Palavras 1castello A

 

Não tenho suportado a leitura do noticiário. Também não tenho assistido aos telejornais. Navegar na rede frequentemente me sufoca. Embora a realidade não ande nada agradável, não me refiro aos fatos em si – até porque não acredito na existência dos fatos em si. Mas o que se passa comigo então? A vida contemporânea está contaminada por um crescente tagarelar, um falatório dispersivo e opressivo que não chega a lugar algum. Asfixiado pelo excesso de palavras, afogado em declarações, denúncias e insinuações, com frequência me lembro de Mordássov, a cidade imaginaria criada por Fiodor Dostoievski na novela O sonho do titio, que li na tradução de Paulo Bezerra para a editora 34; um vespeiro de fofocas, intrigas e mexericos que, em nossa vida diária, se resume em uma palavra da moda: delação. Estamos todos afundados nas almofadas do salão de Mária Alieksándrovna, a primeira dama do fuxico e da intriga em Mordássov. Nessa algazarra, a verdade que se dane – importam os efeitos e a repercussão.

Nesse estado de desânimo, que é crescente e não é só meu, chego, por mero acaso, à A solidão, o capítulo 23 de O spleen de Paris, de Charles Baudelaire – que leio na tradução de Leda Tenório da Motta para a editora Imago. Baudelaire dá a seu livro um subtítulo inspirador: Pequenos poemas em prosa. Sim, porque é da poesia, de fato, que se trata. Em nosso mundo ríspido e agressivo, de gritaria, de tagarelice e de ódio, nunca precisamos tanto da suavidade dos poetas. E também de seu silêncio. Em meu socorro, Baudelaire viaja desde o século 19 até nossos dias – século 19, a propósito, que me deu outra figura decisiva em minha sofrível formação, o próprio Dostoievski. Detenho-me em suas anotações. Eles me oferecem a chance de um caminho. E me ajudam a entender por que, ultimamente, tenho preferido ficar em silêncio e sozinho.

“Um jornalista filantropo me diz que a solidão é ruim para o homem”, começa Baudelaire. “Defendendo sua tese, cita, como todos os incrédulos, as palavras dos Pais da Igreja.” A superstição diz que o demônio prefere os lugares áridos e vazios – e que a solidão, em consequência, lhe seria fértil. No mundo contemporâneo, de fato, quase todos se sentem mais confortáveis em meio à zoeira e ao falatório, em que todas as vozes se dissolvem, em que basta falar por falar, sem quase nada dizer, e você se sentirá desafogado. No ruído infernal de hoje, a palavra é desvalorizada, passa a valer qualquer coisa. O importante é dizer e escrever, não importa o quê. O importante é tagarelar e gritar. “Falemos”, nos ordena a grande voz.

Não, a solidão não representa um perigo. Ao contrário: mais do que nunca, ela é a possibilidade do pensamento próprio. A possibilidade do próprio pensamento. “Por certo, o tagarela, cujo supremo prazer é falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, correria o risco de tornar-se um completo louco na ilha de Robinson”, prossegue Baudelaire em suas meditações. Nos dias de hoje, os solitários e os silenciosos são vistos com grande suspeita. Se não falam, é porque eles escondem algum segredo. Se eles preferem estar sozinhos, pensa-se ainda, é porque a presença do outro os ameaça e denuncia. Em resumo: o solitário se transforma em um suspeito. A própria solidão – a própria ausência do crime – seria a prova do crime.

“Não vou impor a meu jornalista as virtudes de Crusoé”, diz Baudelaire, “mas peço-lhe que não envolva no decreto acusatório os amantes da solidão e do mistério”. Aquele que muito fala e que, assim, assume o papel de acusador, não corre perigo porque, ao menos aparentemente, “tudo expõe, tudo mostra”. Aquele que está sempre acompanhado parece nada temer, nada ter a esconder, já que se encontra sob a vigilância e a tutela de tantos olhares alheios. Protegido por um escudo de palavras, o falador se esquiva e se fortalece. As palavras deixam de ser um meio de expressão e se tornam um meio de intimidação. Transformam-se em armas.

Diz Baudelaire a respeito dos falantes e dos prolixos: “Não os lastimo, porque adivinho que suas efusões oratórias lhes reservam volúpias iguais àquelas que outros retiram do silêncio e do recolhimento; mas os desprezo”. Ter a palavra sempre exposta – como em A carta roubada, de Edgar Alan Poe, que Jacques Lacan transformou em um caso exemplar em célebre seminário -, desnudar-se, exibir-se, promover-se parece, em nosso estranho mundo de hoje, uma garantia de pureza. A mais preciosa proteção. Uma garantia de verdade. Basta falar – se pensa – e a verdade aparece.

O mundo contemporâneo exige de nós, sobretudo, isso: que falemos, não importa o quê, mas que não deixemos de falar. O ditado se inverte: agora é em boca fechada que entra mosca. É sobre as bocas fechadas que recaem a suspeita e a maledicência. Protesta Baudelaire, dois séculos antes de nós: “Desejo principalmente que meu maldito jornalista me deixe divertir-me à minha maneira”. Recorda-se, a propósito, de La Bruyère, o moralista francês do século 17, quando este se refere à “infelicidade imensa de não poder estar só”. Podemos acrescentar: de não poder estar quieto. Pois o silêncio e o recolhimento parecem cada vez mais suspeitos.

Na era dos talk shows, das celebridades e das selfies, a solidão e o silêncio se tornam perigosos. Em nosso mundo em rede, a compulsão à exposição se dissemina. “Quase todas as nossas desgraças nos vêm de não sabermos ficar em nosso quarto”, diz Baudelaire, citando Pascal – mas ele não está certo de que a frase seja exatamente de Pascal e, no entanto, isso não o afeta. O mundo contemporâneo valoriza também a precisão – ainda que ela não passe de um jogo de cena, como no caso das estatísticas, que engessam a verdade, mas nem sempre a carregam. Na época das pesquisas de opinião e das sondagens, devemos confessar abertamente, até mesmo escandalosamente, nossos segredos, ideais e posições. Nada pode ficar escondido. Até das crianças se exige que sejam falantes, extrovertidas e que “interajam” com seus coleguinhas, ou logo serão tidas como esquisitas e talvez doentes.

Em nosso mundo frenético, ler um poeta como Charles Baudelaire nos permite, por algum tempo, respirar. Respirar e silenciar. Sair um pouco da atmosfera de Mordássov – abandonar a tempestade de palavras que desaba sobre nós. Deixar um pouco de lado as confidências e as incontinências de Mária, levantar-se de seu sofá de fofoqueiras, e finalmente estar sozinho, o que pode ser mais inspirador? Se não inspirador, pelo menos consolador.

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