Cildo.2 artigoLN fev2018

 

Minha obra aspira a uma condição de densidade, de grande simplicidade,
de imediatismo, de abertura da linguagem e de interação.
Cildo Meireles

 

Cildo Meireles é um dos mais significativos e respeitados artistas brasileiros em atividade, possivelmente o mais relevante naquilo que se convencionou chamar de “arte contemporânea”. Sua trajetória ocupa lugar central na transição entre o neoconcretismo dos anos 1960 e a produção estética da geração seguinte.

Cildo participou de diversas exposições coletivas e individuais no Brasil, nos Estados Unidos, na França, em Portugal, na Espanha, dentre outros países. Participou também de diferentes edições da Bienal de Veneza, Bienal de São Paulo e Documenta de Kassel. Em 2008, recebeu o Prêmio Velázquez de Artes Plásticas em reconhecimento à sua trajetória artística. Nesse mesmo ano, apresentou uma exposição individual na Tate Modern, em Londres – a primeira de um artista brasileiro vivo.

Conforme é apresentado na introdução do livro Cildo: estudos, espaços, tempo, organizado por Diego Matos e Guilherme Wisnik e recém-lançado pela editora Ubu (com acurado projeto gráfico de Elaine Ramos), o artista “se caracterizou por sempre tensionar as noções de ‘plástico’ e de ‘visual’ em seus trabalhos, alargando-as em experimentações sinestésicas que incluem os outros sentidos humanos – audição, olfato, tato e paladar –, mobilizando também reflexões sobre as propriedades simbólicas das matérias, os raciocínios lógicos e matemáticos e questões conceituais de fundo filosófico. E não menos importante: a desconstrução e a compreensão de seu lugar de origem e vivência – o Brasil e a multiplicidade de sua geografia e de sua cultura. Todos esses elementos postos em desvio, em mutação, deslocados dos seus lugares estabelecidos e convencionais”.

O volume, editado em três línguas (português, espanhol e inglês), apresenta uma ampla documentação visual, composta de estudos e projetos de obras notáveis como Eureka/Blindhotland, Malhas da liberdade, La bruja, Desvio para o vermelho, assim como trabalhos inéditos ou pouco conhecidos desse profícuo artista.

As premissas que deram origem ao livro, segundo os organizadores, partiram, por um lado, do reconhecimento da importância de publicar uma seleção de textos que explicitassem e pontuassem a trajetória de sua obra. Por outro, da vontade de apresentar um conjunto essencial de trabalhos com ênfase em uma ideia considerada por eles como fundamental para a poética do artista: “a noção de estudo”.

“Pode-se afirmar, justamente, que o conceito de estudo é um dos eixos estruturadores da obra de Cildo Meireles. Pois, para ele, inclui tanto a ideia de um esboço que demarca um projeto cuja realização efetiva se dará no futuro, como também, pela via conceitual, a noção de um trabalho que já se realiza plenamente enquanto estudo, como um conjunto de instruções para ações” – escrevem os organizadores.

É possível que aqueles que acompanham há algum tempo o que é escrito e publicado sobre a sua obra sintam falta de alguns textos importantes em sua fortuna crítica (entre eles o ensaio de Paulo Herkenhoff presente no livro Cildo Meireles, editado pela Cosac & Naify, e hoje esgotado). A escolha editorial, no entanto, privilegiou leituras que não se encontram facilmente acessíveis ao público brasileiro.

Cildo Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1948. O pai e o tio eram indigenistas e faziam parte da equipe do marechal Rondon. Por isso, ainda criança acompanhou os deslocamentos da família pelo território brasileiro, em expedições de aproximação a tribos indígenas. A vivência das extensões territoriais do país e o contato com culturas indígenas marcaram sua formação pessoal e tiveram grande influência em sua produção.

Em 1963, iniciou seus estudos em arte na Fundação Cultural de Brasília, cidade para a qual havia se mudado com a família em 1958. Em 1965, participou pela primeira vez de uma exposição, integrando o II Salão Nacional de Arte Modena de Brasília. Dois anos depois, em 1967, exibiu seus desenhos no Museu de Arte Moderna de Salvador. No mesmo ano, retornou ao Rio de Janeiro, onde cursou por um breve período a Escola de Belas Artes e frequentou o ateliê de gravura do MAM.

