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Treze anos depois de sua morte, chega às livrarias, como uma velha dívida que enfim nos é paga, a poesia reunida de Hilda Hilst (Da poesia, Companhia das Letras). Bem antes disso, os internautas interessados em literatura já haviam se acostumado a se defrontar com seus poemas, reproduzidos com abundância em sites, blogs, chats etc. Morta, Hilda se transformou, no alvorecer do século XXI, em uma musa da internet. Muito além de todos os modismos que infestam a rede e todo o mundo contemporâneo, porém, a reunião da poesia de Hilda em um volume único é não só a chance de reencontrar uma grande poeta, mas de refletir a respeito das palavras belas, mas ásperas, que ela nos deixou.

Uma explosão sem limites do espírito, uma súbita expansão de nossas possibilidades humanas, provocaria um desastre pessoal, Hilda sempre insistiu em nos dizer. Ninguém seria capaz de suportar. Não é por isso, contudo, que devemos nos conformar com a monotonia do que somos. Com o banal e o normal. O homem deseja sempre ir além de si, deseja se superar, mas para isso necessita de limites que — como as grades de um berço — o acolham em seu renascimento. Esse limite, que propicia a metamorfose sem a destruição, é a arte. É a poesia.

Pesco essas ideias em uma inesquecível entrevista que Hilda Hilst concedeu, no ano de 1980, ao crítico literário Leo Gilson Ribeiro. A conversa está agora arquivada em Fico besta quando me entendem (editora Globo, Biblioteca Azul, 2013), reunião de 20 entrevistas da escritora, organizada por Cristiano Diniz. Livro que não consigo parar de ler e que, mais uma vez, me ponho a reler, na esperança de que ele me ajude a atravessar a reunião de poemas que tenho diante de mim.

Além de poeta e ficcionista de gênio, Hilda Hilst foi ainda, como todos os grandes escritores, uma sensível pensadora da literatura. Sigo, como um espião meio desesperado, seu diálogo com Léo Gilson. Tento encontrar um suporte, algum apoio mínimo, para não me afogar em seus agitados versos. Tento seguir seu raciocínio. A razão sozinha (expressa no personagem Tadeu, do relato Tu não te moves de ti, de 1980) traz a ameaça do rotineiro e do postiço. Tadeu é a máscara do Mesmo. Mas o domínio da fantasia pura (encarnada no personagem Matamoros) leva, ao contrário, ao delírio e pode nos incendiar. Matamoros é o Outro que tanto nos inferniza. Não é uma questão de excluí-los, mostra Hilda, mas de incluir entre eles um terceiro elemento: a proporção (de que o personagem Axelrod se torna um símbolo).

Argumenta Hilda: “Ambas as condições — a fantasia e a hiperlucidez — são mais do que a fragilidade humana consegue suportar: levam à loucura e à morte, inexoravelmente”. A literatura é a expansão do espírito dosada (delimitada) por um terceiro elemento: a proporção. Podemos nos apegar à razão — mas com desconfiança. Podemos alçar vôo na fantasia – mas protegidos por um limite, como uma redoma invisível. Hilda sempre se preocupou com a fragilidade humana, que talvez seja o tema central de sua escrita. “Revelar ao outro que ele pode ser muito mais e que pode ser ele mesmo com uma liberdade total (…), eu me pergunto, não pode levar uma pessoa à morte, à loucura sem retorno?”

Aposta Hilda, então, na ideia do hermético, não como um muro intransponível, mas, seguindo o pensamento do filósofo Soren Kierkegaard, que não se cansava de ler, como “o escudo que os homens usam para se fecharem dentro de si mesmos”. O hermetismo – a fronteira, a pele, o limite – é uma defesa necessária do humano. Por isso, toda literatura é “hermética”: ela “prende” uma parte do mundo em uma moldura de beleza. A ficção deixa, assim, de ser pura razão (saber), ou puro sonho (fantasia), para se tornar uma espécie de abrigo em que guardamos e alimentamos o que temos de mais precioso. O que guardamos? O que podemos ser e não somos.

A ficção – e a poesia é apenas outra forma de ficção - é a confluência da expansão com o limite. É uma expansão que enquadra – é uma expansão que traça uma fronteira. Hilda sempre defendeu a ideia de que as máscaras são armas indispensáveis à salvação humana. Só mascarados (só em “estado de ficção”) conseguimos, enfim, nos ultrapassar. Fascinada pelas ideias do Oriente, Hilda via a ficção como um espaço para o satori, isto é, para a iluminação. A luz plena sem a proteção de um anteparo cega em vez de iluminar. Ainda assim, essa proteção — como um quebra-luz — não nos traz promessa alguma de felicidade. Mesmo mascarados e distanciados, não temos o direito de nos iludir. Pergunta Hilda, a propósito: “Pode ser feliz quem sabe que caminha para a morte?”

Chega Hilda assim ao problema da ética do escritor. Hoje se fala muito na ética; grandes horrores se executam, com hipocrisia e desfaçatez, em seu nome. Melhor ouvi-la: “É válido você mostrar ao outro uma verdade que você não pode resolver para ele?”. Para ela, a ética se enlaça sempre com a delicadeza. O que a leva a uma conclusão trágica: nem mesmo a ficção consegue nos salvar de nossa fragilidade. Escritores “cheios de si” são, na verdade, falsificadores. Estamos definitivamente divididos entre a razão, a fantasia e a proporção. Seus personagens, “Tadeu, Matamoros e Axelrod são as três possibilidades de uma só pessoa”. Somos seres em potência. Para que nossa vida não se transforme em uma explosão, contudo, precisamos de freios. A arte é o mais eficaz desses freios: ela nos lança para o futuro, mas sem esquecer os miseráveis limites do presente. “Einstein mostrou que, a grande distância, um presente é contemporâneo de um futuro”. Ninguém se move de si — embora vastos abismos e densos espaços nos arrastem sempre para a frente.

Conhecia Hilda, muito bem, os riscos envolvidos na ficção, que não existe para divertir, mas para advertir. Talvez o leitor tenha razão em se encolher. “Talvez o leitor não tenha uma couraça para enfrentar esse tipo de questionamento”, ela constata. Conhecia, em consequência, a necessidade vital de um centro. “Talvez minha literatura seja a procura do centro.” Uma zona de segurança – uma ficção, um poema – em que o homem possa, enfim, ir além de si, e ainda assim sobreviver.

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