capa 142Do real e da ficção

Sobre como toda a obra de Margaret Atwood, e não apenas "O conto da aia" fala sobre as crises do nosso tempo. E mais: o lugar do Afrofuturismo nas narrativas assinadas por mulheres negras; cartas de Françoise Ega a Carolina de Jesus; design editorial em 2017

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Atwood fala sobre aborto, Twitter e o que deu errado (leg. em espanhol)

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José Castello

Everardo Norões

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michael
 
Nos livros que traduz, nas antologias em que figura, nos festivais de que participa, Michael Kegler é apresentado mais ou menos assim:
 
Nasceu na Alemanha em 1967. Passou parte da infância no Brasil, onde foi alfabetizado. Foi pupilo da agente e tradutora alemã Ray-Güde Mertin. Trabalhou na tradicional Feira do Livro de Frankfurt durante mais de uma década. Traduziu alguns dos escritores contemporâneos em língua portuguesa mais conhecidos, como Ondjaki, José Eduardo Agualusa, João Paulo Cuenca, Luiz Ruffato, Gonçalo M. Tavares e Michel Laub. Em 2014 recebeu o prestigiado Prêmio Straelen de Tradução.
 
Mas também é possível apresentá-lo de outra maneira:
 
Michael Kegler nasceu na Alemanha em 1967 e ainda recém-nascido mudou-se com a família para a Libéria. Aos 4 anos uma nova mudança levou-o para Congonha do Campo, Minas Gerais. Na adolescência, na Alemanha, flertou com o Anarquismo e quis mudar o mundo. Para evitar o serviço militar trabalhou num hospital psiquiátrico. Era para ser um serviço de alguns meses. Ficou por quatro anos. Na Universidade criou sua própria grade curricular: assistia às aulas que tinha interesse (História, Inglês, Tradução, Filosofia) sem nunca fazer uma avaliação. Trabalhou na construção civil e numa livraria. É o tradutor de alguns dos principais nomes da nova literatura em língua portuguesa, mas não sabe dizer muito bem como chegou até lá, nem explicar como trabalha.
 
Michael Kegler fala português com sotaque de Minas Gerais. Gosta de cachaça e de conversa. O estereótipo do alemão está muito mais no seu físico — é bastante alto, tem uma cabeleira loura e os olhos claros — do que no seu caráter: não é metódico nem ordenado, é informal no trato com as pessoas e a improvisação não é algo que lhe confunda, mas o agrada. Conta que nunca fez muitos planos na vida. “Fui fazendo coisas. Trabalhava em livraria, uma tradução aqui outra ali, projetos com a Feira de Frankfurt, até desenhos para jornais eu fiz.” Na Universidade, saltou de um curso para outro sem terminar nenhum. “Essa coisa anarquista de querer uma formação, mas não querer papelada”, sorri ao dizer. “Em 1995 nasceu a minha filha, eu não estava casado ainda. Pensei: vou concluir o curso. E então percebi que não tinha comprovante de nada, tinha feito provas e nunca ia buscar os resultados. Não tenho comprovante do meu estudo universitário. Tentei recuperar isso, voltei às aulas, mas não tinha disciplina. Era muito chato conviver com alunos muito mais novos, e acabei por abandonar de vez o curso”.
 
Chegou à tradução quase que por acaso. Um dia viu na universidade o anúncio de um curso com uma tradutora. Lembrou-se de ter visto o nome dela (Ray-Güde Mertin, uma prestigiada professora, tradutora e agente literária já falecida) num livro que uma vez lera (Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão) e decidiu inscrever-se. Com a ajuda da professora arrumou um trabalho como livreiro. Por conta do trabalho na livraria foi convidado para colaborar na Feira de Frankfurt. Um dia, nessa feira, foi fumar um cigarro e comentou com um conhecido, funcionário de uma editora, que estava lendo um brasileiro chamado Fernando Molica. Contou o enredo com tanto gosto que ouviu como resposta: “Não gostaria de traduzir esse romance?” Foi o primeiro livro que recebeu para traduzir — antes havia traduzido um romance de um mítico comunista português, Álvaro Cunhal, numa edição totalmente caseira, trabalho feito por ideologia e gosto. Após a tradução do Molica foi procurador por uma editora que havia adquirido os direitos de publicar o angolano José Eduardo Agualusa. A engrenagem tinha sido colocada em marcha, já não faltaria trabalho para Michael. “Se calhar é porque sei fazer isso bem, mas tive muita sorte na vida também. Sou tímido e não sei pedir trabalho, não sei vender nem negociar valor.” 
 
O tempo foi passando, e Michael, meio que sem se dar conta, virou uma referência em sua área, modelo para os mais novos. “Isso de ser uma referência assusta, até porque não sei explicar como faço, eu sei fazer. Às vezes me sinto um pouco inferior a esse pessoal que vem do universo acadêmico, que sabe explicar o que está fazendo. Não tenho muita teoria. Apesar de ter estudado muito eu não posso explicar gramática, não posso explicar porque é que faço tal coisa. É muito intuitivo. A tradução tem que soar bem aos ouvidos, como diz o Chico Science. Basta soar bem aos ouvidos, não é isso? Para mim é assim que funciona.” Há, sim, um princípio do qual não abre mão: o da fidelidade. “Trabalho muito de maneira intuitiva, mas faço também questão de não ser o autor do texto. Pretendo ser rigorosamente fiel ao autor, por respeito ao trabalho dele. O leitor comum é dono do texto, pode fazer com ele o que quiser. Eu não posso fazer nenhuma leitura deliberada, mas sim tentar chegar perto daquilo que o autor queria que o texto fosse.”
 