Em 1969, Cildo participou com Espaços virtuais: cantos de uma mostra que selecionaria a representação brasileira para a Bienal de Paris. Essa exposição foi fechada pela polícia no dia de sua inauguração. Ainda em 1969, e com os mesmos trabalhos da exposição censurada, ganhou o grande prêmio do Salão da Bússola, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Foi nesse momento que o artista deu início a uma série de trabalhos bastante conhecida e celebrada, denominada Inserções em circuitos ideológicos, e que consiste em gravar informações, instruções e mensagens críticas em objetos de circulação cotidiana, devolvendo-os posteriormente aos seus devidos circuitos. Assim, a obra, que trata da produção, distribuição e controle de informação, só acontece quando ativada e realizada pelo interlocutor.

Em Projeto Coca-Cola, garrafas de refrigerante retornáveis são gravadas com instruções e opiniões críticas e devolvidas à circulação. Já em Projeto cédula, cédulas de papel-moeda são carimbadas e também repostas em circulação. Entre estes trabalhos estava um que, em 1975, fazia menção direta ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar, mas cuja morte foi divulgada oficialmente como um caso de suicídio.

Trinta e oito anos após carimbar cédulas com a pergunta “Quem matou Herzog?”, Cildo retomou a obra, desta vez com a tortuosa pergunta “Cadê Amarildo?”. O pedreiro Amarildo Dias de Souza, morador da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, desapareceu em 2013 depois de ser levado por policiais militares à sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) para prestar esclarecimentos. Tempos depois, a Justiça do Rio confirmaria que os policiais envolvidos no crime torturaram e mataram Amarildo.

O início da carreira do artista foi marcado também pelo envolvimento em projetos experimentais, como Do corpo à terra, em 1970, coordenado por Frederico Morais, e Agnus dei, do mesmo ano, com uma exposição no final proposta também pelo crítico. Foi justamente ele o primeiro a produzir análises sobre a obra de Cildo, tendo publicado com certa frequência sobre ela no Diário de Notícias e em O Globo, ambos jornais cariocas, durante toda a década de 1970. Entre eles, está um dos textos agora reproduzidos no livro, publicado em 1969 no Diário de Notícias.

Nele, somos apresentados ao “jovem artista Cildo Meireles – uma das personalidades mais fortes da nova arte brasileira”, um jovem de “longa cabeleira e rosto magro” e cujo “trabalho é praticamente desconhecido do público carioca”. O crítico atesta a qualidade de uma produção já extensa e lamenta que o público não esteja acompanhando seu desenvolvimento. Por fim, Morais diz que retornará a falar de Cildo Meireles – o que de fato fez diversas vezes.

Embora Cildo tenha integrado em 1970 a célebre exposição coletiva Information, realizada no MoMa de Nova York, seus trabalhos foram expostos predominantemente em salões, galerias e museus brasileiros entre os anos 1970 e 1980.

É de 1981 o primeiro livro sobre sua obra, publicado pela Funarte como parte da coleção Arte Brasileira Contemporânea. Foi nele que Ronaldo Brito publicou um ensaio seminal sobre a sua obra, republicado agra no livro da Ubu. É desse período também o breve ensaio de João Moura Jr. Produzido no contexto da exposição Obscura luz (1983), o texto, que foi publicado em um folder de acesso restrito, traz ao leitor conceitos compreendidos na produção objetual do artista, relativos à leitura dos signos presentes no campo da linguagem.

Como atestam os organizadores, a passagem dos anos 1980 para os 1990 foi decisiva na trajetória do artista, tanto do ponto de vista das obras, como do seu reconhecimento, visibilidade e institucionalização. Em 1989, Cildo expôs na lendária (e polêmica) exposição Magiciens de la Terre, realizada no Centro Georges Pompidou, em Paris, com curadoria de Jean-Hubert Martin. O trabalho apresentado foi Missão/Missões (como construir catedrais), feito com base em outro projeto curado por Frederico Morais em 1987-1988, Missões 300 anos: Visão do artista.

