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Às vezes, um texto que elegemos é tão cativante, que nos apropriamos dele e o tornamos nosso, íntimo. É o que confessou Carlos Drummond de Andrade no prefácio que fez ao Poemas. Era o primeiro livro de Joaquim Cardozo, editado em 1947 pelos amigos, em comemoração ao seu aniversário de 50 anos. Drummond comentou o espanto que lhe havia causado a leitura de A nuvem Carolina. Mais tarde, numa entrevista, contou tratar-se de um dos poemas de sua preferência. Nele, é narrada a conversa entre o poeta de Signo estrelado e uma nuvem com gestos de mulher, no seu “voo viúvo de uma asa”. Um diálogo nada estranho para um artista como Joaquim Cardozo, para quem interpretar acenos de uma nuvem era algo pertinente. Ele, que considerava possível tudo transformar em linguagem, a ponto de ter cogitado gravar os sons do movimento das ondas do mar para traduzi-los em palavras.

Pensar “nuvens” e “preferências” me ocorreu ao assistir, numa “nuvem” internética” do Youtube, ao Oratório Nazim, da autoria de um pianista e compositor de origem turca, Fazil Say, que já se apresentou na sala Osesp, de São Paulo, em maio de 2015. Descobri que o homenageado no Oratório Nazim, que dá título à composição, era o poeta turco Nazim Hikmet (1902–1963). A peça, composta para as comemorações de seu centenário, teve sua estreia num espetáculo grandioso, do qual participaram a Orquestra Sinfônica da Presidência da República da Turquia e o Coro Polifônico do Estado. Foi regida pelo próprio autor, Fazil Say. Genco Erkal, o mais consagrado ator de seu país, fez o recitativo dos poemas de Nazim Hikmet. Um deles, Passeio ao entardecer, tem uma estrofe que diz assim:

As lâmpadas do merceeiro se acenderam,
o cidadão armênio nunca perdoou
que tenham degolado seu pai
sobre a montanha curda.
Mas ele te ama,
porque também nunca perdoaste
aqueles que marcaram com essa mancha negra
o rosto do povo turco.(...)

O Ministério da Cultura da Turquia gravou o Oratório. Sabe-se, no entanto, que na edição oficial do CD foi mantido dessa estrofe apenas o verso As lâmpadas do merceeiro se acenderam. Os outros foram suprimidos, numa acrobacia da censura para tentar encobrir uma alusão ao episódio do massacre dos armênios pelos turcos. No holocausto, ocorrido em 1915, foram assassinadas mais de 1 milhão de pessoas. Meio século após sua morte, os versos de Nazim Hikmet continuavam impedidos de voar livremente, como as gaivotas de seu Mar de Mármara. Introdutor do verso livre na poesia turca, foi ele quem abriu a poética de sua língua à modernidade. Apesar de ter sido um dos mais importantes autores do século XX, em razão de sua ideias, passou mais de 15 anos em prisões. Uma delas, a de Bursa, é a mesma onde o estudante norte-americano Billy Hayes esteve preso e dela se evadiu em 1975, história que serviu de roteiro ao filme Midnight Express.

Nazim Hikmet, como Joaquim Cardozo, também foi “apaixonado” por uma nuvem. Seu conto A nuvem amorosa é a história de um lugar imaginário, “o país da Flauta”. Nele, o personagem Seyfi, o Negro, é o senhor de tudo: montanhas, caravanas de camelos e imensas pastagens. De sua cobiça, apenas havia escapado o deslumbrante jardim de Aïchê. Seyfi faz de tudo para se apropriar dele e, para manter o domínio sobre todas as terras, chega a pedir ao Diabo que o destrua. Mas Aïchê decide enfrentar Seyfi com o apoio de amigos como a Lebre, o Pombo e, sobretudo, uma Nuvem. A nuvem amorosa é um conto metafórico que incita a pensar sobre as lutas que nos movem e revela o quanto a força de uma escrita poética pode ser capaz de despertar sentimentos. Nazim Hikmet e Joaquim Cardozo foram contemporâneos. É bem possível que tenham tido conhecimento um do outro, embora sobre isso não se tenha registro. Sabemos da amizade entre Nazim Hikmet e o poeta russo Vladimir Maiakovski, que também teve sua “nuvem”, a do poema A nuvem de calças, no qual escreveu (na tradução de Manuel de Seabra) que

Se quiserem,
serei apenas carne louca
e, como o céu, mudarei de tom,
se quiserem,
serei impecavelmente delicado,
não serei homem, mas uma nuvem de calças!

Os dois amigos conviveram em meio aos escritores do movimento futurista russo, no início dos anos 20. Nessa época, Nazim Hikmet morou na antiga União Soviética, fugido da perseguição, após ter tomado parte na luta pela independência da Turquia e motivado pela recente Revolução de Outubro. Maiakovski, Nazim Hikmet e Joaquim Cardozo observavam o poeta não como um ser social ocioso, mas um operário do verso. E a poesia, uma atividade tão importante quanto as forjas das maquinarias modernas.

A respeito de Nazim Hikmet, anotei no livro Melhores mangas que de sua prosódia nos chegam versos, maçãs, amêndoas, nuvens.E os sons das flautas da Anatólia continuam a celebrar o homem sentado contra a parede branca da prisão, que canta: Meu país: Bedredin, Sinan, Yunus Emre e Sakary,cúpulas de chumbo, chaminés de fábricas – todos trabalhos de meu povo…

Numa viagem à Turquia, experimentei alguma intimidade com coisas ou pessoas parecidas com as que figuram na grande epopeia desenhada pelo autor de A nuvem amorosa. Numa loja de tapetes, no interior do país, partilhei com um professor turco a emoção trazida pela leitura dos poemas do autor de A nuvem amorosa. Desse encontro, trouxe um tapete de oração e a recomendação para ler o romance Memed, meu falcão, de Yasar Kemal (1923-2015), outro grande clássico da literatura.

No ano passado, mais de meio século após a morte de Nazim Hikmet, foi publicada pela Editora 34 a primeira tradução brasileira de seu livro Paisagens humanas do meu país. Seu tradutor, Marco Syraiama, foi o vencedor do prêmio Jabuti 2011, pela tradução de um outro clássico da literatura turca, O livro de Dede Korkut.

Embora pareça paradoxal, a leitura de um livro de poemas, vindo de uma Turquia que nos repercute tão distante, quem sabe nos fará compreender melhor essa nuvem de mau agouro que ora atravessa o Brasil.

 

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