capa 137Narrar é resistir

Vinte anos após Cidade de Deus, de Paulo Lins, quais as narrativas, na favela, que surgiram influenciadas pela obra? E mais: Nabokov morria há 40 anos; as prateleiras e disputas da Biblioteca Nacional Argentina; bastidores de uma tradução da Bíblia; Joselia Aguiar fala da Flip

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Marginow - Dona Tuca e sua poesia de esquina

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José Castello

Everardo Norões

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Ilustração por Karina Freitas

 

Em 1929, Virginia Woolf falava sobre as “dificuldades materiais” de escrever que tinha a mulher sem a emancipação de um teto para chamar de seu, do dinheiro próprio ou da autonomia em dizer que não estava ali pra te servir um chá ou colher as flores da estação. Da mulher incapaz de ter um espaço para a reflexão, sem que o peso de seu sexo não a curvasse perante alguma autorização patriarcal. Seria possível fazer uma associação entre esse ensaio de Woolf e os possíveis entraves editoriais que existem hoje para as escritoras e escritores fora do padrão hegemônico do homem-branco-classe-média-sudestino-heterossexual? Qual a natureza das dificuldades que existiriam agora? A resposta de Luisa Geisler, conhecida após ter levado o Prêmio Sesc de Literatura em 2010, aos 19 anos, e hoje autora de dois romances, não poderia ser mais elucidativa. “A questão toda para mim está nestas duas sinopses:

 

‘Martha é uma mulher determinada a descobrir a respeito de seu passado. Entre relacionamentos amorosos frustrados, ela inicia uma pesquisa extensa que a levará a descobrir a sua verdadeira identidade.

 

Marcos é um homem determinado a descobrir a respeito de seu passado. Entre relacionamentos amorosos frustrados, ele inicia uma pesquisa extensa que o levará a descobrir a sua verdadeira identidade.’”

 

Ela explica: “Note como, só mudando o gênero na sinopse, a história quase parece outra? E eu poderia exagerar mais. Agora imagine falar de uma autora que faz uma história sensível versusum autor que faz uma história sensível. Há um padrão duplo muito claro e precisamos assumir que isso existe pra que ele possa ser combatido”. Em suma, o que Geisler aponta quando tenta estabelecer a natureza dos obstáculos para a mulher escritora é essencialmente o mesmo problema sobre o qual Virginia Woolf se lamentava há mais de oito décadas. Às mulheres ainda cabe a carga simbólica do ser passivo, em que pesam mais na sentença acima os “relacionamentos amorosos frustrados”. Enquanto o homem, ativo, se sublinha na ação de sua “pesquisa extensa”. Essas representações socialmente construídas, claro, se estendem também às questões materiais historicamente dadas não apenas às mulheres, mas a todos aqueles destituídos de um teto próprio.

 

Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá para fazer meia-volta-volver.”

Maria Valéria Rezende, no livro Quarenta dias(Alfaguara)

 

Os reflexos editoriais dessa perpetuação do papel social estão sendo intensamente discutidos nesses últimos três anos, particularmente após a publicação, dentro e fora do Brasil, de várias antologias da literatura contemporânea, de premiações e feiras literárias que evidenciaram um inegável protagonismo masculino-branco-classe média no corpus literário. O debate coincide (coincide?) também com o resultado da pesquisa desenvolvida pela professora Regina Dalcastagnè, da UnB, lançado em 2012 com o livro Literatura Brasileira Contemporânea: um território contestado (Editora Horizonte), no qual ela conclui que, entre 1990 e 2004, os homens foram três quartos dos autores publicados no Brasil, 70% de todos autores publicados vinham de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul e, ainda mais gritante, 93,9% desses escritores, entre homens e mulheres, eram brancos. A pesquisa vai mais adiante para mostrar como esses números ecoam narrativas predominantemente masculinas. Nos 258 romances estudados, 62,1% dos personagens importantes eram homens e, entre os protagonistas, eles eram uma maioria ainda mais expressiva: 71,1%.

