capa 154Poesia e resistência

A poesia de Solano Trindade, ícone das artes afro-brasileiras, é leitura importante para hoje e 2019. Mais: os memes e a narrativa política em 2018; personagens trans na literatura brasileira; Suely Rolnik fala sobre micropolítica, descolonização do inconsciente e resistência

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Raquel Trindade declama um poema de seu pai, Solano

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José Castello

Everardo Norões

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raimundo abismo

Um livro em tudo surpreendente. É assim que podemos tentar definir Colisões bestiais, da brasileira Kátia Bandeira de Mello Gerlach. Uma tentativa de definição (tentativa, pois não existe uma definição muito clara), seria dizer que ele é, ao mesmo tempo, belo e caótico, naquele sentido de um caótico estético, onde o horroroso e o monstruoso se alinham à beleza com tanta sutileza que passam a compor o delicado tecido dessa mesma beleza, erguendo, enfim, uma obra que provoca espanto e inquietação. Afinal, conforme Henry Miller, caos é aquilo que a gente não entende. E nem precisa entender, porque na Arte, beleza não é aquilo que se entende, mas o que se admira, com a força de um vulcão soltando lavas aos nossos pés. No caso deste livro de Kátia, basta observar o título, em si mesmo confuso e caótico, acrescido da palavra Particulares, entre parênteses, cortada no sufixo –assim: Colisões bestais (particula)res–, revelando uma palavra dentro de outra, abrindo caminho para outro título. Ou seja, um título que se desdobra em outros títulos, num jogo de espelhos infinito. Jogo de espelhos que se renova e se revigora para criar um tecido literário labiríntico — não se contentando com aquele textinho pequeno-burguês de paletó e gravata, arrumadinho, miudinho, bonitinho, que se parece muito com toalha de linho posta na mesa do domingo, que só ganha verdadeira beleza e vigor quando jogamos cerveja e vinho sobre ela. Talvez um pouco de feijão e muito de caldo de carne. Para quebrar a indolência e a preguiça do domingo sob os sermões de papai e de mamãe.

É assim que deve ser a literatura: um insulto aos domingos preguiçosos, realizando-se plenamente no risco de atravessar o abismo num fio de arame, como destaca Rubem Mauro Machado na orelha do livro. Aliás, livro que tem, ainda, a quarta capa assinada pelo consagrado Gonçalo M. Tavares , o escritor português muitas vezes premiado na Europa, destacando ser este um belíssimo livro: ritmado com a língua que convém à língua; histórias e frases em jazz corrido; jazz alegre. É um livro insolúvel. Por isso mesmo, destacamos que se trata de um livro rebelde. Um livro que somente as mentes brilhantes podem produzir. Um dos seus textos mais bem realizados é “Cuspe no aquário”, destacado também por Gonçalo Tavares, de onde podemos pinçar esse curto exemplo:
“Se me perco nas ruas numeradas, zombam de mim? Os peixes morrem nos aquários. Alimento-os nas manhãs. Correm afoitos para engolirem o pó granulado de odor marinho, e à tardinha eles já, já morrem. Por vezes, nascem filhos e não sobrevivem, solúveis como os grãos. Difícil distinguir pai e mãe, nadam sem expor o sexo, embora corram uns atrás dos outros com ímpetos em momentos espontâneos e certos. Parecem para a minha redenção: um mecanismo medonho nos liga e transcende.”

Em certo sentido, o livro lembra muito História de cronópios e de famas, de Cortázar, pela liberdade da criação, absolutamente solta e leve, sem compromissos com as amarras da narração tradicional, principalmente sem a presença daqueles personagens densamente psicológicos, mas compromissados apenas com a elaboração do texto, em que Kátia se mostra envolvida e firme, fazendo o leitor se deliciar, também envolvido e seduzido, seguindo aquela grandeza que costumo mesmo chamar de sedução do leitor, em um ritmo quase sempre leve e rápido, sem paradas para reflexões, em longos monólogos ou solilóquios. Imagino que a autora deve ser uma leitora voraz do autor argentino, de quem herdou a capacidade de brincar com personagens e situações já reveladas em contos do mestre. Sem dúvida, a revelação de uma autora criativa e renovadora.

Percebam, então, que se trata de um texto muito bem escrito, mas sem esse arrumado de moçoilas ao vento, de sapatinhos arrumados em calçadas sem buraco. É preciso acreditar sinceramente na literatura para escrever um livro desses. Tão valente e tão forte, pedra de abismo que se destaca em meio à avalanche. Um nome para não esquecer — Kátia Bandeira de Mello Gerlach. Por favor.