A obra, uma instalação de 3x3x6m, é constituída por um piso forrado com cerca de 600.000 moedas e demarcado por 80 lajotas, tendo no centro uma haste feita com 900 hóstias de comunhão. No topo, uma cobertura de metal, feita de 2.200 ossos pendurados, arremata o conjunto escultórico. Por fim, um véu negro circunda toda a instalação. A obra, uma espécie de equação da colonização do Brasil, na qual poder material e religioso se associam e resultam em tragédia, é um contundente exemplo que atesta a potência política e estética da trajetória de Cildo, jamais resvalando em um panfletarismo vulgar.

O texto de Lisette Lagnado é de 1998 e situa a instalação Desvio para vermelho no contexto da complexa história da arte brasileira do século XX. A análise se deu a partir da proposta curatorial de Paulo Herkenhoff e Adriano Pedrosa para a 24ª Bienal de Arte de São Paulo (Bienal da Antropofagia), na qual o trabalho foi mostrado. O texto de Suely Rolnik, de 2008, debruça-se sobre a mesma obra, oferecendo dois caminhos interpretativos do universo temático e conceitual do artista.

A atuação crítica de Guy Brett foi fundamental para a inserção da arte brasileira no cenário internacional. Guy foi pioneiro no reconhecimento da nossa produção, quando pouco, ou nada, era conhecido fora do país, tendo escrito sobre artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Mira Schendel, Cildo Meireles, dentre outros. Seu texto presente no livro, de 2003, sintetiza e consolida suas principais ideias acerca do trabalho de Cildo, funcionando também como um ótimo ponto de partida para aqueles menos habituados com sua obra.

O ensaio de Maaretta Jaukkuri, também de 2003, tem a implacabilidade do tempo como um conceito-chave para a compreensão da obra de Cildo. Outro importante interlocutor da produção mais recente do artista é Moacir do Anjos. Em seu texto, de 2006, Moacir oferece uma instigante análise que amplifica a compreensão de algumas das principais obras de Cildo em relação a reflexões importantes nos campos da geografia, da economia política, do transculturalismo e da globalização. Lynn Zelevansky, em um texto de 2008, oferece uma leitura sobre a lógica constitutiva das instalações do artista, fazendo uma análise do impacto espacial, físico e psicológico no corpo e na vivência do espectador.

Assim como os ensaios de Lynn Zelevansky e Suely Rolnik, o texto de Sônia Salztein foi publicado anteriormente no catálogo da Tate Modern, organizado por Guy Brett em 2008, e até então inédito no Brasil. Sônia foca sua análise em uma investigação de aspectos poéticos e formais em algumas obras do artista. Já o ensaio de Diego Matos, organizador do livro, é uma adaptação de um capítulo central de sua tese de doutorado (2014/17) sobre o artista. Nele, o autor põe Cildo e sua prática em diálogo com a produção científica, em especial com a física, construindo um novo repertório de referências.

Outro texto inédito até então é o segundo – e formidável – de autoria de Frederico Morais. Em A arte como trabalho sedutor de contrainformação industrial, cultural e ideológica, de 2000, o crítico faz um breve, porém intenso, panorama da obra e da biografia do artista até o fim do século XX. Se o Cildo de seu texto anterior era um jovem ainda desconhecido, agora estamos diante de um artista maduro e consagrado, mas que nem por isso abriu mão da radicalidade estética e política de sua obra. Sua personalidade se mantém forte – ao menos é o que atestam as obras –, sendo ainda capaz, tantos anos depois de iniciada sua trajetória, de nos proporcionar uma sensação rara de ineditismo.

Por tudo isso, é bem provável que mesmo aqueles que já possuem algum nível de intimidade com a obra de Cildo Meireles se peguem bastante surpresos ao revistar sua trajetória neste livro que chega em oportuna hora.

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