 

Em resposta à mesma questão que menciona o ensaio de Virginia Woolf, Dalcastagnè é objetiva: “Permanecem muitas dificuldades, inclusive as materiais. Afinal, o fenômeno da dupla jornada de trabalho afeta as mulheres em todas as ocupações profissionais. Elas têm menos tempo livre porque são responsáveis pelas tarefas domésticas, logo, têm menos tempo para escrever também. Há também os filtros quase inconscientes, que fazem com que os escritores homens sejam privilegiados, até mesmo pelo fato de que as confrarias de escritores que se formam são quase exclusivamente masculinas. Mas talvez a principal dificuldade esteja na permanência da ideia de que as mulheres fazem ‘literatura feminina’, o que as aprisiona numa determinada dicção, num círculo de temáticas, em algo que é, já de antemão, uma literatura ‘menor’. Mulheres que resistem a isso têm que estar dispostas a pagar o ônus da estranheza em relação às suas obras”, afirma.

 

Sua pesquisa, bem como os conflitos apontados por várias escritoras mais confortáveis com as velhas/novas pautas feministas, surgem de uma mesma demanda de representação das identidades fragmentadas da pós-modernidade postulada por Stuart Hall. Mulheres, negros, lésbicas, gays e transgêneros, seres socialmente periféricos de uma maneira geral, exigem os espelhos que lhe são de direito e que permanecem sendo negados a partir do momento em que até para reconhecer Machado de Assis como o grande cânone da literatura brasileira, simbolicamente se extrai dele sua cor negra. Mas, quando uma escritora como Ana Luisa Escorel sobe ao palco para receber o prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura de 2014 e aponta em seu discurso que, depois sete edições, o evento finalmente premia uma mulher e, mais ainda, uma “autora tardia” em uma editora pequena, algumas pessoas se mexem desconfortáveis em suas cadeiras. E a literatura, tal como qualquer outra arte, só tem a ganhar com esse atrito.

 

Porque pouco tempo depois de admitida na empresa já conseguia atrair a conversa para os assuntos do trabalho, esotéricos para aquele grupo de amigos e parentes voltado para outros mitos, praticante de outros ritos, fazendo pergunta atrás de pergunta na curiosidade típica dos não iniciados. As mulheres, então!

- Esteve com ele?!!

- Faz parte...

- Gato, como nos jornais?

- É...

- Te deu bola?

- Casado!

- E daí?

- ...”

Ana Luisa Escorel, no livro Anel de vidro(Editora Ouro Sobre Azul)

 

O que refletem essas premiações (a pontuar que o disputado Prêmio Portugal Telecom de Literatura nunca, em sua condecoração maior, elegeu uma mulher) e antologias como a supermidiatizada Por que ler os contemporâneos?(Dublinense), em que de 101 autores “essenciais”, apenas 14 são mulheres? No campo literário, ainda que o exercício da ficção consista em se colocar no outro, termina havendo uma predominância de um ponto de vista de quem, por questões de projeção, reproduz o que lhe é mais familiar. A dúvida maior parece ser: esse estado das coisas deve ser minimizado por uma gradual “evolução” da condição social da mulher e naturalizado como inevitáveis (in)consequências históricas, ou haveria de fato um mercado editorial (e uma indústria de cinema, da música...) machista? Ou, para além da pauta exclusivamente feminista (ainda que essa pauta se aplique a todas as demais minorias políticas): deveria esse mercado editorial ser tão refém dos padrões socialmente opressores que as estratégias de consumo perpetuam?

 

Elvira Vigna, escritora veterana e autora de um dos romances mais elogiados de 2014, Por escrito, é incisiva: “O achatamento da fala é feito pelo mercado. Não há nada de ruim em ninguém. Nem em homem, nem em universitário do sudeste ou em heterossexuais. A formatação necessária às ações de marketing(que não se dirigem ao individual, mas sempre a um coletivo) é que é ruim. A formatação necessária desse ‘produto’ (a literatura vista como produto dá um workshopinteiro) é ruim porque corta tudo que não se enquadra nos canais de venda, nos processos de venda já existentes e testados. É o maior atraso de vida, de criação, de tudo. É a morte.”

