castello julho A

 

Tento me consolar do presente asqueroso lendo os relatos breves – mas radicais – de Clarice Lispector. Não é a primeira vez que, em momentos de desânimo, a eles recorro. Os contos e as crônicas de Clarice são como facadas que, sem piedade, fuçam o coração da miséria humana. Não para matar, ou por maldade, mas para dele arrancar uma inesperada beleza e também algum sentido. O presente é repugnante porque parece desgovernado. Clarice, empurrando com força, mas com cálculo, não só o desmascara como lhe dá uma direção. É o que acontece agora enquanto leio O jantar, do livro Laços de família, de 1960.

Mais uma vez, ela extrai sua história de quase nada. Não importa só o que acontece; importa, sobretudo, o modo como o observamos. O real não está no objeto observado, tampouco no sujeito observador: situa-se entre eles. Um homem almoça em um restaurante. Enquanto come, ele observa um velho que janta no mesmo salão. Uma mulher magra de chapéu, sentada entre os dois, lhe serve de obstáculo, mas também de esquadro. É através dela, recortado por seus movimentos, que o narrador espiona o velho.

O papel dessa mulher, personagem secundário a quem só com muito esforço damos alguma atenção, é, no entanto, decisivo. Ali postada como um lenço, ou um véu, ela é o anteparo que impede a explosão da cena. O eixo, em torno do qual os dois se movimentam e sem o qual talvez se chocassem. Na aparência, Clarice não relata nada de surpreendente. Enquanto o garçom arruma os pratos sobre a toalha, o velho conserva os olhos fechados. De repente, do nada, um garfo cai no chão, e isso, se não significa nada também, prenuncia alguma coisa. Agora o velho mastiga, enquanto o narrador, distraído, o contempla. A rotina se desenrola como um farrapo velho; só a voz submersa de Clarice, presa na garganta do narrador displicente, lhe empresta o caráter de uma ameaça.

O que se passa exatamente? Aonde Clarice pretende chegar? Imitando O Horlá, de Maupassant, um ser estranho e invisível, do qual, como muito esforço percebemos apenas as pegadas, se intromete na cena. Um ser não só inacessível, mas desagradável e ameaçador; um elemento que contorce – como a um pano velho – toda a apatia do cotidiano e dela extrai um sumo venenoso. Numa palavra: o insuportável.

Descreve o narrador: “E exatamente como se não suportasse mais – o quê? – pega rápido no guardanapo e comprime as órbitas dos olhos com as mãos cabeludas”. Talvez o horror esteja nas mãos cabeludas: mas não está. Talvez nas cavidades que as mãos, envoltas no guardanapo, espremem: mas também não. Há uma presença que o velho não tolera; ela é a verdadeira protagonista do relato. O narrador continua a comer, continua a ver, continua a participar, mas “também não sabia de quê”. O personagem que interessa é esse “quê”, figura que, apenas anunciada pela mulher de chapéu, se interpõe entre os dois homens.

Tudo o que me resta é a língua, de modo que volto, eu também, ao “quê”. “Representação de algo indeterminado, indefinido”, me ajuda o Houaiss. Eis que me detenho no “quê”, que representa, ainda melhor que O Horlá, esse ser invisível, mas ainda assim potente, que se infiltra na ação. Ele é, de certo modo, a própria essência da ficção – que se desenrola movida por fios imperceptíveis que, no entanto, decidem seu destino.

Lembro aqui uma tela de Almeida Júnior, O importuno, que vi na Pinacoteca de São Paulo. Mal escondida atrás de um cavalete, uma mulher observa um pintor em seu ateliê. Esse olhar matreiro, porém, nada revela; o que ela vê é também aquilo que ela não vê. Puxando a ponta de uma pesada cortina, o pintor, também ele, observa alguma coisa que sob ela se oculta, e que escapa não só à mulher escondida, mas também a nós, que contemplamos o quadro. Há um abismo no qual a presença do insuportável se desdobra sem, no entanto, se revelar.

Agora o garçom serve um vinho. Ao prová-lo, o velho “estala a língua com desgosto como se o que era bom fosse intolerável”. De novo, mesmo tendo como veículo uma bebida saborosa, ressurge a presença do intolerável. Algumas linhas antes, nauseado, lutando para mastigar, o narrador vê, no rosto do velho, uma lágrima. Prova de seu limite. E ainda: prova – vestígio que não se pode negar – da presença obscura que o ronda. “Nada mais acontecia”. O que pode ter importância quando nos aproximamos do limite?

Depois disso, prossegue o narrador sem nome, o velho ficou com a cara vazia. “Procuro aproveitar esse momento, em que ele não possui mais o próprio rosto, para ver afinal. Mas é inútil.” Apesar de ocupar todos os espaços da cena e até dirigi-la, o insuportável continua a escapar. Aos poucos, ele passa a se manifestar – como uma imagem muito turva refletida em uma vidraça, que mostra não o que está além dela, mas o que a antecede – nas feições do ancião. Na descrição que se segue, sem usar a palavra, Clarice nos apresenta, então, a figura de um ogro, um velho comedor de crianças, cuja decadência extrema é só o passaporte não para a piedade, mas para a crueldade.

Porque, Clarice nos leva a ver, se não resistirmos ao insuportável, se não aguentarmos sua ameaça e sua pressão, ele nos transforma em monstros. Esse é o grande risco do contemporâneo, que ela anteviu há mais de meio século: um risco de morte, não da morte física, mas do desaparecimento do humano. Restariam, então, seres ocos, que o rosto vazio do velho, logo transformado em um ser disforme, exprime tão bem. A constatação final do narrador fala disso muito bem: “Mas eu sou um homem ainda”. O tema secreto do relato de Clarice é, portanto, a resistência.

De um episódio muito pequeno, quase abjeto, Clarice Lispector arranca um retrato devastador do presente. Talvez não só do presente, mais ainda: de algo atemporal – o inominável “quê” – que nos constitui. Na direção contrária da ficção contemporânea, não precisa de grandes aventuras, de bruxarias, de assassinatos para nos gelar o espírito. Bastou-lhe capturar com as palavras, com palavras simples e uma cena banal, nossa interminável aflição.

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