sugere um jovem lobo caminhando em direção à presa com a sagacidade e o treino de quem passou pelos bancos dos Rothschilds.

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