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O mais desprezado romance de João Gilberto Noll, Lorde, de 2004, é, provavelmente, sua ficção mais radical. Por que ele causou, e ainda causa, tanto mal-estar? Por que o tratam, em geral, com tanta repulsa? Acontece que Lorde denuncia, de modo contundente, a situação do escritor contemporâneo, que se transformou em um “animal de exibição”. As grandes festas literárias, os congressos de literatura, as feiras comerciais, afora todas as suas inegáveis vantagens práticas, guardam, também, seu lado nefasto.

Eles transformaram os escritores em celebridades vazias, que viajam para lá e para cá para exibir, em palestras, entrevistas, ou mesas curtas, seu charme pessoal e suas habilidades de orador e, tantas vezes, de piadista. Eles deixam os escritores um tanto à deriva, com suas figuras capturadas por impressões leves, por avaliações superficiais e por um charme difuso. Basta recordar um pouco o enredo de Lorde para que isso fique mais claro. Com a aparência de uma autobiografia – Noll foi, de fato, um escritor que circulou pelo mundo –, o romance conta a história de um romancista brasileiro que é levado à Inglaterra por uma instituição estrangeira. Para quê? O que exatamente dele se espera?

O escritor se sente chamado a Londres para “uma espécie de missão”. Mas qual missão? Ao desembarcar no aeroporto de Heathrow, espera que lhe digam “qual a minha próxima tarefa, para onde ir, em que quarto me meter”. Espera que o comandem, em uma área, a dos eventos e exposições, que em definitivo não é sua especialidade. Sente-se solitário e desamparado, sem saber o que dele desejam, por que o carregaram até a Europa, e com medo de fracassar. “Sabia que teria que prestar contas um dia a alguém por estar ali”, reflete. Hospedam-no em Hackney, um bairro longínquo, de imigrantes vietnamitas e turcos, “já fora das margens dos mapas da cidade”. Sente-se, enfim, como um marginal e se vê destinado a uma “tarefa secreta”, que se sobrepõe a sua imagem de “escritor convidado”, e que lhe escapa. Neste cenário nevoento, passa a ter crises de amnésia, perdendo a perspectiva de tempo e de identidade.

Reflete: todas as tentativas de viver de seus livros fracassaram – a literatura parece estar cada vez mais em desuso – e agora ele depende dessas viagens de exibição para sobreviver. Falar em vez de escrever: esse parece ser seu novo destino. Instalam-no em um apartamento da Mare Street em cima de um restaurante vietnamita, em uma zona um tanto suspeita. Teme ser preso. Ao mesmo tempo, sabe que, para não desagradar, deve desempenhar esse novo papel de celebridade internacional. “Tudo o que vivera até ali parecia estar indo embora.” Torna-se um personagem antipsicológico: sem memória, sem passado, sem vida interior. Nesse estado de esvaziamento, percebe que no quarto não há um espelho: falta-lhe a imagem de si. Sai, então, para comprar um, “pois preciso constatar que ainda sou o mesmo”.

Ao se olhar, enfim, em um espelho, assombrado, ele se desconhece: “Eu era um senhor velho”. Recorda, então, a frase de Cecília Meireles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” Agora depende dos ingleses e deve segui-los, sem entender para onde o levam. Sem entender em quem se transformou. Examina-se mais uma vez e vê um “dândi”, um “lorde”. Conclui: “Essa era a minha sina de agora em diante”. Um “homem especial”, que deve pontificar em festas e espetáculos, e comportar-se como um astro internacional. Para dar sua primeira entrevista, o levam, antes, a uma sala de maquiagem. Desconfia que já é outro, que se tornou um ator, alguém que já não carrega o homem que sempre foi.

Perde-se de si, o que o leva a planejar uma historia sobre sua transformação. Nesse estado de perturbação, o inglês o leva a um hospital, para que seja examinado. Lá chegando, o escritor pensa na vantagem de ser um paciente – isto é, de ser um objeto, que carregam para lá e para cá, e não mais um sujeito. Depois de muita luta interior, decide que só lhe resta entregar-se ao inglês e a seu plano. Como um combatente fracassado, deixa-se subjugar. Reconhece-se, enfim, como um covarde: “Esta é a marca dos covardes: ir se desfazendo das marcas de qualquer experiência”. A marca do escritor se torna, então, a rendição.

No dia seguinte, metem-no em um caminhão do exército. Descobre, assim, que o inglês que o convidara é um militar. “Eu era um prisioneiro”, conclui. “Vivia na solitária e às vezes jantava com meu carcereiro”. Detido em Londres, e ainda desconhecendo seu destino, decide tornar-se um cronista da cidade. Ele se vê fora do eixo, “como um dejeto de si”. Sente-se em um teatro, encenando um papel criado por seu tutor inglês. Descobre que não é mais um homem, mas um “fenômeno”, um “homem em estudo”. Ou então um ator, a quem cabe desempenhar um script alheio.

Subitamente, seu anfitrião enlouquece e se suicida. A partir daí, Lorde toma dimensões oníricas. Mais que um romance, é um pesadelo. “Eu precisava prosseguir sozinho, o que já me era um vício”. Sem seu tutor, já não sabe como agir. Mesmo sem o inglês, precisa continuar a vida de escritor-ambulante, de vendedor de si mesmo. Desnorteado, começa a se perguntar sobre as armadilhas da língua – quer saber se entendeu as instruções recebidas. “A língua se liga às coisas, ou é só um delírio?”, pergunta-se. Conhece, enfim, um professor de português, que lhe traz alguma esperança de sentido. Mas, de repente, passam a tratá-lo por George, o nome do professor. Descobre, atônito, que se tornou o professor. Será que engoliu seu mestre? Toma assim, em definitivo, posse do corpo alheio. Já não é o escritor que sempre foi, mas um personagem que vive uma segunda vida.

A tragédia do protagonista de Lorde se aproxima, bastante, do destino dos escritores viajantes de hoje – categoria, é preciso dizer, a que eu mesmo pertenço. Em vez de escrever, pontificar. Em vez de meditar, falar. No lugar do escritório silencioso e da escrita obstinada, enfurnar-se em um mundo que fervilha, com suas luzes, seus autógrafos e seus aplausos. A literatura fica para trás, perdida em um passado que só com grandes dificuldades se consegue acessar. A literatura se torna comércio – torna-se literatura comercial. O escritor se transforma em um produto de exibição e de vendas.

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