 

Mais jovem, Carol Bensimon, autora de três romances e colunista do blog da Companhia das Letras, relativiza: “No mercado editorial brasileiro, mulheres estão sendo publicadas (em número menor, é verdade, não é tão rápido corrigir uma discrepância histórica), estão concorrendo e ganhando prêmios, mas como apontar e quantificar os momentos em que uma escritora é preterida, simplesmente por uma questão de gênero, em favor de um escritor homem, e isso na sala de uma editora, na mesa de um jornalista, na cabeça de um leitor indeciso diante de uma estante? Claro que isso acontece diariamente. Mas é quase impossível perceber quando, onde e de que forma se dá essa diferença de tratamento”.

 

Em entrevista publicada no fim do ano passado pelo O Globo, uma das mais procuradas e respeitadas agentes literárias do Brasil, Luciana Villas-Boas, ex-diretora editorial da Record, chegou a afirmar que “há no meio editorial a ideia de que toda autora quer ser Clarice Lispector, oferecendo um tipo de pastiche clariciano odiado pelo público”. E que “com um número tão inferior de mulheres publicadas, é natural que elas sejam menos contempladas em premiações”. Curiosamente (contém ironia), a literatura da própria Clarice, com frequência, foi associada pelos próprios críticos literários a uma espécie de bruxaria inerente à autora, como se seus extraordinários poderes de concisão da alma humana não pertencessem ao intelecto, mas, sim, a fenômenos paranormais. No mesmo tópico, é importante notar como, do lado masculino, não se tem conhecimento de nenhum autor contemporâneo vivendo às sombras de fantasmas como Machado de Assis ou Guimarães Rosa.

 

No dia em que te conheço, você está com uma camiseta em que está escrito ‘Sexo Não Tem Gênero’. Cochicha no meu ouvido outras frases também sem muito sentido, mas com a aparência de que têm. Fico com a impressão de que você deve ser muito culto. Só pode. Depois vejo meu duplo engano. A camiseta nem é sua. Derrubaram vinho, daquele de garrafa de plástico que ambulante vende. Ou foi vômito e você falou que foi vinho. O caso é que você arranja outra camiseta, essa. Aquela.”

Elvira Vigna, no livro Por escrito(Companhia das Letras)

 

Ainda no tópico do mercado, tem sido muito publicizado o crescimento de vendas de um gênero agora conhecido como chick-lit, em que mulheres reafirmam esse espaço da figura feminina como uma personagem que orbita a centralidade masculina. Tramas sobre meninas e mulheres à procura de um namorado ou marido são constantes. Esses livros são usados com frequência para endossar a afirmação pueril, para não dizer mal-intencionada, de que existe uma literatura feita para mulheres e uma outra escrita para homens. Quase um prolongamento das divisões cromáticas entre o rosa e o azul numa loja de brinquedos.

 

Ilustração por Karina Freitas

 

ENTRELINHAS DO ATIVISMO

Como aponta o trabalho de Regina Dalcastagnè, o mesmo discurso das mulheres sub-representadas em escolhas editoriais se aplica também quando o ponto de partida da escrita se dá por um autor fora do protagonismo eurocêntrico. Se as mulheres ainda enfrentam dificuldades materiais para escrever, uma pessoa que vive na periferia das grandes cidades pode passar por problemas ainda maiores: “Não é dificuldade de produzir, mas de existir. Sem participar do “clubinho”, sem tomar cafezinho com os editores, sem ter acesso a esse meio, fica difícil chegar no mercado. Eu fui algo à parte. Sou igual aos grupos de forró, tecnobrega, que chega porque pegou o povo primeiro, depois o mercado e a mídia reconhecem. Esse é um caminho que os autores de periferia estão trilhando”. A opinião é de Ferréz, hoje editado pela editora Planeta e conhecido — rótulo, claro, dado pelo mercado — como ‘o escritor da periferia’” (difícil seria imaginar alguém sendo marcado como “escritor do centro”).