Sem muita teoria e sem muito plano, as traduções foram aparecendo, vieram prêmios, convites, propostas e pedidos. “No Brasil eu criei uma fama. É estranho. A gente nunca sabe se está realizado. Isso de tradutor conceituado é difícil e traiçoeira. É perigoso, a gente começa a ter fama, se achar o melhor, e de repente te recusam uma tradução. Tenho a sensação de que a qualquer momento a festa pode acabar. Um dia alguém pega uma tradução minha, destrói, e fim.” A profecia parece distante. No ano passado Kegler foi condecorado com o Prêmio Straelen de Tradução, por Eles eram muitos cavalos (Es waren viele Pferde), livro de Luiz Ruffato. O galardão foi dividido com Marianne Gareis, pela tradução de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Foi a primeira vez que o badalado prêmio foi entregue a uma tradução do português. 
 
O BRASIL EM FRANKFURT
 
Em 2013, o Brasil foi o país convidado da Feira do Livro de Frankfurt. Responsável por organizar diversas atividades no evento, Michael Kegler aproximou-se ainda mais de escritores brasileiros e das instituições do país. Também, um pouco que sem querer, ajudou a mudar algumas políticas relacionadas ao apoio à tradução. “Em 1994 fiquei meio chateado com a participação do Brasil em Frankfurt [naquele ano também foi o país convidado], porque foi aquele oba-oba e depois acabou, não ficou nada. Fiquei muito frustrado. Fiz o requerimento, à época, para traduzir um livro e não obtive nem resposta. Nos preparativos para 2013 coloquei isso tudo na mesa. Disse que o programa de apoio à tradução não funcionava, que o formulário tinha 36 páginas e o de Portugal tinha duas; que portugueses cumpriam prazos e pagavam, e davam resposta, e que era assim que se fazia. Fui bastante indelicado, mas teve alguém na reunião que escutou e passou aquilo que eu disse diretamente para o Ministério da Cultura. E a coisa evoluiu”, explica. “Agora o programa de apoio à tradução funciona. Funciona porque as pessoas que estão atrás são excelentes. Sabem dos problemas que um tradutor enfrenta, já não é tão burocrático. Muitos livros foram traduzidos nos últimos anos graças a isso.”
 
Também naquela edição da Feira, Kegler foi testemunha do inflamado e crítico discurso proferido por Luiz Ruffato na abertura. “Nós já nos conhecíamos, eu já havia traduzido um livro dele e fiquei sabendo antes o teor porque ele me enviou o texto perguntando o que eu achava. E depois o traduzi para o material de imprensa. Estávamos todos muito nervosos, porque sabíamos que era um discurso duro, mas ninguém contava com as reações que vieram. Pessoal aplaudindo de pé, todo mundo querendo falar com ele, e, também e infelizmente, as hostilidades, que nos preocuparam muito. Mas houve muita solidariedade, por parte dos alemães inclusive.” 
 
O discurso foi um divisor de águas na vida do escritor mineiro e aproximou-os mais. Em 2014 o amigo Luiz Ruffato visitou a pequena Hofheim, vila onde a família Kegler vive, e viu como o tradutor alemão tornou-se famoso de um dia para o outro. Apareceu na televisão com seu ar de hippie, jogando futebol com o brasileiro, e deu entrevista para o jornal local. “As velhinhas da minha vila vieram falar comigo, com o jornal na mão, e queriam que eu assinasse. Ficaram contentes, porque achavam que eu não trabalhava, não me viam sair de manhã como os outros vizinhos. Estavam aliviadas e orgulhosas, porque em cima descobriram que sou tradutor literário. Sou quem menos ganha ali naquela vila, mas eles acham que isso é uma grande coisa”, diverte-se. Michael sempre pensou que a tradução poderia ser algo transitório, mas com o tempo vem mudando de opinião. “Isso de ter uma profissão ‘de verdade’ ficou complicado. Sempre pensei que se a coisa não corresse bem voltaria a trabalhar na construção civil. Agora que fiz 48 anos pensei: já não me aceitam. Se for pedir emprego numa fábrica de automóveis não me admitem. Não tenho saída, vou continuar com a tradução”, diz e sorri com gosto.
 
Entre os escritores brasileiros que já traduziu, além do amigo Luiz Ruffato, demonstra uma queda especial por Eliane Brum. “Eu traduzi um conto dela e queria traduzir mais coisas. Gosto muito do que ela escreve, acho que ela tem um olhar diferente, muito para as margens, independente do assunto que aborde. Acho muito interessante.”
 
Com um pouco de sorte, mas sobretudo com talento e uma maneira de trabalhar muito generosa, Michael Kegler vai se consolidando como um dos principais tradutores alemães — essa escola tão respeitada no mundo editorial. Um tradutor  com algumas características próprias, como colocar o coração diante do bolso na hora de escolher os projetos. “Até agora só tenho traduzido quem eu gosto. Não sei se vai ser sempre assim. Acho que gostar do livro é um passo importante para que a tradução fique boa. O livro que você traduz vira também um pouco seu. Ele me acompanha, cada palavra daquele livro também é minha palavra.”