CARRERO JAN17 creditoJoão Miguel Pinheiro

 

Lourival Holanda adverte logo: no seu novo livro – Guerra de ninguém (Editora Iluminuras) – Sidney Rocha é preciso e enxuto. Nenhuma palavra caindo pelos cantos da página, nenhuma palavra exibindo-se cheia de luxo e luxúria. Nada disso. Neste livro, tudo está no lugar, embora eu goste cada vez mais dos personagens de Sidney, quase todos sempre em crises e as crises, em geral, criam bons personagens. Nas mãos de artesão, é claro. São estas crises dos personagens que os tornam tão próximos da vida. Desta forma, não são apenas personagens, são pessoas. E pessoas constroem suas histórias com exatidão, porque, se os humanos estão cheios de defeitos, as pessoas conscientes e plenas procuram a perfeição, sem dúvida. Assim é a contradição da vida. Sistematicamente. Eis a equação: imperfeitas e contraditórias, as pessoas costumam assumir um ar de gravidade para buscar a perfeição. Por isso, estão nos contos e na obra de Sidney. Buscando palavras, procurando frases até construir edifício narrativo, Esta é sua tarefa de escritor, a íngreme tarefa de escritor de uma arte que ele domina como poucos neste país.

O próprio Sidney declara com ênfase que quer a sua obra cada vez mais próxima da vida, com a vida, dentro da vida. Projeto que ele realiza com muita eficiência cada vez que lança um livro, como esta Guerra de ninguém, que reúne personagens belos e díspares como Clara e Carmelita, seus pais e seus admiradores, nesta breve novela que tem o nome das personagens, mesmo com a influência de um Cortázar e de um Borges, com o gosto de fábula irônica.

Aliás, neste capítulo da influência concordo plenamente com Harold Bloom: o escritor influenciado não imita nem copia. Em síntese, é, na verdade, outro escritor, pleno, revigorado e absoluto. Ele próprio. E só.

Vejam o que diz Bloom, citado no meu livro Os Segredos da ficção:

“Um poeta é o produto combinado de forças internas que modificam a natureza do outro; e de influências externas que excitam e mantêm essas forças; ele não é umas ou outras; ele não é umas e outras, mas ambas. A mente de todo homem é, nesse aspecto, modificada por todos os objetos da natureza e da arte; por toda palavra e sugestão que algum dia ele admitiu atuarem sobre sua consciência… dessa sujeição não escapam nem os mais grandiosos”.

Sidney não escreve à semelhança de Cortázar ou de Borges, mas trouxe ambos para tornar-se, com convicção, Sidney Rocha. Absolutamente Sidney Rocha, o autor autônomo de Guerra de ninguém, com suas características e qualidades.

Agora passamos para o campo da “imitação”, que é o oposto ao da influência. Como já demonstramos, a influência agrega, modifica e amplia, mas a “imitação” diminui e nega. Assim, Sidney Rocha ganha identidade própria e se assemelha, nem embaixo nem em cima, mas ombreado, assim mesmo, ao lado.

Ao lado disso, inaugura o que chamo de “diálogo circular”, como se verifica na abertura de Clara e Clarinha, à página 25.

“Era um tempo de tomada de decisões, não se pode ficar em cima do muro a vida inteira, disse o embaixador à filha Carmelita no jantar da casa, não se sabe o caminho ao certo, filha, vai-se caminhando, é preciso coragem porque tudo passa, mas depois, depois.

“Era um tempo de tomada de decisões, não se pode ficar em cima do muro a vida inteira, disse o general à filha Clara no jantar em casa, não se sabe o caminho ao certo, filha, vai-se caminhando, é preciso coragem porque tudo passa, mas depois, depois.”

Observe-se, ainda o uso de várias vozes, com o uso do discurso indireto livre, que consiste em aproximar a voz do narrador à voz do personagem sem sinais gráficos, sem que leitor perceba. Assim:
“Era um tempo de tomada de decisões” – narrador;

“não se pode ficar em cima do muro a vida inteira; – personagem

“disse o embaixador à filha Carmelita no jantar em casa, – narrador;

“não se sabe o caminho ao certo, filha, vai-se caminhando, é preciso coragem porque tudo passa, mas depois, depois.”

Aí nem Cortázar nem Borges, mas Sidney Rocha, absoluto, dono do seu destino e do seu estilo, mesmo que o estilo seja do narrador oculto que é inteiramente comandado por Sidney. Na concepção e na realização. Um livro, afinal, de grandes qualidades.

Dele, pode-se dizer seguramente: um livro que consolida a obra de cearense exilado Sidney Rocha.

Na verdade, a técnica se chama “discurso indireto livre” e foi criado por Flaubert no revolucionário Madame Bovary, que foi inicialmente tão incompreendido que lhe valeu um processo no Ministério Público francês, sob a acusação de “obsceno”. Aliás, Flaubert foi sempre acusado de escrever sobre assuntos e personagens insignificantes, daí se muito com a epopeia dos comuns – ou seja, de dar muita atenção a uma sociedade vulgar. No entanto, a crítica da época nem sempre observou que aí estava, possivelmente, sua melhor qualidade.

Flaubert, sim, um revolucionário da prosa literária. Por que não dizemos, então, que estamos diante de Sidney Rocha, um revolucionário da prosa contemporânea, mesmo quando diz, contraditoriamente, que prefere estar perto da vida, ou até perto do coração selvagem da vida – para usar uma expressão de Clarice Lispector, embora escrita por Joyce no Retrato do artista quando jovem no episódio em que Dedalus conhece o grande amor de sua vida em um momento no qual está imerso em grandes e graves preocupações teológicas. Talvez o momento literário mais belo da literatura contemporânea.

Outro destaque importante da obra deste autor é a ironia. Vejamos este texto do conto, quase novela, a que me refiro:

“Quando voltou de lá, era a bonequinha do campo, como as moças lindas nos campos de alfazema, nas embalagens dos perfumes, com seus slogans ‘Cheirai aos lírios dos campos’, esse mundo inteligente da publicidade”.

Enfim, um artista luminoso, ou como dizia Ariano Suassuna, um “escritor de raça.” Imensamente criador e, a seu modo, revolucionário.

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