 

O fato desse aplainamento narrativo ser resultado de um contexto maior, onde diversas minorias terminam sendo reconhecidas apenas quando a elas são reservadas gavetas fechadas — “literatura feminina, literatura de periferia” — não exime a necessidade do debate. “Isso gera narrativas muito parecidas (de homens brancos heterossexuais), o que de certa maneira reflete uma série de mídias que são assim. O que se acaba aprendendo é a vida sob o ponto de vista de um homem. Eu já li narrativas de masturbação masculina várias vezes, já li diversas análises de corpos femininos em livros. A existência da mulher (e de outras minorias) só existe a partir de uma lente masculina. Demorei muito a achar um livro que tivesse masturbação feminina. Por quê? Por que se fala tão pouco de menstruação ou de temas femininos no geral? O que isso acaba, simbolicamente, mostrando é que: é assim que um homem vive e o jeito que um homem vive merece inclusive ter histórias contadas a respeito. O papel da mulher se torna algo “em relação ao” homem, o que é um simbólico terrível. Mesmo quando a protagonista é mulher, um autor homem pode fazer um excelente trabalho, mas nem sempre. Essa variedade de olhares é necessária”, frisa Luisa Geisler, que, no fim de 2014, se viu na berlinda de comentários machistas após um artigo seu publicado no jornal O Globo, com o título de Eu escrevo como mulher, sim.

 

Nele, a jovem autora chegava a afirmar que já ouviu “elogios” do tipo “você escreve como um homem” ou a variação “você não escreve como outras mulheres”. Luisa, tal como Elvira, a poeta Angélica Freitas, Adelaide Ivánova (leia texto inédito sobre esse mesmo assunto na página 19) e, mais recentemente, a já citada Ana Luisa Escorel, são algumas das que há pouco tempo se afirmaram incomodadas com a supremacia do lugar de fala preponderantemente masculino-branco-classe-média. Freitas, que em 2012 publicou o livro Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify), reunião de 35 poemas a lidar com a questão da identidade feminina, chega a usar esse conflito de poderes como tema maior de seus versos: “uma mulher incomoda/ é interditada/ levada para o depósito/ das mulheres que incomodam”, escreve. Ao lado de Ricardo Domeneck, Fabiano Calixto e Marília Garcia, Freitas é também editora da revista (impressa e online) Modo de Usar, um espaço literário reservado a narrativas dissidentes, em prosa e poesia, dos padrões hegemônicos do mercado.

 

Recebi um abraço demorado e um ‘Paris te fez bem’, frase que achei melhor rebater apenas com um sorriso do tipo padrão. A alguns metros de distância, um homem usando bombachas olhava para a gente com certo interesse triste.”

Carol Bensimon, no livro Todos nós adorávamos caubóis(Companhia das Letras )

 

Questionada sobre se há um exercício político em sua obra, ao escrever usando protagonistas mulheres, Luisa Geisler pondera: “Apesar de essa escolha — assim como escolher um personagem masculino — ser um exercício político, não é a intenção. A ideia de fazer literatura feminista é uma ideia ruim para a autora, porque ‘feminismo’ é uma palavra pouco popular. A ideia de ter uma ideologia incomoda as pessoas, que se sentem parte de um terrível complô, sem que elas percebam que toda a literatura tem alguma forma de ideologia por trás. Ninguém escreve no vácuo. No entanto, não gosto de fazer livros didáticos ou panfletários. Jamais iria querer escrever O mundo de Sofiado feminismo, por exemplo. Não tenho intenção política ou ideológica, mas acaba acontecendo. É impossível pra mim ler um livro e não notar quando uma personagem feminina não apenas está reduzida a um cargo (a mãe, a namorada, a esposa, a amante, a secretária desejada), como também é usada como mera ferramenta narrativa. É incrivelmente comum vermos personagens femininas que não são coerentes, mas que fazem coisas porque essas coisas vão ter um resultado no protagonista, em geral homem. A minha escolha é de fazer personagens mulheres que façam sentido, que tenham começo, meio e fim, que tenham complexidades emocionais que não sejam vistas como ‘mimimi’”.

 

Já Elvira, diante da mesma questão, é mais uma vez enfática: “Sim. Em 1978, fiz um infantil, o Viviam como gato e cachorro(Editora Dimensão). Ilustrei meu próprio texto. É a história de um casal, transposta para seus dois animais de estimação, um gato e um cachorro. Fiz a menina sempre vestida, e muito vestida, com saias compridas. O menino está sempre nu, o peruzinho pendurado. Nada no texto me autorizava a fazer isso, mas fiz. Era um desafio à coisificação da mulher na mídia. O livro ganhou o prêmio APCA de melhor ilustração e um ‘altamente recomendável’ na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. As coisas pioraram muito desde então. Duvido profundamente que algum editor topasse publicar essas ilustrações, hoje”, diz ela.

 

#LEIAMULHERES

As provocações das escritoras da literatura contemporânea brasileira, mais do que qualquer outra minoria política, apontam, sim, para a premência da discussão, mas estão longe de indicarem saídas fáceis. Em comum, essas autoras questionam a invisibilidade da figura da mulher na literatura, mas estão todas longe de sugerir uma solução comum ao problema que não seja o combate ostensivo e intensivo ao machismo nosso de cada dia, dentro e fora das páginas (e o mesmo vale para o brancocentrismo, classemediacentrismo, sudestinocentrismo, e assim por diante). Combate a afirmações do tipo “você escreve como um homem” ou a polemistas como o jornalista André Forastieri que, no mesmo ano de 2014 em que se lançou uma campanha nas redes sociais conhecida como #leiamulheres, publicou um artigo com o título Eu não leio livro escrito por mulher, sugerindo que há, sim, textos pensados para homens e outros direcionados a mulheres, ou a “mulherzinhas”, como ele define a literatura de Jane Austen.

 

Tenho estranhado o Gilsinho. Ele aceita tudo com tanta mansidão, mas alguma coisa está deixando esse menino mais forte, ele faz o que peço, mas não é mais como antigamente. Ele temia minha voz, minha aproximação, ele está ficando superior. O corpo já poderia me surrar até a morte. Ele já poderia me abandonar por justa causa. Ele já podia ter percebido que sou confusa o suficiente para achar que um aborto ainda é uma possibilidade. Eu o mataria no meio de um descontrole, com um tiro certo, caída no chão depois de um telefonema como o que acabei de receber.”

Andrea del Fuego, no livro As miniaturas(Companhia das Letras)

 

Pergunto então à Regina Dalcastagnè se houve alguma recepção negativa às conclusões de sua pesquisa sobre os “territórios contestados” da literatura brasileira contemporânea. Ela responde com outra questão: “De um modo geral ela foi recebida com muito interesse. Houve algumas leituras equivocadas, como se eu estivesse defendendo uma espécie de patrulha literária ou propondo um manual do romance politicamente correto. Então, alguns escritores e críticos reagiram, brandindo o valor ‘universal’ da literatura. Eu questiono essa ideia de valor universal, a ideia de que uma obra literária é algo fora do tempo e do espaço. Mas mesmo que aceitemos isso, fica a pergunta: por que esse ‘universal’ só é atingido em narrativas sobre intelectuais de classe média? Por que as mulheres pobres, negras, da periferia estão ausentes do ‘universal’?”

 

Em tempos de identidades manipuladas a favor de neoapartheidse do medo do outro, questionar o que é “universal” e a quem ele serve pode ser o começo de tudo. O elefante começa a se mover na sala de cristal, onde o senhor “universal” repousa inabalado. E para efeito da criação, é sempre bom escutar o barulho das coisas se quebrando.

 

 

Leia o texto de Adelaide Ivánova na seção de Inéditos: Sobre tradução